Por que o furto de cabos elétricos é cada vez mais frequente?

O cobre é um dos metais mais utilizados no setor elétrico, sobretudo nas instalações elétricas de baixa tensão, pois, além de apresentar excelente condutividade elétrica, perdendo apenas para a prata, tem condutividade aproximadamente 40% acima da do alumínio. O cobre ainda possui outras características importantes, como boa maleabilidade, podendo ser moldado; boa ductibilidade, ou seja, suporta elevado grau de deformação antes do rompimento; grande durabilidade; e elevada resistência à corrosão.

O furto desse metal vem causando prejuízo de centenas de milhões de reais às entidades públicas e privadas, pois esses furtos de cabos e fios de cobre interrompem o fornecimento de energia em locais de serviços públicos essenciais à população, como a sinalização no trânsito e a iluminação de vias públicas, causando acidentes, em hospitais, paralisando atendimento e cirurgias, colocando em risco a vida de pessoas, e, no transporte público, dificultando a mobilidade urbana.

Configura-se o cobre como matéria-prima para muitos tipos de indústrias de transformação, que fabricam produtos, como panela, tubulação para aparelho de ar-condicionado, encanamento, estátua, medalha, adorno, eletroímã, magnetron de forno micro-ondas, motor elétrico, transformador elétrico, interruptor e relés, tubo de vácuo, cunhagem de moeda etc. Este processo garante a recepção e estimula o furto.

O metal é também utilizado na composição de ligas populares, como o latão, que é composto de cobre e zinco, e no caso do bronze, que é composto de cobre e estanho.

Existem evidências de que o cobre foi o primeiro metal manipulado pelo homo sapiens. Marcou o fim da Idade da Pedra Polida com a substituição das ferramentas de pedra pelas de cobre e ligas de cobre. Esse período histórico ficou conhecido como Idade do Bronze.

O cobre é um dos metais mais utilizados no mundo, assume papel estratégico para a intensificação da industrialização, e agora, mais recentemente, é um insumo fundamental no processo de mobilidade elétrica – motores de combustão interna usam, em média, 25 quilos de cobre. Os carros híbridos utilizam, em média, 40 quilos, enquanto veículos totalmente elétricos podem usar até 70 quilos. Isso fez o preço do minério saltar nos últimos anos, saindo de 4,4 USD/kg em março de 2020 para 11 USD/kg em março de 2022. No mesmo período, o dólar subiu de R$ 4,8 para R$ 5,4, além de, nos últimos 20 anos, o dólar (US$) ter se valorizado mais de 300% em relação ao real (R$). Esse cenário fez com que o preço do cobre subisse significativamente no mercado brasileiro, aumentando de R$ 28.000,00/tonelada para R$ 52.000,00/tonelada, fator que incentivou o furto.

A pandemia da Covid-19, combinada aos acentuados índices de consumo do minério por parte da China, também contribuiu para o aumento do preço. Assim, é comum serem encontrados estabelecimentos de sucatas/ferros-velhos pagando até R$ 50,00 por quilo de cobre.

Historicamente, o maior produtor mundial de cobre é o Chile, que representa aproximadamente 30% de toda a produção mundial. Mesmo estando geograficamente próximo ao Brasil, o Chile acaba tendo a China como seu principal mercado consumidor, não só pelo atual apetite voraz chinês por commodities, mas também pela facilitada rota marítima pelo Pacífico.

O problema de furto do material para venda é muito comum nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento. Geralmente, os furtos de cabos ocorrem em locais públicos, como praças, cabeamento aéreo e galeria com rede de energia elétrica, iluminação de vias públicas, sistema de abastecimento de água, escola pública, por não ter vigilância, unidade pública de saúde etc.

Esse tipo de furto geralmente era praticado por pessoas em situação de vulnerabilidade social e o material furtado era vendido em sucatas/ferros-velhos. Porém, o aumento do preço do cobre atraiu quadrilhas que se especializaram nesse delito.

Do ponto de vista geológico, outro desafio encontrado é a limitação/escassez dos depósitos naturais de minério de cobre, pois os superdepósitos estão terminando, e os novos que são descobertos normalmente apresentam teor mais baixo de cobre e são menores, o que faz com que o custo de extração do minério aumente também.

Nesse sentido, destacam-se algumas medidas para reduzir o furto de fios e cabos de cobre:

  • atuação do poder público para fiscalizar os meios receptadores, como sucateiros/ferros-velhos;
  • fiscalização e rastreabilidade aos sucateiros/ferros-velhos sobre as origens dos fios e cabos de cobre, como: informações pessoais dos vendedores, endereço, quantidade negociada e a frequência que ocorrem as vendas; 
  • em negociações de grandes volumes deve-se comprovar a origem do material em descarte através de nota fiscal;   
  • aumentar o controle das galerias de redes públicas e blindagem das caixas de passagem em vias públicas;
  • nas situações possíveis, substituir o cobre por outros tipos de materiais condutores, arranjos ou ligas;
  • aumento da vigilância eletrônica dos espaços públicos.

A reciclagem do material na perspectiva da economia circular é muito bem-vinda. O processo de reciclagem do cobre é cada vez mais importante. O que deve ser combatido é o furto do material, que provoca elevadíssimos impactos sociais.

Autores:

Por Danilo Ferreira de Souza, professor na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), doutorando em Energia pela IEE/USP e membro das Comissões de Estudo ABNT/CB-003/CE.003.064.001 – Instalações Elétricas de Baixa tensão e ABNT/CB-003/CE.003.064.010 – Proteção contra descargas atmosféricas.

Por Walter Aguiar, engenheiro eletricista e especialista em sustentabilidade. Atua como diretor geral da Abracopel-MT.

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