Instalações Ex: uma experiência de capacitação durante a formação eletrotécnica

set, 2017

Passados mais de trinta anos da implantação do processo de certificação de equipamentos e acessórios para atmosferas explosivas no Brasil, chega-se à conclusão de que esta não é suficiente para eliminar os acidentes que ocorrem nas instalações industriais com a presença de gases, vapores, névoas ou poeiras combustíveis.

A falta de profissionais capacitados para este tipo específico de instalação é apontada como o elo fraco da corrente, tornando-se a causa de muitos acidentes que ainda ocorrem em diversas plantas industriais.

Via de regra, técnicos e engenheiros não recebem capacitação sobre o assunto durante sua formação acadêmica e muitos destes profissionais vão para o mercado de trabalho sem sequer ouvir falar sobre este tema. Cabe às empresas proporcionar aos seus colaboradores este tipo de capacitação, porém, muitas vezes, isto só acontece após estes profissionais estarem desempenhando suas atividades nas áreas classificadas de forma deficiente, contribuindo para o aumento das não conformidades nas instalações, ou seja, contribuindo para o aumento dos riscos de explosão.

O começo da mudança deste cenário passa certamente pela revisão da NR 10, publicada em dezembro de 2004, em que podemos encontrar, especificamente no item 10.8.8.4, a seguinte recomendação: “os trabalhos em áreas classificadas devem ser precedidos de treinamento específico, de acordo com o risco envolvido”. Esta exigência normativa fomentou a procura e aumentou a oferta dos treinamentos sobre o assunto atmosferas explosivas no Brasil.

Em 2006, buscando preparar melhor os alunos do curso técnico em eletrotécnica para o mercado de trabalho, uma Escola Técnica Estadual do Rio de Janeiro incluiu na grade curricular o curso de NR 10, módulo básico de 40h, ministrado ao final do terceiro e último ano da formação técnica. A inserção do treinamento buscou enriquecer o currículo dos alunos, aumentando suas possibilidades no mercado de trabalho, como estagiários ou técnicos e, ao mesmo tempo, cumprindo a exigência legal de treinamento que consta na NR 10.

Durante a condução destes treinamentos, surgiu a preocupação em relação ao item

10.8.8.4 da NR 10, que fala sobre a necessidade de capacitação dos profissionais que desenvolvem suas atividades nas instalações elétricas em áreas classificadas e vislumbrou-se a possiblidade de inserção dos alunos em uma área de atuação profissional até então pouco conhecida pela maioria dos profissionais, principalmente os recém-formados.

Atentos a esta necessidade de capacitação, em 2009, na mesma escola, foi desenvolvido um projeto pedagógico, que possibilitou a criação de um Laboratório de Atmosferas Explosivas, batizado como “JKEx”.

O laboratório possui seis cabines didáticas, padronizadas, conforme mostra a Figura 1, que simulam as instalações elétricas em áreas classificadas, possuindo diversos equipamentos e acessórios. As cabines possuem dois circuitos independentes: um de iluminação com duas luminárias (incandescente e fluorescente), duas caixas de passagem e uma chave liga/desliga; e um circuito de força motriz com uma caixa de passagem, um painel de comando simples e um motor Ex.

Para fins didáticos, os equipamentos utilizados na montagem possuem vários tipos de proteção, diversos grupos de gases, classes de temperatura e níveis de proteção, com os tipos de proteção “Ex d”, “Ex e”, “Ex n” e híbridos.

Ainda trabalhando a questão didática, as cabines possuem uma marcação móvel da classificação de área, permitindo simular as variações de zonas de risco (0, 1 e 2), grupos dos gases (IIA, IIB e IIC) e classes de temperatura (T1 a T6).

Aula-prática

Figura 1 – Vista geral das cabines.

Ao longo da realização das atividades práticas, é fornecido aos alunos o prontuário da instalação, contendo os certificados de conformidade dos equipamentos e acessórios, mapa de classificação de área, diagramas de fiação/ligação etc. Esta característica didática visa proporcionar ao aluno um ambiente que simula fielmente uma instalação Ex e sua parte documental.

Este laboratório, com a devida classificação de área, possibilita a realização de treinamentos teóricos e práticos de instalação, manutenção e inspeção de equipamentos e instalações elétricas para áreas classificadas.

Como benefício adicional, as cabines e o quadro geral de distribuição permitem trabalhar também o conceito de isolamento seguro estabelecido na NR 10, ou seja, desligamento, bloqueio, sinalização, teste de gás, constatação da ausência de tensão e aterramento temporário.

O laboratório começou a funcionar em dezembro de 2010, tornando-se o primeiro e único ambiente de formação prática em Ex, dentro do contexto de formação em nível médio/técnico, no Brasil, apresentando como grande diferencial a possibilidade de realização de atividades práticas. Estas atividades vêm sendo apontadas por diversos especialistas da área como essenciais à formação efetiva do profissional. RANGEL Jr (2016) afirma que o uso de técnicas didáticas é essencial à formação dos treinandos e o uso de tarefas práticas é a alternativa correta aos cursos deficientes que ele define como “sessão de PowerPoint”.

Desde sua criação, o laboratório já treinou mais de 200 alunos, entre 18 e 22 anos, diferenciando-os no momento de buscarem sua primeira oportunidade no competitivo mercado de trabalho.

A Figura 2 mostra um grupo de alunos durante a realização de uma aula prática.

Dicas-de-instalações2

Figura 2 – Alunos recebendo a capacitação.

Alunos formados na escola mencionada relataram que foram contratados por conta da realização do treinamento Ex, destacando a surpresa que seus entrevistadores demonstraram ao constatar que já possuíam esta capacitação.

O Inmetro está em fase de finalização da Portaria que versará sobre a certificação voluntária de competências pessoais em atmosferas explosivas, fato que poderá ser considerado como novo marco em relação às atividades em áreas classificadas.

No entanto, a realização de treinamentos efetivos sobre o assunto antecede a questão da certificação de competências, ou seja, o Brasil precisa primeiramente intensificar programas de capacitação de mão de obra a fim de que esta seja um pré-requisito à certificação.

Ainda é muito pequena a quantidade de provedores de bons treinamentos Ex no Brasil, principalmente quanto a treinamentos com viés prático. E o processo de certificação de profissionais tem como objetivo identificar aqueles que sabem executar corretamente um conjunto de tarefas, seguindo-se não só as diretrizes técnicas, como as de segurança.

Estimamos que o programa desenvolvido nesta escola atenda às necessidades das indústrias, bem como seus alunos terão uma boa base para se candidatarem ao futuro programa de certificação voluntária de competências pessoais em atmosferas explosivas.

É possível quebrar o “tabu” de mão de obra deficiente até então atribuído ao tema Ex, mostrando a viabilidade de uma formação técnica que contemple a capacitação do profissional a fim de que este possa desenvolver suas atividades profissionais nas áreas classificadas de forma segura, minimizando os riscos de explosão.


Referências

  • NR 10 – Norma Regulamentadora 10 do Ministério do Trabalho e Emprego, Portaria 598 de 07/12/2004;
  • RANGEL Jr, Estellito. Capacitação em áreas classificadas: o momento é agora! Revista Petro & Química, n° 366, pg. 20-23, Ed Valete, 2016;
  • Proposta de Portaria INMETRO/MDIC 484, – Requisitos de avaliação da conformidade para competências pessoais Ex para atmosferas explosivas. Consulta Pública em 01/10/2015;
  • RANGEL Jr., Estellito, QUEIROZ, Alan R. e OLIVEIRA, Maurício F. – Inspeções em instalações Ex na indústria do petróleo. In: IV PCIC Brasil 2012, Rio de Janeiro, Anais, CD-ROM.

 

*Carlos Henrique Rocha é engenheiro eletricista e mestre em Ensino das Ciências na Educação Básica, pela UNIGRANRIO. Atua como professor contratado no curso de extensão universitária de Instalações Elétricas em Áreas Classificadas na Universidade Veiga de Almeida.

Comentários

Deixe uma mensagem