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Brasil terá grandes investimentos em transmissão para escoar a geração das fontes eólicas e solar

O movimento de transição energética e seus três grandes pilares, a digitalização, a descentralização e a descarbonização, prometem grandes desafios e oportunidades aos agentes do setor elétrico brasileiro, entre os quais a necessidade de grandes investimentos em linhas de transmissão para escolar os empreendimentos de energias renováveis (eólica e solar) da região nordeste para os grandes centros consumidores da região Sudeste. Este e outros desafios foram temas de debate do T&D Energy, evento composto por congresso e área de exposição, que ocorreu nos dia 18 e 19 de abril, em São Paulo, e teve a participação de importantes agentes do setor elétrico nacional.

Traçando um breve panorama do surgimento e da consolidação da transição energética no Brasil e no mundo, o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Grupo de Estudos  do Setor Elétrico (Gesel), Nivalde Castro, explica que o processo deverá ocorrer nos próximos anos de forma muito acentuada na Europa Segundo Castro, por meio de investimentos em fontes renováveis, o continente visará garantir sua segurança energética e sustentabilidade ambiental, os dois grandes vetores da transição energética.

Para diminuir sua dependência do petróleo e do gás natural vindo de outros países e limpar sua matriz energética, a Europa irá investir em hidrogênio verde, combustível carbono zero, obtido por meio de fontes renováveis, como hidrelétrica, eólica e solar. Segundo Castro, para a Eruopa não compensará produzir hidrogênio verde para consumo próprio, pela baixa competividade econômica do combustível. E aí que se abrirá um grande caminho para o Brasil, que tem um imento potencial de energia eólicca e solar. 

Neste cenário, porém, surge como grande preocupação a necessidade de o país fazer maiores investimentos para construir mais linhas de transmissão a fim de escoar essa energia gerada a partir das renováveis. “A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já calculou que os investimentos em transmissão terão que ser bem maiores do que eram, em sua média histórica para darem conta disso”, diz.

Antevendo o problema, o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2031, produzido pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), estipula investimentos da ordem de R$ 50 bilhões em linhas de transmissão nos próximos 10 anos. O coordenador dos Estudos de Transmissão do Norte e Nordeste na EPE, Rafael Mello, explica que a companhia trabalha com um cenário em que a potência instalada do país saltará de 180 GW para 220 GW nesse período, com um forte crescimento das energias renováveis (eólica e solar) que devem participar com 40 GW de potência instalada na matriz elétrica brasileira.

Com o processo de transição energético sendo liderado pela energia solar e eólica novos desafios se sobrepõem ao setor elétrico brasileiro, tais como a necessidade de lidar com a variabilidade e a intermitência inerente a essas fontes. A pesquisadora associada da Faculdade Getúlio Vargas (FGV) e sócia-fundadora da RRS Energia, Rosana Santos, afirma que, não obstante alguns agentes do mercado afirmarem que se trata de um problema facilmente resolvido com o emrpego de baterias, o Brasil, segundo ela, apresenta uma alternativa mais barata, já existente, e muito eficaz, que é o parque hídrico nacional. 

De acordo com Rosana, contudo, para que a complementariedade entre as fontes hídrica, solar e eólica funcione, é cada vez mais necessário um sistema de transmissão robusto e planejado, que se valha da diversidade das fontes e a partir dela alcance a segurança energética. “Além disso, essa complementariedade permite diminuir o despacho das térmicas, contribuindo bastante para o desenvolvimento verde”, afirma.

Para o presidente do Cigré Brasil, Saulo Cisneiros, o Brasil está razoavelmente bem servido com a malha de transmissão existente pra enfrentar os novos desafios relacionados às fontes de geração renováveis. “O pais tem essa malha de transmissão gigantesca, tanto relacionada a interconexão regional, como a que conecta os centros de geração, sendo necessário apenas investimento em conexões locais”, diz.

O coordenador dos Estudos de Transmissão do Norte e Nordeste na EPE concorda com Cisneiros no que tange ao Sistema Integrado Nacional (SIN), mas admite a preocupação da empresa com os novos projetos já prestes a se tornarem realidade. Nesse sentido, o planejamento e a previsão de tantos investimentos no segmento de transmissão. “O investimento vale à pena, até porque a transmissão representa apenas 7% a 8% da conta de luz dos brasileiro e traz um benefício muito grande, a fim de garantir a competitividade entre as fontes e diminuir o custo da geração, que, na prática, representa um parcela maior na conta de luz”, diz.

Digitalização do Setor Elétrico

Para o diretor-geral do Centro de Pesquisa de Energia Elétrica (Cepel), Amilcar Guerreiro, a expansão das linhas de transmissão, que possibilitará a integração das fontes eólicas e a solar ao SIN, garantindo o processo de transição energética, será possível apenas por meio da inovação. “O desenvolvimento sustentável, por exemplo, só vem através da inovação tecnológica e essa, por sua vez, tem como um de seus principais aspectos a digitalização”, afirma. 

Guerreiro destaca que o setor elétrico cresceu muitos nos últimos 50 anos, mas que algumas de inovações para suportar este crescimento já estão ultrapassadas. Não obstante, conforme o diretor-geral do Cepel, as tecnologias substanciais do setor, como geradores e transformadores, apesar das pequenas atualizações pelas quais passaram, funcionam basicamente da mesma forma que antigamente. “Assim, o grande desafio futuro para o setor é a automação e digitalização de processos, principalmente para a gestão de ativos, que propiciará a redução de custos e ampliação da disponibilidade dos equipamentos”, diz. Neste quesito, Guerreiro ressalta a necessidade do desenvolvimento de sistemas de aquisição de dados, que transformarão todos os dados em informações, possibilitando uma melhor gestão dos ativos. 

Com o objetivo de renovar e atualizar o setor elétrico brasileiro, o diretor-geral do Cepel sugere uma agenda, composta pelas seguintes etapas: modernização das instalações antigas para uma arquitetura 100% digital; investimento em sistemas de aquisição de dados; investimento em infraestrutura de tecnologia da informação (TI), com foco ou premissa de cibersegurança; investimento em ferramentas de Inteligência Artificial (IA); digitalização dos ativos e dos processos; e capacitação ou recapacitação dos quadros.

Quando se pensa em digitalização, descarbonização e descentralização, pilares da transição energética em todo o mundo, pensa-se também em geração distribuída (GD). A pesquisadora associada à FGV explica que a transição energética está intrinsecamente atrelada à transformação na matriz energética, mas também à mudança no comportamento dos consumidores, que passam a ser “prossumidores”. “Há um fluxo de elétrons que deixa de ser simplesmente aquele da cadeia tradicional de geração, transmissão, distribuição e consumo e passa a ser àquele de uma GD embebida na distribuidora, onde consumidores também injetam energia na rede”, explica.

Essa mudança no fluxo acarreta uma série de problemas novos, cujas soluções ainda precisam ser pensadas. O diretor de Inovação e Estratégia da CPFL Energia, Renato Povia Silva, destaca que o a regulação do setor elétrico brasileiro foi elaborado tendo em vista a subtensão, ou seja, com foco em fornecer energia de qualidade para atender o cliente na ponta do alimentador. “Mas quando instala-se muito pontos de GD em uma área central, que, em geral, tem maior concentração econômica, começa a surgir um problema de sobretensão, que nem as redes, nem os procedimentos e nem regulação estão preparadas para enfrentar”, diz.

Rosana lembra que todos os custos que as distribuidoras tiverem para lidar com a GD serão transferidos para a tarifa e serão pagos pelos consumidores finais, principalmente por aqueles que não se beneficiam da GD. Conforme ela, esta é uma questão regulatória que precisará ser endereçada, uma hora ou outra, sob o risco de se tornar um problema de difícil solução. “Ainda mais, em um contexto de abertura do mercado, onde cada vez mais clientes devem sair da base da distribuidora e migrar para o mercado livre, fazendo com que o número de consumidores pagantes dos custos fixos da distribuição diminua bastante”, afirma.

Preocupado com essas transformações acarretadas pela GD, o presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Marcos Madureira, enfatiza que é preciso parcimônia em se tratando de inovações tecnológicas na rede elétrica, para que risco de ela não se torne extremamente cara. “Se isso ocorrer, a rede acabará ficando obsoleta, sem conseguir competir com outras alternativas que possam vir a aparecer”, diz. Dessa forma, segundo Madureira, é preciso sem dúvida oferecer o melhor serviço, sem nunca esquecer, contudo, do custo, que deve ser o mais baixo possível. 

Corroborando Madureira, o diretor de Regulação da EDP Energias do Brasil, Luiz Felipe Falcone, declara ser vital investir do ponto de vista técnico, para que o serviço de distribuição melhore sempre mais. Mas, segundo ele, é essencial também que se tenha uma estrutura de mercado que possa alavancar as inovações como um todo, a partir da consciência dos valores que são efetivamente pagos no setor.

Segurança cibernética 

Além dá regulação necessária para fornecer segurança jurídica para que consigam  arcar com a digitalização de seus ativos, uma outra preocupação está na pauta do dia dos agentes do setor elétrico: o risco de ataque cibernético. O superintendente da Companhia Paranaense de Energia (Copel) Distribuição, Júlio Omori, relata que o segmento de distribuição é um dos mais sensíveis a este problema, em razão dos medidores inteligentes. Estes pressupõe um mundo de dispositivos para se conectarem à rede (sensores, chaves e outros equipamentos) que, inseridos no sistema, podem efetivamente causar desconforto operacional.  

Para o CEO da Munio Security, Eduardo Honorato, quando o assunto é proteger instalações críticas,  como as do setor elétrico, de ataques cibernéticos, mais importante do que investir em produtos da última geração é conseguir detectar quais as partes do sistema apresentam maior risco, para mitigá-lo com o processo mais acertado. Opinião reforçada pelo superintendente da Copel. “Eu acredito que tudo começa com uma boa avalição dos processos e análise de risco. Partir diretamente para a proteção dos ativos, sem o estabelecimento de prioridades é queimar etapas, o que pode acarretar elevação de custos lá na frente”, diz Omori.

Honorato ressalta também à problemática em relação à resposta a incidentes, que não é tratada de modo muito claro na Rotina Operacional RO-CB BR.01 – Controles mínimos de segurança cibernética para o Ambiente Regulado Cibernético, divulgada pelo ONS, e que estabelece os controles de segurança cibernética a serem implementados nos centros de operação dos agentes e nos equipamentos de infraestrutura. Para o CEO da Munio Security, é essencial que haja uma definição do que é incidente, quais sãos suas causas e impactos, para que se possa estabelecer corretamente as respostas necessárias a eles. 

Sobre a rotina operacional da ONS, o diretor técnico do Cigré Brasil, Iony Patriota, afirma que, embora seja norma muito bem feita, endereçando os aspectos essenciais de segurança, é preciso salientar que se restringe somente ao espaço sob domínio do operador, ou seja, essencialmente aos centros de controle dos agentes, à comunicação dos agentes com o ONS e aos próprios centros de controle do ONS. “Mas o setor elétrico se estende além dos centros de controle. Há subestações, onde realmente estão ocorrendo a digitalização e para as quais o Brasil ainda carece de regulamentação sobre segurança cibernética”, diz. 

Na opinião de Patriota, a grande vulnerabilidade do setor se encontra nas subestações e nas usinas, onde há uma diversidade muito grande de hardwares e softwares, que por serem dedicados não respondem às soluções tradicionais de segurança cibernética. Complica ainda mais a situação, conforme o diretor técnico do Cigré Brasil, o fato de a maior parte das subestações brasileiras terem sua responsabilidade compartilhadas, às vezes por 12 empresas, o que gera um problema de governança.

Deve trazer luz a esta situação, segundo Patriota, a revisão do módulo 6.11 do procedimento de rede da ONS, que trata exatamente das instalações digitalizada e que prevê uma discussão a respeito da segurança cibernética. Segundo ele, a revisão, que está em fase final com debate junto ao mercado, e deve ser homologada pela Aneel ainda neste ano, será um grande passo adiante no sentido de suprir a carência de um normativo, principalmente filosófico, para a segurança cibernética relacionada à tecnologia de operação de subestações.

ESG

A transição energética, liderada pela inserção crescente de energias renováveis, tem um enfoque muito grande na sustentabilidade ambiental. Mas não só. Do ponto de vista da gestão das empresas envolvidas no processo, ganha também relevância práticas voltadas ao bem-estar social e à governança, que unidas ao quesito ambiental recebem o nome de ESG – Enviromental, Social and Corporate Governance (Governança Ambiental, Social e Corporativa, em português).

Para o diretor de Gestão de Ativos da Voltalia, Amaury Neto, as empresas do setor elétrico brasileiro já apresentam um componente bem forte relacionado à sustentabilidade ambiental (85% da matriz elétrica do país é renovável), que deve elevar-se ainda mais com a energia eólica e solar adquirindo preços mais atrativos e com a chegada do hidrogênio verde, que em um curto horizonte de tempo deve se tornar altamente competitivo. 

Mas, para Neto, os aspectos relacionados às questões social e de governança já estão presentes nas empresas sem que muitas, talvez, tenham notado. “Atualmente, vivemos em um capitalismo “stakeholder”, onde as as pessoas estão sedentas para trabalhar em empresas que seu pautam por valores verdadeiro”, comenta o diretor de Gestão de Ativos da Voltalia. E, dessa forma, segundo ele, a organização que não se comprometer com causas relacionadas ao bem-estar dos colaboradores e pautas de diversidade, por exemplo, não conseguirá reter os melhores profissionais, podendo ser ultrapassada pelos concorrentes. 

Do mesmo modo a boa governança é essencial para manter a empresa competitiva. Conforme Neto, é costume entre as pessoas associar governança à burocracia, mas o diretor acredita que ela encontre melhor definição atrelada à eficiência. “Governança é ter processos e normas bem definidos e conhecidos por toda a empresa; é também ter uma cultura corporativa bem implementada e uma estratégia bem delineada, que consegue ser  assimilada por todos os profissionais”, diz.

A sócia da área de Energia, na Felsberg Advogados, Lícia Schlittler, destaca que, apesar de não haver nenhuma exigência do ponto de vista jurídico para que as empresas implementem práticas de ESG, trata-se de uma tendência que veio para ficar. Ainda mais, segundo ela, quando se leva em consideração o protagonismo do consumidor, que se tornou uma tônica na atualidade, da relação entre cliente e empresa nos diversos segmentos empresariais. “Protagonismo que deve ficar ainda maior após o mercado livre de energia ganhar cada vez mais destaque”, diz.

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