O risco de perda de serviços ao público (R2)

fev, 2019

Sergio Roberto Santos*

A importância da proteção contra descargas atmosféricas no Brasil é proporcional ao elevado número de raios que atingem o País, cerca de 50 milhões por ano¹, nos posicionando como campeões mundiais nesta área. Por este motivo foi criada esta seção na revista O Setor Elétrico, para que este tema seja discutido em seus diferentes aspectos, técnicos e econômicos, teóricos e práticos.
Desde 2015 quando foi publicada a edição atual da Norma ABNT NBR 5419, Proteção contra Descargas Atmosféricas, um dos temas mais controversos tem sido o do gerenciamento de risco. A parte 2 da Norma é de extrema importância, pois ela define a necessidade, ou não, da existência de um Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA) e das Medidas de Proteção contra Surtos (MPS).
Entre os riscos que devem ser calculados através do gerenciamento de risco encontra-se o risco número 2, relacionado à perda de serviços ao público em uma estrutura. Estas perdas referem-se à possibilidade da interrupção do fornecimento de gás, água, energia e sinais, televisão, telefonia e internet, a uma comunidade devido a uma descarga atmosférica em uma determinada estrutura.
O primeiro ponto que deve ser esclarecido é a não aplicabilidade do conceito de R2 a todo e qualquer fornecimento de bens e serviços por determinada empresa, como por exemplo um supermercado ou um shopping center.  As consequências de deixar de vender devem ser avaliadas pelo cálculo da perda de valor econômico, R4, que já foi discutida em outro artigo, e tem características totalmente diferentes de R2.
Especificamente R2 existe para evitar que um determinado provedor de serviços públicos, principalmente no caso de um monopólio natural, tome a decisão de não investir na proteção contra descargas atmosféricas baseado nos riscos à vida e na perda de valor econômico. Utilizando apenas os critérios de R1 e R4, poderia ser mais interessante para uma empresa prestadora de serviços públicos não proteger as suas instalações porque ninguém seria ferido caso uma descarga atmosférica a atingisse, e os prejuízos causados pela perda dos equipamentos e a consequente interrupção dos serviços fossem menores do que o custo da Proteção contra Descargas Atmosféricas (PDA). Com a necessidade da avaliação da perda de serviços ao público, a proteção contra descargas atmosféricas também deve levar em consideração os interesses de um grupo maior de pessoas, que podem ser afetadas caso uma prestadora de serviços não considere a proteção contra descargas atmosféricas em todos os seus aspectos.
Como exemplo concreto do exposto anteriormente temos o caso acontecido na cidade norte americana de Lincoln, quando uma descarga atmosférica atingiu uma estação de tratamento de água, interrompendo o abastecimento da cidade que teve de declarar estado de emergência². Obviamente, houve perdas econômicas, mas a natureza da interrupção do fornecimento de água, inclusive a utilizada pelo corpo de bombeiros da cidade, tornou as consequências destas descargas atmosféricas muito mais graves, afetando a vida daquela população de forma muito mais intensa.
Um outro exemplo que deve ser considerado, mas sobre a qual devemos refletir de forma mais profunda, aconteceu na cidade boliviana de Tarija, quando os semáforos da cidade deixaram de funcionar devido às descargas atmosféricas³, fato comum em muitas cidades brasileiras. Neste caso, seria interessante uma reflexão de todos aqueles que se dedicam a esta área sobre se as empresas que administram o trânsito em nossas cidades deveriam ser obrigadas a considerar os critérios de R2 em seus sistemas e, caso sejam, como estes sistemas poderiam ser enquadrados. Deveríamos pensar na PDA de cada semáforo ou na PDA do sistema de sinalização de trânsito como um todo? Vale a pena pensarmos sobre isso.
A proteção contra descargas atmosféricas é um assunto complexo, mas do ponto de vista técnico temos conhecimento suficiente para reduzirmos os riscos de perda a níveis bastante baixos. O que precisamos fazer é continuar investindo na conscientização da sociedade sobre a importância desta proteção, para a nossa segurança e qualidade de vida.

1 – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE); http://www.inpe.br/webelat/homepage/menu/el.atm/perguntas.e.respostas.php;

2 – The Pantagraph; https://www.pantagraph.com/news/local/lincoln-residents-told-to-use-water-sparingly-after-lightning-hits/article_2527b55c-918b-5de7-8fc6-d65a5fb35727.html?utm_medium=social&utm_source=twitter&utm_campaign=user-share;

3 – El Deber; https://www.eldeber.com.bo/bolivia/Semaforos-de-Tarija-dejan-de-funcionar-por-tormenta–20180926-9595.html.

*Sergio Roberto Santos é engenheiro eletricista e membro da Comissão de Estudos CE 03:64.10 do CB-3 da ABNT.

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