A ABNT NBR 5419:2015 e a necessidade de cooperação entre diversos profissionais

maio, 2018

A norma ABNT NBR 5419:2015 – Proteção contra Descargas Atmosféricas apresenta uma série de novidades técnicas que implicaram na necessidade de atualização profissional de quem trabalha nesta área. Mas muito mais difícil tem sido a mudança de postura daqueles que contratam os projetos de Sistemas de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA) e Medidas de Proteção contra Surtos (MPS), que constituem a Proteção contra Descargas Atmosférica (PDA). Desde edições anteriores desta norma, alguns elementos da proteção só poderiam ser empregados se tivessem sido previstos em projeto e programados antes da construção do empreendimento. Mas na edição 2015 da norma ABNT NBR 5419, esta questão se tornou muito mais relevante.

Em muitas ocasiões perde-se a visão de que o objetivo da proteção contra descargas atmosféricas não é estético. A sua função é proteger as pessoas, estruturas e instalações eletroeletrônicas contra os efeitos extremamente danosos de uma descarga atmosférica, que podem inclusive ser fatais. Por este motivo, a proteção contra descargas atmosféricas é obrigatória e prioritária, não podendo ser relegada a uma posição de menor importância entre as várias decisões que precisam ser tomadas durante a execução de um projeto.

Mais do que acrescentar uma quantidade considerável de informações, a norma ABNT NBR 5419:2015 trouxe algumas mudanças conceituais para tornar a proteção contra descargas atmosféricas mais eficiente, econômica e precisa. Mas, como contrapartida, ela também tornou imprescindível a integração entre os vários profissionais, engenheiros e arquitetos envolvidos no projeto da edificação (gráfico 1).

O ponto inicial envolvendo a máxima cooperação entre o projetista da PDA e os responsáveis pela edificação é o gerenciamento de risco. As informações necessárias para determinação dos riscos existentes devem ser fornecidas ao projetista da PDA, como o valor cultural de elementos presentes na edificação e os dados necessários para calcular o risco da perda de valor econômico, para que ele possa utilizá-los e tomar as primeiras decisões sobre o seu projeto. Estas informações não são de domínio do projetista da PDA e caso ele não as receba de quem de direito, o projeto começará totalmente inconsistente. Muitos dos fatores condicionantes do risco existente são estabelecidos através dos projetos arquitetônicos, de combate ao incêndio e de instalações elétricas, devendo estes projetos estar ao alcance do projetista da PDA.

A utilização das ferragens como elementos do SPDA, uma medida que reduz os custos da proteção, facilita a sua conservação e diminui os seus impactos estéticos na edificação. Será mais eficiente quanto mais cedo for determinada e executada. Como ainda existe, injustificadamente, alguma oposição por parte de engenheiros civis quanto à sua aplicabilidade, é altamente recomendado uma reunião entre todos envolvidos na utilização das ferragens para que este serviço seja feito da melhor maneira possível.

Enquanto a utilização das ferragens não é uma novidade da atual edição da ABNT NBR 5419, o ponto em que cabos e outros elementos metálicos entram na edificação agora passou a ter grande importância devido à parte 4 desta norma, Proteção de sistemas elétricos e eletrônicos internos na estrutura, que nos indica que cabos, tubulações e outros elementos metálicos que entrem ou saem da edificação devem seguir algumas recomendações para evitar que correntes de surto sejam perigosos para as pessoas ou danifiquem os sistemas eletroeletrônicos internos. Estas recomendações estão baseadas no conceito de “Zonas de Proteção contra Raios (ZPR)” e uma utilização eficiente deste conceito envolve o posicionamento de quadros e painéis dentro da edificação, o que representa mais um exemplo de decisões que só fará sentido se tomadas no momento adequado, quando ainda será possível viabilizá-las. Neste caso, o conceito de cooperação torna-se fundamental, ao ponto de envolver inclusive as concessionárias de energia, para que permitam a instalação de Dispositivos de Proteção contra Surtos (DPS) antes dos medidores de energia. O próprio posicionamento dos quadros de entrada deve ser avaliado levando-se em consideração as MPSs, para que seja mais fácil e econômico implementar estas medidas.

Ainda em relação à proteção contra surtos, a edição 2015 da ABNT NBR 5419 tornou inconcebível que um projeto de Proteção contra Descargas Atmosféricas (PDA) seja feito totalmente independente do projeto das instalações elétricas, até porque os dois projetos tratarão da mesma instalação!

Devemos estar ainda mais atentos a este ponto porque muitas edificações atualmente estão sendo projetadas com sistemas de geração fotovoltaica que impactam o seu SPDA e as suas MPSs, aqui surgindo novamente a necessidade de arquitetos, profissionais da área de geração fotovoltaica e projetista da PDA se reunirem o mais cedo possível para definir as medidas de proteção necessárias para garantir a integridade destes sistemas.

Mas deve-se ter o máximo cuidado para não cair na tentação de pensar que estas observações anteriores significam que a norma se tornou mais complexa por mero preciosismo técnico. A verdadeira complexidade reside no aumento das dimensões das edificações atuais, sua maior complexidade ocupacional e no uso intensivo de sistemas eletroeletrônicos em nossas vidas (Figura 1).

A norma ABNT NBR 5419:2015 apenas apresenta ferramentas para que todos os elementos necessários para a proteção de bens e serviços contra os riscos de uma descarga atmosféricas estejam presentes nos prédios residenciais, hospitais, fábricas, shopping centers, etc., onde passamos boa parte do nosso tempo. Não é do interesse de ninguém que uma descarga atmosférica, direta ou indireta, cause prejuízos irreparáveis, inclusive fatais, para quem se encontrar em uma edificação mal protegida durante uma tempestade!

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Nota: É altamente recomendado que os projetos sejam contratados simultaneamente para que a PDA seja a mais eficiente possível.

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Nota: Um projeto de PDA deve proteger milhares de pessoas que circulam diariamente neste local, garantir a integridade das edificações e evitar que os sistemas eletroeletrônicos se danifiquem, prejudicando a população do estado.

* Sergio Roberto Santos é engenheiro eletricista e membro da comissão de estudos CE 03:64.10, do CB-3 da ABNT.
 

Comentários

Uma Resposta

  1. Excelente texto do Sergio.
    Infelizmente, baterei na tecla que sempre escrevo na rede, união entre os melhores e leis mais severas, para que a sociedade tenha mais consciência na hora da contratação.
    Tenho falado com arquitetos, para que façam o projeto em conjunto com os engenheiros civil e eletricista, dirimindo dúvidas e realizando uma obra segura e dentro dos padrões normativos.

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