Fala que eu te escuto

out, 2011

Edição 68 / Setembro de 2011
Por Carla Estremes Ricci

Diariamente, em meio à rotina do trabalho, ouço e leio diversas “pérolas” que me divertem e ao mesmo tempo me assustam. Nem todos são privilegiados e podem ter um estudo de qualidade, mas há certas coisas que chamam a atenção, afinal, onde vamos parar? Alguns e-mails parecem escritos em algum dialeto indígena, sem pontuação. Fica até difícil identificar se é uma afirmação ou uma pergunta. Mas ainda assim precisamos admirar a coragem e a força de vontade destas pessoas que aprenderam a se expressar e se conectar com o mundo.


Sou formada em comunicação e deve ser por isso que valorizo e admiro pessoas que falam e escrevem corretamente, com eficiência, clareza e objetividade. Muitas falhas ocorrem por erros de interpretação, começam com simples tarefas mal compreendidas e seguem sem que ninguém questione, até resultar em um problemão. Uma vez perguntei por e-mail ao cliente: “O produto é para consumo da sua empresa ou para revenda?” Obtive a resposta: “Não é revenda”. Aquela resposta me intrigou muito e cheguei à conclusão de que as pessoas geralmente respondem o que é, e não o que NÃO é. Gramaticalmente a frase estava correta e eu poderia ter aceitado o fato de que não era revenda e pronto. Mas com uma simples vírgula, esquecida ou desconhecida, ela mudaria o significado para o sentido oposto! “Não, é revenda” (uma negação para a primeira opção e uma afirmação para a segunda!). Apostei que era revenda e era mesmo. Mas foi preciso telefonar para ouvir do cliente aquela vírgula oculta. Um telefonema que evitou possíveis correções na nota fiscal e consequentes atrasos na entrega do pedido, entre outros transtornos.

É por isso que o que se fala nem sempre se escreve e vice-versa. A maioria das pessoas pronuncia: “Eu vô pegá, vô lavá a mão”, mas não escreve assim. Este jeito de falar é socialmente aceito e não é considerado como “falar errado”, mostra inclusive que se está à vontade. A língua falada é mais informal, bem diferente da escrita, que exige mais atenção e cuidado. Justamente por causa desta informalidade generalizada, quando alguém pronuncia precisamente todas as letras de cada palavra, chama e prende a atenção, como se os fonemas fossem suculentas frutas sendo saboreadas ao máximo, sem pressa, deixando todos com água na boca. Ouvir a língua pátria ser pronunciada com perfeição engrandece a alma.

Mas, como as pessoas possuem formações e culturas diferentes, um simples diálogo pode se transformar em jogo de adivinhação ou tortura. Sem ter certeza de que estão compreendendo ou sendo compreendidas, ficam com vergonha de perguntar ou confirmar, coisa que deveria fazer parte de qualquer comunicação saudável. Além disso, quem lida com o público, pessoalmente, por e-mail ou telefone, precisa falar e escrever corretamente pelo menos o básico. Nada de “nós vai”, “agente vamos”, “menas, seje, poblema, adevogado, imbigo, encomodo, atensiosamente” e por aí vai (a lista é grande). Se o profissional que representa a empresa mal sabe falar ou escrever, que empresa é essa?

Uma vendedora de uma gráfica me telefonou oferecendo impressão de catálogo de produtos. Na primeira vez em que ouvi a palavra, achei que tinha ouvido errado, mas ela falou novamente, e disse “catálAgos”. Aquilo me intrigou. Pedi que enviasse um e-mail e nele a palavra estava escrita corretamente. Ela voltou a ligar outras vezes e em todas voltou a falar a palavra que me irritava, com o “A” bem evidenciado. Será pedir demais que o vendedor fale corretamente o nome do produto que vende? Vai ver, sou exigente demais…

O que se fala não se apaga, mas se esquece. O que se escreve fica para sempre gravado ou impresso, mas tem a vantagem de poder ser revisado antes, lido, relido, reescrito. Para isso existe o dicionário e o corretor ortográfico –maravilha do mundo moderno – porém, tão subestimado e ignorado. Se todos usassem essa ferramenta maravilhosa, os erros ortográficos diminuiriam drasticamente! Clientes como eu seriam mais felizes!

Comentários

Deixe uma mensagem