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Já faz algum tempo que a pesquisa científica e tecnológica vem extrapolando as fronteiras das universidades e dos institutos de tecnologia. Deixou de ter o cunho restrito de produção de conhecimento para, de fato, ajudar na construção de uma sociedade mais justa, igualitária e sustentável. E quando falamos de um país de superlativos em dimensão geográfica, população e diferenças sociais, como o Brasil, a responsabilidade das instituições de ciência e tecnologia é ainda maior e mais desafiadora.

Para contextualizar a importância da pesquisa e de seus impactos sociais, uso como exemplo o acesso à energia elétrica, que foi colocado na Agenda 2030, da Organização das Nações Unidas (ONU), como um dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – o ODS 7, para ser mais preciso: “Assegurar o acesso confiável, sustentável, moderno e a preço acessível à energia para todos”.

Temos, no Brasil, um dos sistemas elétricos mais robustos e complexos do mundo, com uma matriz baseada em fontes renováveis de energia. Mas, ainda assim, não atendemos a totalidade da população. Segundo dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, 99,8% da população tinham acesso à energia elétrica.

Sem dúvida, o índice de atendimento é bem expressivo, mas não é o ideal, pois, quando traduzimos o percentual não atendido (0,2%) para números absolutos, temos mais de 420 mil brasileiros que não têm o privilégio de acionar um interruptor de luz. Quem dirá dispor de outras comodidades, como um refrigerador para conservar seus alimentos.

O acesso à energia elétrica é um fator que reflete de maneira importante na qualidade de vida das pessoas e, consequentemente, nos indicadores de desenvolvimento econômico e social. E onde entra a pesquisa nessa história toda? Em várias frentes, como na melhoria do desempenho operacional das concessionárias para garantir a disponibilidade e qualidade da energia à população, no melhor aproveitamento das energias limpas e na inserção de novas tecnologias, que permitam avançar nos índices de atendimento, para citar algumas vertentes.

Quero me ater aqui a um exemplo recente e bem marcante para o Lactec e para os pesquisadores envolvidos nesse trabalho: o projeto de P&D de eletrificação rural em Mato Grosso do Sul, que serviu de base para a universalização do atendimento às comunidades isoladas, prevista no Programa Ilumina Pantanal, anunciado pela Energisa e Governo do Estado. A concessionária irá investir R$ 134 milhões para atender 2.090 famílias da região, até 2022.

Demandado pela Energisa, o projeto – realizado no âmbito do Programa de P&D da Aneel – teve início em 20a16, quando em uma primeira etapa foram estudadas as alternativas de fornecimento de energia, respeitando as especificidades e restrições logísticas e de proteção ambiental da região. O atendimento ao pantanal é bastante complexo em razão dessas particularidades e dos alagamentos sazonais.

Na continuidade da pesquisa, chegou-se a definição da solução mais viável nos aspectos técnicos e econômicos – sistemas individuais de microgeração fotovoltaica e de armazenamento de energia. Para validar a tecnologia em campo, foram instalados, inicialmente, 23 sistemas em casas de famílias ribeirinhas, escolas e propriedades rurais, que passaram a ter autonomia na geração da energia.

O projeto de P&D também envolve o desenvolvimento de algoritmos para avaliar o desempenho das plantas e fazer o planejamento dos recursos de operação e manutenção, além da criação de uma metodologia para otimizar e prolongar a vida útil das baterias.

Projetos como esse são desafiadores, mas extremamente gratificantes, quando vemos os resultados transformando, para melhor, a vida das pessoas. E esse é apenas um entre tantos exemplos que corroboram a importância da pesquisa no Brasil e legitimam seu caráter de sustentabilidade social, ambiental e econômica.

Ao estudarmos e desenvolvermos tecnologias, ultrapassamos os limites da engenharia e do conhecimento técnico e vislumbramos o bem-estar da sociedade e o desenvolvimento sustentável do país.

A Aneel está conduzindo um processo de revisão de seu programa de investimentos em P&D no setor elétrico brasileiro e este, talvez, seja um momento oportuno para colocar na balança não apenas o avanço dos resultados da pesquisa tecnológica na cadeia de inovação, mas, também, seus impactos socioambientais.

*Carlos Eduardo Ribas é engenheiro eletricista, com MBA em gestão empresarial, e diretor Comercial do Lactec, um dos maiores centros de tecnologia e inovação do Brasil, referência para o setor elétrico. Está na empresa há mais de 20 anos e tem vasta experiência no mercado de energia.

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