Por que preservar a memória da energia? As histórias de um setor que reflete o desenvolvimento da sociedade paulista

dez, 2019

*Por Danieli Giovanin

Em um mundo de trocas rápidas e de acontecimentos  cada vez mais efêmeros, é um desafio falar da memória de empresas, ainda mais de um setor, como é o caso da Fundação Energia e Saneamento. A memória do setor energético é fundamental  para a compreensão da história do desenvolvimento  do Estado de São Paulo, sendo um case de valor mundial  quando analisamos o processo de urbanização  e crescimento  da cidade.

Para entender  o que é memória de uma empresa, é necessário perceber que cada companhia  possui suas lembranças, como uma pessoa. A memória, entendida  no sentido original do termo, é tudo aquilo que uma pessoa retém em sua mente, resultado  de suas vivências. Ela é seletiva, pois, consciente  ou inconscientemente, escolhe o que lembra, não guardando tudo que acontece ao indivíduo, configurando-se como um acervo de situações marcantes.  A história, então, seria a narrativa  que articulamos  a partir dos registros presentes em nossa memória, sobre alguém ou algum acontecimento.

No caso das empresas, a memória também está ligada a sua reputação, já que a experiência  contribui para a construção  ou deterioramento  do imaginário,  e a memória, registrada  em documentos  ou na cabeça das pessoas, é o que consolida a reputação  institucional. Então, quando  falamos da memória acumulada  pelas empresas e da narrativa histórica daí resultante,  podemos falar da história  da empresa, do seu discurso de apresentação  e da relação de quem recebe esse discurso. Temos, então, a noção de que a história  da empresa não pertence a ela somente, mas também a todos seus públicos de interesse.

Temos a percepção que, ao futuro, todas as empresas podem ir, mas o que legitima a capacidade de sobrevivência em terrenos conflituosos  e incertos e o que evidencia um poderoso diferencial narrativo  e postural  de uma empresa é a sua história, o seu legado ao longo do tempo e a possibilidade de comparação com eventos já vividos. Entretanto,  não se trata  de definir o futuro  apenas a partir do passado, em uma equivocada  visão pragmática  da história, mas evitar apostar tudo somente em uma determinada perspectiva, rompendo  com todas as raízes e identidades  construídas  ao longo do tempo. Conhecer o passado é conhecer os passos dados por pessoas antes de nós; é entender  que, para desenvolver  algo original, é necessário, realmente, conhecer tudo o que foi feito antes.

Na prática, a memória empresarial tem seu início em meados do século XX, em empresas europeias que criaram os primeiros relatórios  com conteúdo referente à formação  de seus negócios, um modo de registrar a sua trajetória e explicar o porquê de determinadas decisões. Já nos anos de 1920, as escolas de negócios implantaram cursos sobre história  empresarial, visando destacar o aspecto empreendedor de muitos fundadores (personalização  da história).

Na década de 1960, alguns pesquisadores  começam a ligar a memória empresarial às mudanças organizacionais, usando  da trajetória  das empresas como um significativo  dado para compreender  o contexto  sócio financeiro  e as tomadas  de decisões no mundo empresarial como um todo. Na década seguinte, a História passa a ser interpretada  de novas formas e o simbólico ganha  força como compreensão para a formação  de grupos e comunidades, lugar em que se insere a memória empresarial.

Entre os anos de 1980 e 1990 surgem nos Estados Unidos e no Brasil as primeiras agências formadas por pesquisadores, profissionais  das áreas de Ciências Humanas, em especial História e Arquivística, dedicados a cuidar dos documentos  acumulados por empresas, interpretando-os como acervos históricos, tratando-os e disponibilizando-os como fontes de pesquisa para a sociedade, além de utilizá-los  em produtos como livros institucionais comemorativos.

As empresas, então, passam a ter “lugares de memória”, espaços com políticas bem definidas de preservação de seus acervos históricos, como foi o caso de empresas como a Klabin, o Grupo Ultra, a Unilever, a Natura, a Nestlé, a Bunge, a Eletropaulo, a Cesp e a Comgás, com destaque especial as três últimas, que deram origem aos acervos arquivísticos e museológicos da Fundação  Energia e Saneamento.

A Fundação  Energia e Saneamento, organização  privada  sem fins lucrativos, foi criada em 1998 pelo governo estadual paulista, com o objetivo de preservar a memória e o patrimônio  histórico do setor energético no Estado de São Paulo, frente às grandes privatizações  de empresas desse setor na época, uma ação inovadora e original. Os acervos iniciais da Fundação foram, então, os acumulados  pela Eletropaulo, Cesp e Comgás, que foram entendidos  em toda a sua importância histórica.

Essa memória preservada é refletida em extenso  acervo documental,  composto por mais de 1.600 metros lineares de documentos  técnicos e gerenciais, 260 mil documentos  fotográficos,  cerca de 3.500 objetos museológicos, 50 mil títulos na biblioteca, além de documentos cartográficos, audiovisuais e sonoros, reunidos a partir de meados do século XIX, além de patrimônio  arquitetônico  e ambiental, composto por quatro pequenas centrais hidrelétricas  (PCHs), as Usinas-Parque  de Salesópolis, Rio Claro, Brotas e Santa Rita do Passa Quatro e dois imóveis urbanos  em Itu e Jundiaí.

Lampião a gás em modelo vitoriano, específico para fachadas de edifícios.
Em abril de 1899 a Rainha Vitória, do Reino Unido, concedeu a carta-patente para a incorporação da The São Paulo Railway, Light and Power Company Limited. O que confere autenticidade ao documento é o selo de cera com o brasão de armas de Ontário, que seria equivalente à uma assinatura da Rainha.

A importância  do trabalho  de preservação da memória do setor energético da Fundação  é essencial, tendo em vista os diferentes momentos  pelos quais passaram  as empresas de energia ao longo do processo de desenvolvimento  das cidades, modos de vida e o próprio uso da energia no cotidiano  das cidades. O acervo arquivístico  da Fundação, sob a guarda  do Núcleo de Documentação  e Pesquisa, é focado na memória do setor energético, que abrange  a memória das empresas, públicas e privadas, que deram origem ao que conhecemos como empresas de energia, possuindo  desde documentos  sobre geração, transmissão  e distribuição  de energia, projetos de construção de usinas, processo de eletrificação de meios de transporte público e instalação de iluminação pública a gás, entre outros temas.

Vista do Parque Anhangabaú, a partir do Palacete do Conde Prates. Da esquerda para a direita estão o Viaduto do Chá, o Teatro São José e o Theatro Municipal. 1924.
Vista noturna do centro de São Paulo.

Os documentos  acumulados  pelas empresas do setor energético, além de contarem  suas memórias, dão importantes subsídios para pesquisas acadêmicas e até mesmo para as novas ações das empresas que atuam  nesse setor atualmente,  explicando como o setor foi iniciado nas terras paulistas,  que técnicas empregadas tiveram retorno  positivo ou negativo  e o contexto  da tomada  de decisões. Esse acervo é hoje um dos mais importantes dentro das linhas de pesquisa de história  da energia e da urbanização  da cidade de São Paulo.

Atualmente,  as discussões sobre memória das empresas, no contexto do branding, indicam como valiosa ferramenta de comunicação  institucional,  gestão da marca e engajamento  de seus públicos, sendo vista para além de uma simples linha do tempo, com grandes marcos de sua trajetória,  mas uma construção relacionada  com a percepção de si mesma para dentro e para fora da instituição.

Estação de Luz. Nesta tomada, em direção a oeste, destaca-se a Praça da Luz, vendo-se obras no leito da linha de bonde, que passa pelos pontilhões (passagem da atual Avenida Tiradentes, em sua conexão com rua Florêncio de Abreu). À direita, em primeiro plano, o Liceu de Artes e Ofícios (prédio ocupado hoje pela Pinacoteca do Estado). Ao fundo, a torre do Liceu Coração de Jesus. 12/4/1902.
Imagem noturna do centro da cidade de São Paulo, registrada a partir do
Teatro Municipal. À direita pode-se ver o Edifício Matarazzo; ao centro, o Viaduto do Chá e à esquerda, o Palacete Conde Prates e o Vale do Anhangabaú. Década de 1940.

É interessante  entender  que as relações das pessoas com as histórias das empresas transcendem  os limites de empresa e consumidor.  O acervo do setor energético é consultado  também como fonte para procura  de entes queridos que trabalharam em empresas, como a Light, para estudo da composição étnica dos trabalhadores  do setor, entre outros. Então, os documentos criados para uma determinada  função no passado são ressignificados, pois passam não apenas a documentar  para fins legais e administrativos  os acontecimentos das instituições, mas também a contar o dia a dia das empresas, de seu quadro de funcionários,  o contexto  sócio econômico e político no qual a empresa estava inserida, além de entender  os investimentos  e técnicas utilizados para a produção  de energia em determinado período.

A memória do setor energético continua  em construção,  já que as empresas continuam  em constante atuação e desenvolvendo  o que será memória no futuro. A Fundação  Energia e Saneamento continuará a cumprir a sua missão e a sua meta de preservar e disponibilizar cada vez mais e melhor os acervos que estão sob sua responsabilidade.

Vista geral do Parque do Anhangabaú, no centro de São Paulo. À esquerda é possível visualizar o edifício Alexandre Mackenzie, antiga sede dos escritórios da Light e atualmente o Shopping Light; ao centro, em destaque, está o Theatro Municipal. O projeto de urbanização da região e a abertura do parque datam da década de 1910.

Danieli Giovanini é historiadora e assistente de Documentação e Pesquisa do Núcleo de Documentação e Pesquisa da Fundação Energia e Saneamento

http://energiaesaneamento.org.br

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