Primeiro cabo isolado a óleo de 230 kV do mundo completa 62 anos em plena atividade

jan, 2018

O ano era 1951 e o Brasil começava a demandar muita energia, especialmente porque o transporte sobre trilhos ganhava as ruas e o insumo era fundamental para o desenvolvimento do país. As companhias de energia começavam a investir mais intensamente em geração de eletricidade. Foi nesse período que o primeiro cabo isolado a óleo de 230 kV do mundo foi projetado para a usina hidrelétrica Henry Borden, localizada na cidade de Cubatão (SP), por ocasião de uma ampliação das instalações da usina.

A década de 1950 marcou o início da industrialização do país. E, com ela, a demanda por energia elétrica, que se permaneceu estável nos anos de 1940, passava por uma curva de crescimento ascendente e iniciavam-se os projetos de usinas hidrelétricas em complemento às térmicas existentes e rumo a uma matriz elétrica de energia limpa e renovável, ainda que de maneira inconsciente. Foi também nesse período que Getúlio Vargas dava início aos projetos de criação da Petrobras e da Eletrobras.

Inaugurada em 1926, a hidrelétrica Henry Borden contava com uma usina externa, com oito grupos geradores e capacidade instalada de 469 MW. Era uma das mais importantes usinas do país naquela época. A expansão da hidrelétrica deu-se com o projeto de uma usina subterrânea, localizada dentro de uma caverna. O túnel abriga as turbinas, uma para cada um dos seis grupos geradores, que totalizam capacidade instalada de 420 MW.

Para a usina subterrânea, em virtude de sua construção peculiar, foi projetado pela empresa norte-americana Okonite um sistema de seis circuitos trifásicos de cabos oleostáticos de alta pressão de 230 kV, preenchidos com óleo isolante, tendo em cada extremidade três terminais de porcelana para acoplamento ao sistema aéreo. “Não havia nada parecido no mundo”, conta o engenheiro de 93 anos, Erling Hesla, que participou do projeto do primeiro cabo isolado a óleo de alta tensão instalado no Brasil e que volta ao país 66 anos depois dessa encomenda histórica.

O sistema de cabeamento foi encomendado em 1951 pela São Paulo Light & Power Company Limited e instalado entre 1956 e 1961 na planta subterrânea da usina. Os cabos são responsáveis pela condução da energia gerada até a ETCH Marabá, em 230 kV, por meio de um túnel de 450 metros de comprimento. O engenheiro Hesla conta que o cabo foi desenvolvido nos Estados Unidos e a engenharia da planta em São Paulo. Todo o processo de desenvolvimento levou em torno de quatro anos.

“A empresa desenvolveu os cabos com esse tipo de isolação especialmente para o Brasil”, conta. Hesla acrescenta que o sistema foi superdimensionado justamente por não haver nada parecido no mundo e para suportar a complexidade do projeto. “Nesse tempo todo, alguns equipamentos do sistema foram substituídos, mas não os cabos. Tanto que a tecnologia utilizada atualmente é bastante similar à do cabo porque funcionada e tem baixíssima manutenção”, acrescenta o engenheiro.

De acordo com um relatório enviado pela usina Henry Borden, o sistema continua em plena operação e as variações de pressão de óleo são acompanhadas por meio de um registro gráfico contínuo e controladas através de um painel de controle automático.

usina Henry Borden
Imagem da construção da usina subterrânea Henry Borden na década de 1950.

 

Engepower abre escritório nos EUA

Outro motivo também trouxe o engenheiro Erling Hesla ao país: a celebração da sua parceria com a Engepower, empresa especializada em estudos, inspeções, manutenção e projetos de engenharia, com foco em proteção e seletividade. A brasileira anuncia a criação da Engepower USA, com escritório na cidade de Edmund, no Estado de Washington.

“As pessoas me perguntam por que eu vou abrir uma empresa com a minha idade? Eu digo: eu sei, mas já faz tempo que estou procurando algo parecido. E nós temos uma energia parecida, então, a parceria certamente será um sucesso”, diz Erling Hesla, que, aos 93 anos, ainda é muito ativo profissionalmente.

Cláudio Mardegan, diretor da Engepower, conta que os dois se conheceram por ocasião de uma reunião do IEEE, nos Estados Unidos, e, desde então, são amigos e parceiros. “Ele precisava de um representante no Brasil para a sua empresa, a Easy Power, nós assumimos e a companhia fez muito sucesso. Também escrevemos papers juntos. Certa vez, ele precisou de um trabalho de proteção e nós fizemos para ele. Ele gostou bastante e me convidou a explorar o mercado americano”, conta Mardegan. “Eu não conheço ninguém que faça um trabalho igual a eles”, acrescenta Hesla.

Assim, nasce a empresa nos Estados Unidos. “Acredito que o mercado americano precisa de soluções que nós temos e a preços bastante competitivos”, analisa Mardegan. A princípio, todos os projetos serão desenvolvidos no Brasil e à medida que a demanda crescer, será estruturada uma equipe técnica local.

 

engepower
Cláudio Mardegan, diretor da Engepower, e à direita, o engenheiro Erling Hesla, atualmente Life Senior Member do IEEE, em visita ao Brasil.

Comentários

2 Respostas

  1. Rua Manoel de Barros Lima 438 - Olinda - PE - Brasil disse:

    Este Sr. dá um exemplo de que o trabalho não pode ser limitado por idade, pois em muitas atividades a competência se sobrepõe ao estigma de “velho”. Parabéns Sr. Erling Hesla, por este brilhante exemplo.
    Gilson Couto – 65 anos.

  2. Sérgio Luis Marques de Oliveira disse:

    Maravilha ver um pessoa nessa idade com energia para trabalhar e com grande produtividade

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