Bons ventos do Brasil colaboram para um setor eólico promissor e movido a inovação tecnológica

set, 2018

O setor de energia eólica brasileiro conseguiu manter-se durante a crise política do País, que ainda deixa sequelas. No momento vai se revigorando com força para enfrentar grandes mudanças econômicas, de regulação, social e também política, com a chegada de um novo governo em 2019. A vantagem é que o Brasil tem um dos melhores ventos do mundo e esses bons ventos estarão presentes neste futuro de desafios para o setor eólico.

Público na cerimônia de abertura: palestrantes, expositores, visitantes e autoridades do setor eólico nacional e internacional.

Esses desafios e as tecnologias disruptivas, o mercado livre competitivo, a diversificação de portfólios, o mercado offshore e os novos investimentos foram alguns dos temas discutidos na 9ª edição do Brazil Windpower (BWP), realizado no Rio de Janeiro, de 07 a 09 de agosto, com um público de 3 mil pessoas, entre palestrantes, expositores, visitantes e autoridades do setor eólico nacional e internacional.

Durante a cerimônia de abertura do BWP, Rodrigo Ferreira, presidente do grupo Canal Energia, comentou sobre as possibilidades de networking e novos negócios no local, além de destacar que, no próximo ano, em que completa dez anos, o evento passará a ser realizado em São Paulo, onde se concentram os maiores players do mercado de energia eólica.

O BWP deste ano teve uma proposta diferente, diante da modernidade e das novas tecnologias que determinam o setor. “A modernidade está no nosso DNA e é por conta disso que estamos discutindo o presente, pensando fortemente no futuro, que já está acontecendo com as tecnologias disruptivas, com a discussão das mudanças dentro de um contexto de economia de baixo carbono, das mudanças climáticas. Estamos numa onda de inovação. Digo que não é uma onda e sim uma nuvem global de mudanças. Teremos de estar dispostos, sair de nossa zona de conforto e nos prepararmos para as mudanças e inovações. É com este espírito que programamos o evento”, comentou Elbia Gannoum, presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), uma das entidades organizadoras do evento.

Renato Volponi, presidente do Conselho de Administração da ABEEólica, ressaltou que o setor eólico não pode ceder a fácil tentação de uma competição destrutiva entre as fontes. “Não é assim que vamos construir um setor elétrico inteligente e com uma expansão voltada para servir a sociedade, com menor custo e com tributos reais ao meio ambiente capaz de, com confiabilidade, ser o propulsor de uma nova onda de desenvolvimento. Precisamos de todas a fontes de energia e generosamente a nossa natureza para nossa matriz pode ser ousada e equilibrada, privilegiando o menor custo e melhor garantia”, destacou.

Rodrigo Ferreira, presidente do Grupo Canal Energia: “possibilidade de networking e novos negócios no local”.

A cerimônia de abertura também contou com a participação de Viveka Kailtila, CEO da GE do Brasil, que atua no setor há dez anos. “Nesses anos apoiamos o desenvolvimento do setor. Acredito que a história da energia eólica no País está apenas no começo”, destacou.

Com pouco mais de 2GW em novas usinas eólicas colocadas em operação no ano passado, o Brasil apareceu como o sexto maior em expansão anual da capacidade em todo o globo, à frente da França, com 1,7 GW, segundo lista do Conselho Global de Energia Eólica (GWEC) divulgada no final de julho deste ano. Para o Secretário Geral do GWEC, Steve Sawyer, que também participou da abertura do BWP, a despeito da situação econômica do Brasil, o setor eólico vem despontando. “Acredito que o mercado de energia eólica no País será muito promissor ao longo dos anos.”

O Ministro de Minas e Energia, Wellington Moreira Franco, prestigiou o evento e defendeu a energia a preço justo. “É fundamental que o cidadão pague pelo que usa. Por que produzimos energia limpa e barata e não conseguimos fazer que o consumidor usufrua desse avanço? Pela questão regulatória. Se essa questão for resolvida vamos contribuir com a humanidade”, ressaltou.

O ministro lembrou ainda que o setor hidrelétrico, responsável por cerca de 60% da produção de energia nacional, vem sofrendo grandes dificuldades regulatórias, muitas delas relacionadas às questões ambientais. “Esse é o ambiente oportuno para se debater essas questões regulatórias, para garantir segurança e sustentabilidade econômica para o setor eólico”, destacou. O setor eólico atualmente responde por 8,4% da matriz energética do País, com 13,4 GW de capacidade instalada e mais de 530 parques eólicos.

Entrevistas exclusivas

Balanço e casa nova

Apesar da situação política e econômica do Brasil, a indústria mostrou que continua viva e retomando seu crescimento. “O BWP foi compatível com as outras edições ou até melhor e percebemos que o mercado está esperançoso e com a certeza de que dias melhores virão. Retomamos um volume de contratações e o setor eólico tem liderado esse movimento, seja por preço, pelas características da fonte renovável e pelo desempenho que vem entregando ao sistema. Foi mais um ano de excelente BWP”, afirmou Rodrigo Ferreira, presidente do Grupo Canal Energia.

A mudança de sede para São Paulo também foi um pleito da indústria eólica e, segundo Ferreira, será atendido a partir do ano que vem. “Um dos nossos desafios foi encontrar espaço para um evento desta magnitude, por uma semana, na capital paulista. Mas conseguimos e o evento será no mês de maio, no Transamérica Expo Center. São Paulo é estratégico e esperamos um crescimento expressivo na participação das empresas e indústrias do setor, em sua maioria instaladas na capital paulista, explicou, acrescentado que a mudança foi bem recebida pelo setor eólico, que tem seus headquarters centralizados no Estado de São Paulo.

Elbia Gannoum, presidente executiva da ABEEólica: “temos que sair de nossa zona de conforto e nos prepararmos para as mudanças e inovações.”

Em relação ao Congresso, esta edição contou com uma das melhores programações. “Sob a liderança da ABEEólica, coordenando o conteúdo e o apoio do GWEC, nas questões internacionais discutimos a indústria que olha para o futuro, a indústria 4.0, o papel das renováveis em outros setores, do papel do consumidor no centro do negócio e um mundo mais renovável e sustentável”, concluiu Ferreira.

A presidente executiva da ABEEólica, Elbia Gannoum reforçou que o setor ainda sofre os efeitos de curto prazo associados à economia, com baixa contratação, mas nos próximos anos é certa a retomada da economia e do setor.  “Estamos construindo essa retomada e, até o final do ano, a fonte eólica deverá ocupar o posto de segunda na matriz energética nacional”, afirmou.

Debates

Expansão do setor eólico ocorrerá pela diversidade das fontes

Os desafios da energia eólica no Brasil também foram debatidos no Brazil Windpower. Entre as diversas questões debatidas e que precisa ser difundida pelo setor é a propagação da diversidade das fontes de energia para a expansão do setor no País. Segundo o presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Renato Volponi, não há incompatibilidade entre as fontes energéticas no Brasil.

“É preciso propagarmos a ideia de que as fontes renováveis são complementares umas às outras. Essa concepção é muito importante para o fortalecimento e a consolidação da matriz energética do país”, comentou.

Outro desafio, segundo Volponi, é a busca do aprimoramento da contratação de energia eólica por quantidade que vai exigir do empreendedor a melhor previsão do seu recurso para gerenciar sua produção. “Esse contrato por quantidade nos expõe ao risco da produção, mas é um risco positivo que nos obriga a crescer em termos de gerenciamento da nossa produção”, comentou.

Em relação aos caminhos de crescimento do setor no Brasil, Volponi destacou que metade do problema já está resolvido, visto que só serão construídos parques eólicos onde há ventos. “O caminho da expansão eólica no Brasil está traçado. Esses caminhos já são conhecidos e mapeados”, explicou. “Mais cedo ou mais tarde, precisaremos de um canal de escoamento dessa geração”, complementou.

O Diretor Geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Luiz Eduardo Barata, ressaltou que a segurança energética do País depende diretamente do mix das matrizes energéticas.  “Nós do Operador Nacional não somos contrários à nenhuma fonte, em especial às térmicas, que temos maior controle dos combustíveis fósseis. O mesmo não ocorre com a energia produzida pelas hidrelétricas, que estão condicionadas à existência de chuvas, ou às eólicas, que dependem dos ventos. Por tanto, a característica de cada fonte é levada em conta no processo de distribuição realizado pela ONS”, detalhou.

Barata também defendeu a ocorrência de leilões a médio prazo. “Um plano trianual é ideal e positivo para o setor. O problema é a quantidade a ser contratada. Temos de olhar com atenção essa questão, pois dela depende a segurança da transmissão de energia no Brasil”, afirmou.

Ainda em relação aos leilões, Tiago Barros, Diretor da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), explicou que a definição do preço da tarifa energética é resultado de uma série de fatores envoltos a toda a cadeia de produção, geração e distribuição de energia. “Existem riscos no negócio que precisam ser representados nos leilões. A tarifa é resultado de uma receita com todos os ‘ingredientes’ envolvidos”, afirmou. O desafio da ANEEL, segundo Barros, é trabalhar para evitar a retributação do setor produtivo e definir a contratação por quantidade final a ser ofertada.

Moreira Franco, ministro de Minas e Energia: “se a questão regulatória for resolvida vamos contribuir com a humanidade.”

A integrante do Conselho de Administração da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), Talita Porto, ressaltou a importância do preço horário, que será implementado a partir de janeiro de 2020, quando o PLD poderá ser calculado em base horária.

Já o Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do Ministério de Minas e Energia, Eduardo Azevedo, comentou sobre a dificuldade enorme em avançar no mercado livre e também reconheceu que os processos de retributação precisam ser otimizados.

Preço da energia

No painel sobre “Preços da energia eólica: por que estão caindo e como podem chegar ao consumidor no Brasil, o presidente da ABRADEE, Nelson Leite, defendeu a modicidade tributária e redução de encargos para que o preço da energia chegue ao consumidor

A Diretora do Centro de Regulação em Infraestrutura do FGV/CERI, Joisa Dutra, explicou que o preço não chega ao consumidor devido à insuficiente resposta da demanda e da provisão de serviços ancilares. “O que fizemos até agora? Nosso desafio é trabalhar para estabelecermos mecanismos de capacidades que remunerem as fontes, trazendo segurança e confiabilidade de suprimento”, destacou

A energia eólica no Brasil, segundo Dutra, só é rica de recurso, mas é preciso produzir riqueza com ganhos de valor ao longo de toda a cadeia, remunerando investidores e assegurando competitividade à indústria para que os preços cheguem ao consumidor.

O presidente da Comerc, Christopher Vlavianos, exemplificou a questão do risco do desconhecido e reconheceu que o preço horário, que será implementado em 2020 ainda é desconhecido para o setor, gerando um risco maior e por consequência, o aumento do preço. “A única forma de gerenciar risco é conhecer o risco. A tendência é que no começo impacte no mercado, mas conforme for usando vai diminuindo esse impacto”, explicou.

Em relação á tributação, a Diretora da Essec, Agnes Costa, destacou que há muita irracionalidade nos encargos, ainda mais no momento em que passamos de restrição fiscal enorme.

 

Nordeste, Rio de Janeiro e Sul do Brasil fazem parte de plano de desenvolvimento offshore

Encerrando o congresso com chave de ouro o tema “Existe futuro para a energia eólica offshore no Brasil?” trouxe bastante indagação a respeito das oportunidades desse mercado no País. Segundo o engenheiro de equipamentos pleno da Petrobras, Ezequiel Malateaux, já estão sendo desenvolvidos estudos para a implementação de um primeiro projeto e indicam que os maiores potenciais para exploração de offshores estão nos litorais do Nordeste, Rio de Janeiro e Sul do Brasil.

A empresa desenhou um mapa para medir a capacidade dos ventos no litoral do Rio Grande do Norte e já cumpriu três de seis etapas para a instalação do projeto piloto. “Já fizemos a assinatura de cooperação com as universidades, o projeto conceitual e solicitamos o termo de referência junto ao IBAMA. Falta o licenciamento ambiental, construção e comissionamento, além da operação em si”, analisou Malateaux.

Segundo Eduardo Ângelo, diretor de negócios e desenvolvimento para América Latina da Siemens Gamesa Renewable Energy, 40% dos custos offshore é do aerogerador e 60%, de logística. Ângelo explicou todo o processo de implementação dos aerogeradores offshore. “Para se manter líder é preciso muitos investimentos. No processo offshore, investimos quase 400 milhões de euros em duas fábricas, uma delas próxima a região de Porto para colocar o equipamento rapidamente nas embarcações”, comentou.

3 mil pessoas estiveram prestigiando o evento

Segundo Ângelo, os processos fundamentais para o sucesso da operação são: tecnologia (turbina), integração de logística/instalação, e balanço de potência elétrica, digitalização (para antecipar potenciais de falhas, já que não é possível a locomoção constante até o equipamento) e operação e manutenção. “Essa dinâmica nos possibilita colocar quatro unidades eólicas em 24 horas”, explicou, complementando que outro desafio é o de levar grandes potencias a longas distancias de forma submarina.

No mundo

O mercado mundial de geração de energia eólica offshore, de acordo com o secretário geral do GWEC, Steve Sawyer, está concentrado na Europa. “Hoje há 18GW de capacidade instalada no mundo, sendo 84% dos projetos em sete países europeus, que respondem por cerca 15GW. Os outros 16% estão espalhados por Taiwan, China, Vietnã, Japão, Estados Unidos e Coréia do Sul.” Ele complementou mostrando que o Reino Unido é o líder mundial de produção offshore, seguido da Alemanha e da China.

O coordenador do programa de pós-graduação em Engenharia de Produção da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Mario González, mostrou a lista das empresas que lideram a produção eólica offshore. A dinamarquesa Orsted é a maior, com 17% do segmento. Em seguida aparecem, respectivamente, a alemã E.ON (8%), a alemã Innogy (7%) e a sueca Vatenfall (7%).

González também divulgou a divisão do mercado entre os fabricantes de aerogeradores para offshore. A Siemens Gamesa lidera com quase 47% do mercado, seguidos pela MHI Vestas, com 21% e pela Semvion com 11%.


  • Matéria por Adriana Dorante e fotos por Michele Lekan.

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