A diferença entre o tipo do DPS e a tecnologia para fabricá-lo

fev, 2017

Após um tempo acompanhando a assimilação da norma ABNT NBR 5419:2015, é possível perceber alguns pontos que têm causado dúvidas. Em relação à sua parte 4, muitos colegas ainda não são rigorosos ao especificarem os Dispositivos de Proteção contra Surtos (DPS) utilizando o conceito de Zonas de Proteção contra Raios (ZPR).

O posicionamento dos DPSs em uma edificação é baseado no conceito de ZPRs conforme a parte 4 da norma ABNT NBR 5419:2015.

As ZPRs são divididas, partindo do exterior da edificação para o seu interior, em função da severidade dos efeitos das correntes de surto.

Nas zonas externas (ZPR0A e ZPR0B), a única proteção disponível ao equipamento que ali se encontra é a sua própria suportabilidade. Nas zonas internas (ZPR1, ZPR2 e ZPR3), as estruturas metálicas da edificação são parte, intencional ou não, das Medidas de Proteção contra Surtos (MPS) aumentando a proteção dos equipamentos eletroeletrônicos.

O parâmetro mais importante de um DPS é o seu tipo, que é definido pela sua posição na instalação, em harmonia com as ZPRs, conforme apresentado a seguir:

  • DPS tipo 1 – Instalado na fronteira entre as ZPR0B e ZPR1;
  • DPS tipo 2 – Instalado na fronteira entre as ZPR1 e ZPR2;
  • DPS tipo 3 – Instalado na fronteira entre as ZPR2 e ZPR3.

Os componentes utilizados na construção dos DPSs não são definidos pela ABNT NBR 5419:2015. Estes dispositivos podem ser construídos a partir da utilização de centelhadores, varistores ou diodos separadamente, ou pela combinação de dois ou dos três elementos.

Independentemente do componente utilizado, a classificação do DPS em um determinado tipo é definida pelo seu fabricante já no projeto do dispositivo, até chegar, idealmente, na sua certificação por um organismo qualificado para tal, segundo a série de normas IEC 61643, cuja parte 1 conta com uma versão ABNT, a norma NBR IEC 61643-1:2007.

O que o projetista das MPSs irá determinar é o tipo do DPS, indicando onde ele deverá ser instalado segundo o conceito de ZPRs. Ao definir seu tipo, automaticamente, estará determinando se a corrente de surto do DPS foi ensaiada na curva 10/350µs ou 8/20µs e qual o seu nível de proteção.

Definir se o DPS terá como elemento de proteção um centelhador, um varistor ou um diodo, pode ser ou não uma decisão do responsável pelo projeto, mas esta não é uma questão tratada na ABNT NBR 5419:2015. O desenvolvimento tecnológico associado a questões econômicas determinaram que, atualmente, os centelhadores sejam utilizados apenas como DPSs tipo I, diodos como DPSs tipo III e varistores tenham maior flexibilidade sendo utilizados nos três tipos de DPS. Podem existir poucas exceções para a afirmação anterior, mas uma consulta ao catalogo dos principais fabricantes existentes no mercado vai confirma-la como válida.

Outro equívoco comum é utilizar a terminologia de tipo nos DPSs para entradas de sinal. Condutores de sinal e de energia dividem-se de forma diferente, já que a entrada de energia normalmente é única e a informação chega aos equipamentos por canais individualizados, onde o mesmo condutor passa por duas ou mais ZPRs.
Desta forma, um projeto de MPSs, segundo a norma ABNT NBR 5419:2015, só pode ser considerado correto se o projetista especificou com precisão o DPS de energia através de seu tipo e o DPS de sinal pela forma de onda e nível de proteção, o que, infelizmente, não está sendo feito em inúmeros projetos.

Esta questão merece uma reflexão por parte daqueles que inspecionam a Proteção contra Descargas Atmosféricas (PDA), formada pelo SPDA e pelas MPSs, inspeção objeto de inúmeras indagações. A ABNT NBR 5419:2005 não apresentava uma classificação dos DPSs em três níveis, na verdade, ela não se aprofundava no assunto DPS. Mas fora qualquer aspecto jurídico-comercial, as informações disponíveis a partir da publicação da edição atual não podem ser ignoradas e deve ser indicado aos proprietários das edificações inspecionadas que DPSs que não sejam tipo I, instalados entre as ZPRs 0B e 1, fazendo a equipotencialização dos condutores que entram na edificação em relação a sua Barra de Equipotencialização Principal (BEP), devem ser substituídos por DPSs tipo I. Isso para evitar que as instalações elétricas destas edificações sejam danificadas caso sejam atingidas por descargas atmosféricas diretas. O mesmo é válido para os DPSs de sinal nas mesmas condições que também devem ter sido ensaiados na curva 10/350.

A norma ABNT NBR 5419:2015 traz informações preciosas para protegermos nossas edificações e suas instalações elétricas contra os efeitos de uma descarga atmosférica. Mas para compreendê-la é necessário, ao menos uma vez, lê-la completamente para ter uma visão geral sobre seus fundamentos.


Referências

  • ABNT NBR 5419-1/2/3/4:2015 – Proteção contra Descargas Atmosféricas;
  • Artigo “Zonas de proteção contra raios”, Revista O Setor Elétrico, Espaço 5419, edição 114, julho/2015;
  • ABNT – www.abntcatalogo.com.br;
  • ABNT NBR IEC 61643-1:2007, Dispositivos de proteção contra surtos em baixa tensão
    Parte 1: Dispositivos de proteção conectados a sistemas de distribuição de energia de baixa tensão – Requisitos de desempenho e métodos de ensaio.

*Sergio Roberto Santos é engenheiro eletricista e membro da comissão de estudos CE 03:64.10, do CB-3 da ABNT.

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