O aumento no consumo individual de energia – dos primitivos ao Sapiens 4.0

O agravamento do aquecimento global tornou-se pauta necessária para o estabelecimento de relações sociais e econômicas na atualidade. A geração de eletricidade para atender a nossa crescente demanda por energia e a do setor de transportes é o principal responsável por esse agravamento. Cerca de 80% da eletricidade gerada em todo o mundo se dá pela queima de combustíveis fósseis, enquanto no Brasil é de apenas 17%. Esse processo emite gases de efeito estufa (GEE), que são os principais causadores do aquecimento do globo. Mas, como chegamos até aqui e qual é a tendência para os próximos anos? Para responder a esta pergunta, faz-se necessária uma breve viagem no tempo.

A figura, que apresenta um indivíduo de classe média, representa vários estágios do apetite da espécie humana por energia, que ocorreram devido às mudanças no modo de produção e reprodução da vida material (da existência). Os recursos não são distribuídos uniformemente na biosfera, e a sua apropriação é ainda mais desigual que a distribuição. Observa-se na figura a estimativa de alguns estágios de consumo energético do homo sapiens, em Giga Joules por pessoa por ano. Esse consumo representa a projeção da alimentação, responsável pelo funcionamento da máquina biológica, como também o consumo externo ao corpo, no transporte, e nos processos necessários para produzir os bens utilizados disponíveis aos homens na modernidade.

O homem primitivo, há um milhão de anos, era apenas um coletor de vegetais. Alimentava-se diariamente de vegetais produzidos a partir da luz solar, água e dióxido de carbono (CO2), liberando o oxigênio e a glicose fundamental para alimentação dos músculos humanos. Há cem mil anos, continuávamos a usar a energia basicamente sob a forma de alimento. 

Como caçadora coletora, nossa espécie passou a consumir também energia armazenada nos tecidos dos animais e logo intensificou seu uso energético quando começou a fazer a cocção dos alimentos. 

 O domínio do fogo representou um processo extraordinário para os avanços da espécie. Cerca de sete mil anos atrás: o terceiro estágio é representado pelos agricultores e pastores primitivos, na transição dos caçadores coletores, que não tinham uma moradia determinada, para a vida mais sedentária, na qual nossa espécie passou a realizar alterações mais intensas no espaço onde ocupou, começou a se aglomerar e desenvolver comunidades maiores, demandando, assim, uso energético mais intenso que nos estágios anteriores. A biomassa foi o recurso energético dominante desta era. Há aproximadamente 600 anos, no quarto estágio, os homens aumentaram seu consumo por energia e o transporte surgiu como necessidade energética para levar produtos e pessoas até os centros de consumo. Nesse período já se realizava o aproveitamento da força do vento pelos moinhos, da força das águas pelas rodas d’agua. Também se começou a empregar o carvão mineral, sendo esta uma das primeiras migrações do homo sapiens da energia de fluxo para a utilização dos estoques energéticos. 

Há mais ou menos 150 anos, o segundo estágio da grande revolução industrial estava em curso. Com a entrada da eletricidade nos processos produtivos, a iluminação artificial e o desenvolvimento do motor elétrico foram fundamentais para o aumento da produtividade e impulsionaram uma elevada demanda energética às atividades humanas. O consumo energético nas edificações também cresceu exponencialmente, proporcionando maior conforto ambiental. Mas o grande marcador desta era energética foi a apropriação do petróleo nos processos produtivos. Este recurso energético representou a saída do sapiens da dependência do fluxo para o controle dos estoques de energia.

 Na metade do século passado o homem já se transportava em massa entre os países e continentes. A indústria experimentou ganhos de produtividade elevados devido à automação dos meios de transformação dos produtos. A alimentação tornou-se cada vez mais variada, sendo movimentada por quilômetros até seu uso final. O acesso ao gás e à água foi universalizado em muitas cidades e o uso energético praticamente triplicou quando comparado com a etapa anterior. Alguns dizem que esta espécie já atingiu a denominada quarta revolução industrial, na qual processos de fabricação possuem uma menor interferência humana. A comunicação é cada vez maior, o que amplifica a necessidade de eletrônica embarcada em todos os equipamentos e processos. Todos possuem um Smartphone conectado à internet 24 horas por dia, com um imenso tráfego de informações alimentado por milhares de GWh/ano. 

As edificações estão cada vez mais tecnológicas e comunicativas, com o fornecimento do serviço de energia (eletricidade, gás, internet) sempre mais crítico para manter todo este processo. Nesse contexto, já foi anunciada a quarta etapa da revolução industrial, que pode ser denominada de Sapiens 4.0. Assim, de forma individual, mas vivendo e atuando em comunidade/sociedade, o homem tecnológico depende de energia como em nenhum outro estágio da sua existência.

 Mas, analisando coletivamente, esta espécie passou por aumento populacional sem precedentes nos últimos anos. Em 1922 éramos dois bilhões de pessoas no mundo, com uma expectativa de vida média de 40 anos, e em 2023 somos aproximadamente oito bilhões, com uma perspectiva de vida média de 71 anos. Considerando que o setor de energia é o principal contribuinte para o aumento do aquecimento global; que o número de pessoas está crescendo; e que a cada novo estágio do “desenvolvimento” as pessoas estão consumindo mais energia, então faz-se imperativo discutir cada vez mais as possibilidades do setor de energia, desde a produção, transporte e distribuição, até seu uso final, objetivando sua eficiência, otimização e racionalidade.

Autor:

Por Danilo Ferreira de Souza, engenheiro eletricista pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). É especialista em Energia e Sociedade pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mestre em Energia e pesquisador no Instituto de Energia e Ambiente (IEE) da Universidade de São Paulo (USP). Atua também como professor na Universidade Federal de Mato Grosso, e é membro do Comitê Brasileiro de Eletricidade (Cobei) CB-3 da ABNT

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