XIII Conferência Brasileira sobre Qualidade da Energia Elétrica (CBQEE)

set, 2019

Focado na discussão do tema Qualidade da Energia Elétrica, o evento contou com 208 trabalhos inscritos e reuniu especialistas no Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano do Sul (SP)

Dentre os dias 01 e 04 de setembro de 2019, o Instituto Mauá de Tecnologia recebeu, em seu campus de São Caetano do Sul (SP), a XIII Conferência Brasileira sobre Qualidade da Energia Elétrica (CBQEE), evento bienal voltado à discussão do tema. Composto por quatro sessões plenárias, 28 sessões técnicas e um minicurso, o objetivo foi debater assuntos relacionados à distribuição, qualidade e consumo da energia elétrica.

Realizada pela Sociedade Brasileira de Qualidade da Energia Elétrica (SBQEE), a edição deste ano contou com 208 trabalhos inscritos, dos quais 168 foram aceitos para publicação no evento. As inscrições trataram sobre diversos temas, passando por normas, recomendações, indicadores e limites; fontes de distúrbios; diagnósticos, soluções e técnicas de mitigação; qualidade de energia elétrica no contexto das redes inteligentes; análise da eficiência energética no contexto da qualidade da energia elétrica; compartilhamento de responsabilidade por distúrbios de QEE; o Módulo 8 do Prodist e suas relações com os consumidores; práticas de gestão da qualidade do produto; sensibilidade e suportabilidade de equipamentos; qualidade do serviço nos sistemas de distribuição de energia elétrica, entre outros. “Isso tudo é a vanguarda dos trabalhos na área de qualidade da energia, feitos no Brasil. Participam do evento os principais pesquisadores da área, engenheiros, estudantes, consultores, profissionais da indústria, concessionárias de energia, órgãos reguladores, e o que esperamos como resultado é um direcionamento para a comunidade que trata do tema, das linhas de pesquisa e de atuação que o setor de qualidade da energia está tomando no Brasil, vide que o País é um dos principais atores nessa área em todo o mundo”, declara Mateus Duarte Teixeira, presidente da SBQEE durante o biênio 2017-2019.

Ele acrescenta que o intuito do encontro é que haja um reforço na transmissão do conhecimento das pessoas que estiveram presentes, a fim que elas retornem às suas bases e deem continuidade aos trabalhos, frente a todo o conteúdo que absorveram durante os quatro dias do evento. “É um privilégio podermos compartilhar essa grande quantidade de conhecimento para todos”, comemora.

Flávio Garcia, diretor de Engenharia e Pesquisa e Desenvolvimento da empresa BREE Eficiência Energética, destaca o fato de a Sociedade Brasileira de Qualidade de Energia ter maior representatividade do que qualquer outro país em termos de quantidade de pessoas, e explica que isso propicia uma forte atuação na solução de problemas. “Nós que estamos no âmbito da fabricação dos equipamentos de qualidade de energia e da aplicação de soluções, temos uma responsabilidade enorme de atender à expectativa do mercado, o qual começou a melhorar no segundo semestre de 2019. Observou-se uma demanda bastante grande, porque os equipamentos de qualidade de energia permitem que a eletrônica que está chegando funcione de maneira adequada”, explica.

Ele conta que mesmo que existam investimentos nessa área, às vezes, um problema de qualidade que é criado acaba sacrificando a própria vida dos equipamentos eletrônicos. “Inversores de frequência e equipamentos de geração solar e eólica, por exemplo, sofrem muito se a qualidade de energia não estiver dentro de um patamar mínimo, que já está estabelecido pelo mercado. A ‘cereja do bolo’ é a qualidade do fornecimento de energia, porque, se não, o aparelho queima, não funciona corretamente, e a rede toda se sobrecarrega. Tudo o que é discutido no fórum do CBQEE diz respeito justamente a isso: como se ter uma rede mais confiável, com menos perdas e mais qualidade de fornecimento”, afirma.

Para o diretor da empresa Ação Engenharia e Instalações e vice-presidente do SBQEE, José Starosta, o evento contribui para a formação de opinião das pessoas, empresas, concessionárias, universidades, escolas etc. “Além da boa qualidade do local do evento, notamos um preparo excepcional dos participantes que trouxeram seus trabalhos. Professores com teses muito pertinentes, apresentação de verdades absolutas. Percebemos a preocupação das pessoas em acertar, sem ferir um lado ou outro, mas sempre buscando as melhores práticas, para depois, se tornarem normas. O que se viu foi uma perspectiva do que acontecerá daqui para a frente. O nível das apresentações é altíssimo e as questões são muito bem colocadas e bem defendidas, até mesmo pelos alunos mais precoces, o que é muito interessante. O evento é campeão!”, celebra.

De acordo com o diretor administrativo da SBQEE, Arthur Fernando Bonelli, a área de qualidade da energia está sempre em evolução e é um nicho bastante abrangente, relacionado à toda a área de energia elétrica, desde geração, transmissão, distribuição, consumidores, indústrias, mas ainda possui muitos desafios. “Notamos uma participação muito intensa nas seções técnicas e de perguntas, quase sem nenhuma vacância de apresentação. Outro ponto positivo é o fácil acesso do local escolhido para o evento, São Caetano do Sul, e a boa estrutura do Instituto para receber as pessoas. No geral, eu, pessoalmente, estou muito feliz com o CBQEE, por fazer parte da organização e pelo resultado financeiro expressivo que alcançamos, mesmo diante do atual cenário adverso”, salienta.

Vinicius Passos, engenheiro de aplicação na área de capacitores e filtros da empresa ABB – uma das patrocinadoras desta edição – confirma o sucesso do evento ao ressaltar que houve uma excelente troca de experiência entre fabricantes, consultores e todos os agentes do mercado, o que, segundo ele, é bastante enriquecedor no sentido de levar essas experiências às empresas para o aperfeiçoamento de produtos e processos. “O principal ponto que destaco no evento foi a empatia entre os participantes, que atuaram de modo a passar conceitos adiante, mesmo entre fabricantes concorrentes, os quais apresentaram seus projetos. São eventos como esse que fazem a diferença e permitem que consigamos trabalhar melhor e oferecer mais qualidade e menos paradas e prejuízos aos nossos clientes”, ressalta.

Segundo o coordenador do curso de Engenharia Elétrica do Instituto Mauá de Tecnologia, Edval Delbone, o evento foi de grande valia a todos. “A CBQEE trouxe novos conhecimentos para os alunos e professores, principalmente para os que trabalham com esse assunto, além de gerar uma expectativa para intensificar as aulas de qualidade e eficiência energética, com possibilidade de surgir até um grupo de pesquisas sobre o tema”, destaca.

Sessões técnicas

Um dos destaques do dia 02/09 foi a palestra ministrada pelo Prof. Dr. Alexandre Rasi Aoki, engenheiro eletricista, Mestre em Engenharia Elétrica, membro e coordenador do Comitê de Estudos C6 do Cigré e Membro Sênior do IEEE Power & Energy Society, que abriu a Sessão Plenária 1 – “Sistemas inteligentes de distribuição de energia e suas implicações para QEE”. O tema de sua apresentação foi: “Sistemas ativos de distribuição e recursos distribuídos de energia, em que apresentou uma visão futurística das redes elétricas inteligentes e os obstáculos a serem superados nos próximos anos.

O sistema ativo de distribuição é um cenário mais próximo da realidade atual, isto é, da evolução da tecnologia que está sendo inserida na distribuição de energia elétrica. Tal sistema contempla um mecanismo onde se consegue gerenciar os fluxos de potência na rede de distribuição, com uma topologia mais flexível, considerando que existe a presença desses recursos distribuídos de energia, que vão desde a geração distribuída, como painéis fotovoltaicos, gerações eólicas, agora, mais recentemente, o armazenamento de energia, como, por exemplo, com os sistemas de baterias, que já estão sendo testados para operação junto com o sistema de energia elétrica. “Outros avanços – já um pouco mais modernos – são recursos de resposta da demanda e os prosumers (prosumidores), que são os consumidores que possuem geração ativa e capacidade de controlar o seu comportamento de consumo. Tudo isso dentro desse cenário forma o que chamamos de sistema ativo de distribuição”, conta.

Ademais, outra novidade mencionada foram as microrredes, que também entram nesse pacote de modernização da distribuição de energia elétrica. Para se entender melhor como o processo está acontecendo, é importante compreender as tecnologias necessárias, ou habilitadoras, para um sistema ativo de distribuição. “Dentro do que já existe na distribuição de energia elétrica, se começa a enxergar o sistema, primeiro, com a presença de geração distribuída, porque é algo que já vem desde o início da década, ocorrendo fortemente no Brasil, e agora estamos passando justamente por um momento de revisão da Resolução Normativa 482/2012 da Aneel sobre geração distribuída. Nós temos bastante regulação e normas técnicas no Brasil a respeito disso, mas o que precisamos é garantir que os equipamentos de mercado atendam às normas, para evitarmos problemas maiores na rede de distribuição, e também atualizarmos essa norma técnica de conexão, porque hoje, nós já temos um cenário com índice de penetração razoável distribuída na rede, e é necessário avançar a legislação. Isso, a Aneel já percebeu, e essa Resolução já está em audiência pública”, esclarece Aoki.

A aplicação de sistemas de armazenamento de energia com baterias foi outro exemplo interessante que foi explanado dentro do tema tratado pelo Professor. Desde 2016, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) incentivou o estudo da inserção desses sistemas de armazenamento de energia com baterias no setor elétrico, e foram incluídos diversos projetos de P&D, na chamada de P&D estratégico nº 21 da Agência. Ao todo, foram 29 projetos apresentados e mais de 20 aprovados, os quais estão sendo executados em todo o Brasil. Essas baterias servem para diversas funcionalidades, como, por exemplo, suavização da intermitência e gerenciamento dos picos de carga, mas é preciso ter a ciência de que isso não funciona tudo ao mesmo tempo e que cada funcionalidade é um controle que existe dentro do equipamento. “Muitas vezes, esses equipamentos têm todos esses controles disponíveis, mas não podem operar simultaneamente, mas sim, um de cada vez. Então, cabe todo um estudo de parametrização e operação”, orienta.

Fabiano Andrade de Oliveira, graduado pela Universidade Federal de Uberlândia (MG), com Mestrado em Engenharia Elétrica, que atualmente trabalha no Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) como engenheiro especialista na área de Qualidade de Energia, deu início à Plenária 2, ocorrida no dia 03/09, sobre “Compartilhamento de Responsabilidade por distúrbios de QEE”, explicando o que essa temática está gerando para melhorias do processo de qualidade de energia. Na apresentação, ele introduziu o processo de qualidade de modo a nivelar todos os participantes presentes; discorreu sobre o atual processo de qualidade e apontou quais são as lacunas encontradas. A palestra foi dividida em três fases e uma delas esteve relacionada ao levantamento do processo (fase inicial), em que proporcionou uma visão geral, detalhada e operacional do processo de qualidade de energia, dividido, basicamente, em duas partes: estudos e campanhas, de tal forma que se possa, dentro desse processo, identificar quais seriam as lacunas encontradas e quais melhorias têm sido alcançadas para se fazer, inclusive, uma adaptação das fontes renováveis de energia.

O objetivo foi desmistificar um padrão que já está solidificado em todo o mundo. “Podemos dividir o antes e o após as renováveis e fazer a descaracterização entre o que temos hoje de cargas não lineares, isto é, já convencionais, e as fontes renováveis de energia”, observa.

Na sequência, o Prof. Ph.D., José Carlos de Oliveira, engenheiro eletricista e mestre e Doutor em Engenharia Elétrica fez uma apresentação pontual, cujo tema foi: “Estado da Arte, Premissas, Análise de desempenho e Desafios”, em que falou sobre os métodos para compartilhamento da responsabilidade, considerados sérios desafios à frente. Em seu discurso, o expert citou que seria adequado se não houvesse geração de harmônicos na rede, mencionando que isso já é possível. “Nós podemos ter equipamentos que fazem a conexão com a rede, em que através de um controle otimizado do padrão do PWM, podemos eliminar, na própria nascente, várias dessas componentes harmônicas. Diante da realidade que se apresenta, a grande questão é: a quem atribuir a responsabilidade?”, indaga.

O especialista José Starosta trouxe um caso de aplicação prática de eficiência energética implantada em um hospital conceituado, falando sobre o consumo de energia e tensão. O apelo da apresentação foi demonstrar, em função do modelamento das cargas, que é possível obter economia de energia com ajuste da tensão. “O que se nota nas indústrias e em grandes instalações, é a manutenção dos barramentos secundários com tensões mais altas, como uma forma de preservar a carga. Então, a ideia é fazer uma compensação estática reativa, com um tap adequado, mantendo uma minimização de consumo de energia”, explica.

Alguns dos pontos abordados durante sua palestra foram: o projeto de eficiência; carga de impedância constante com os inversores – interessantes para esse tipo de comportamento –; processo de medição e verificação, entre outros importantes. “O projeto trata de acertar o tap dos transformadores com compensação estática em tempo real. Esse foi o resumo do trabalho”, define.

O evento contou com o patrocínio das empresas Ação Engenharia e Instalações, ABB e Fluke, além do apoio da Revista O Setor Elétrico e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Realizada desde 1996, inicialmente, com o nome de Seminário Brasileiro sobre Qualidade da Energia Elétrica, a CBQEE já esteve sediada em todas as regiões do País.

Mais informações estão disponíveis no site: www.sbqee.org.br/cbqee

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