O futuro é elétrico e verde

jan, 2018

A inauguração da Usina Hidrelétrica de Itaipu em 1984 (apenas 34 anos atrás) possibilitou uma oferta generosa de eletricidade para o Brasil. Os críticos da época chegaram, inclusive, a considerar esta obra desnecessária, uma vez que não acreditavam ser possível o país consumir tamanho volume de energia elétrica.

O cenário da eletricidade nesta época era o de um “bem” abundante. No entanto, a consequência de todo “bem” abundante é ser de baixo custo e, como tudo que é barato, dispensa gerenciamento. Isto foi muito prejudicial ao setor elétrico, uma vez que a falta de gerenciamento está sempre ligada à negligência na aplicação de normas técnicas.

Este cenário sofreu uma forte mudança em 2001, com o evento que ficou conhecido como “apagão”. A partir deste momento, a energia elétrica deixou, então, de ser considerada um “bem” abundante, passando a ser um “bem” escasso. Como todo “bem” escasso, o preço sobe e, como custa caro, passou a demandar gerenciamento. Por conta disso, assistimos a partir daí uma maior preocupação dos players do setor elétrico em editarem normas técnicas brasileiras, que até então inexistiam.

Falando especificamente do segmento de proteção e seletividade de sistemas elétricos no qual eu atuo, a entrada em vigor da ABNT NBR 14039 (instalações elétricas de média tensão de 1,0 kV a 36,2 KV) em janeiro de 2004 (13 anos atrás), evidenciou um quadro preocupante: poucos engenheiros tinham conhecimento do que era proteção e seletividade.

Poucas universidades ofereciam esta disciplina em suas grades curriculares e os poucos cursos extracurriculares existentes eram de alto custo e ministrados somente nos grandes centros.

Conhecimento sobre proteção e seletividade era privilégio de poucos profissionais que atuavam na indústria de base (óleo e gás, siderurgia, mineração) ou na cadeia de Geração, Transmissão e Distribuição (GTD).

Como a ABNT NBR 14039 passou a exigir o emprego de relés de proteção nas cabines primárias acima de 300 KVA, a falta de profissionais em condições de executar um projeto de proteção e seletividade para ser aprovado junto às concessionárias foi um fato alarmante. Para os poucos que estavam habilitados, esta foi uma grande oportunidade.

Apesar dos 13 anos passados, percebemos que ainda atualmente o desconhecimento sobre o tema é grande. Poucas universidades passaram a incluir o tema em suas grades e aqueles que dominam o assunto e lucram com esta atividade não têm interesse em passar o conhecimento adiante.

Soma-se a isso o fato de que a crise econômica vivida no Brasil nos últimos três anos esfriou o mercado em termos de novos projetos. A norma ABNT NBR 14039 também exige adequação no caso de reformas ou solicitações de aumento de demandas. Com a crise, porém, até isto parou.

Estima-se que existam cerca de 100 mil entradas de média tensão no Brasil. É possível que cerca de 80% delas estejam em condições totalmente desfavoráveis com relação à norma.

As consequências dessas instalações inadequadas são facilmente identificáveis, na mesma medida em que são negligenciadas: a sobrecarga ou um curto-circuito em um consumidor que não possua um sistema de proteção adequado, por vezes, desarma o relé do alimentador da concessionária, deixando sem energia centenas ou milhares de consumidores.

O prejuízo da concessionária não é apenas momentâneo, altera seus índices de DEC/FEC, que vão contribuir negativamente na hora da revisão tarifária.

A percepção que eu tenho é que a maioria das concessionárias não enxerga as cabines primárias como uma extensão das suas subestações. Mesmo gastando milhões na modernização de algumas dezenas de subestações próprias, terão dificuldades de conseguir índices aceitáveis de qualidade de fornecimento de energia, se existirem milhares de cabines primárias em condições inaceitáveis de funcionamento. E isto é o que ocorre, em particular com os sistemas de proteção.

É importante uma tomada de consciência de toda esta situação. A crise está passando, a economia voltará a crescer e a energia elétrica precisará, como nunca, ser melhor cuidada. Até porque este insumo continuará cada vez mais caro e escasso.

Os engenheiros precisam se qualificar para poder atender a toda essa demanda de trabalho em proteção e seletividade que virá.

Hoje já são possíveis treinamentos online de proteção e seletividade. Empresas como a Engepower (www.engepower.com.br) e a Treineinsite (www.treineinsite.com.br) oferecem esta possibilidade.

O futuro é elétrico e verde. A substituição dos combustíveis fósseis pela eletricidade já é realidade. Automóveis, caminhões, ônibus elétricos, tudo isto estará em nossas ruas dentro de poucos anos. Será preciso investir cada vez mais em geração e esta energia virá de fontes renováveis. Nosso país é abençoado. Temos vento, sol, biomassa, tudo a nosso favor. Indústrias e profissionais do setor elétrico: estejamos preparados para o futuro que já começou!

 

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