A quem interessa que um país se desenvolva com abundante energia limpa e soberana?

set, 2015

Edição 115 – Agosto de 2015
Espaço IEEE
Por Roberto Asano Junior e Shevine Silva Oliveira Risso*
 

A energia hidrelétrica é a obtenção de energia elétrica pelo aproveitamento do potencial hidráulico de um rio, porém, para que esse processo seja realizado, é necessária a construção de usinas em rios que possuam elevado volume de água e que apresentem desníveis em seu curso ou que possam ter esses desníveis criados artificialmente.

Com a água armazenada no reservatório, ocorre o processo de transformação de energia potencial (energia da água) em energia mecânica (movimento das turbinas). As turbinas em movimento estão conectadas a um gerador, que é responsável pela conversão da energia mecânica em energia elétrica.

Atualmente, as usinas hidrelétricas são responsáveis por aproximadamente 18% da produção de energia elétrica no mundo. Esses dados só não são maiores pelo fato de poucos países apresentarem as condições naturais para a instalação de usinas hidrelétricas. As nações que possuem grande potencial hidráulico são os Estados Unidos, Canadá, Brasil, Rússia e China. No Brasil, mais de 70% da energia elétrica produzida é proveniente de usinas hidrelétricas.

Existem dois tipos de reservatórios: acumulação e fio d’água. Usinas com reservatório de acumulação, além de “estocar” a água, esses reservatórios têm outras funções: permitem a formação do desnível necessário para a configuração da energia hidráulica, a captação da água em volume adequado e a regularização da vazão dos rios em períodos de chuva ou estiagem. Existem também algumas usinas hidroelétricas chamadas “a fio d’água”, ou seja, próximas à superfície e utilizam turbinas que aproveitam a velocidade do rio para gerar energia. Essas usinas a fio d’água reduzem as áreas de alagamento e não formam reservatórios para estocar a água, ou seja, a ausência de reservatório diminui a capacidade de armazenamento de água, sendo a única maneira de poupar energia elétrica para os períodos de seca, tornando a operação do sistema menos segura e mais cara.

O Brasil é um dos países com maior disponibilidade de recursos hídricos renováveis do mundo e utiliza hoje apenas 40% desse potencial, enquanto países desenvolvidos já ultrapassam os 60% de exploração. As novas fronteiras desse desenvolvimento estão na região Norte, todavia, por pressão pública estimulada por ONGs estrangeiras, os novos empreendimentos estão sendo construídos subutilizando esses recursos, diminuindo seu aproveitamento e aumentando o risco de déficit energético e a dependência ao regime de chuvas.

Outras fontes renováveis, além da incerteza quanto à energia gerada devido ao fator de capacidade, não oferecem capacidade de rápida resposta à demanda nem recursos próprios de armazenagem, sem os quais se torna impossível assegurar o abastecimento. Essas características são amplamente complementadas pela hidroeletricidade de grande porte, a qual poderia inclusive (caso disponha de suficiente reservatório de armazenagem) acumular eventuais excessos de energia provenientes da energia eólica ou solar.

Não há produção de energia sem impacto. Os esforços efetivos em sustentabilidade dos recursos naturais devem ser direcionados para a melhor utilização da energia e seu uso eficiente. Uma vez que uma maior oferta de energia é necessária, o uso dos recursos disponíveis e o investimento para utilizá-los também devem ser usados eficientemente e outras questões, além do impacto ambiental, também devem ser consideradas e melhor esclarecidas com a sociedade.


Figura 1 – Vazão natural em Belo Monte. Sem o reservatório de regulação e armazenamento, a usina operará com a plena capacidade de sua potência instalada por apenas um trimestre e passará o resto do ano subutilizada.

Da mesma forma que a sociedade foi levada a comover-se com as espécies em extinção (algumas delas que nunca foram conhecidas) e com as comunidades afetadas pelas represas, a sociedade também deveria ser convidada a discutir a soberania e a segurança energética do Brasil, a importância da independência tecnológica e os benefícios que a disponibilidade de energia traz para o desenvolvimento social e crescimento econômico.


Referências

  • The United Nations World Water Development Report 3 Volume 1.
  • The United Nations World Water Development Report 4 Volume 1.
  • The United Nations World Water Development Report 2014 – Water and Energy.
  • EPE – Demanda de Energia 2050. MURPHY, D. J.; HALL, C.A.S. “Year in review EROI or energy return on (energy) invested”. Annals of the New York Academy of Sciences 1185, 2010.
  • MAXIM, Alexandru. Sustainability assessment of electricity generation technologies using weighted multi-criteria decision analysis, Energy Policy, v. 65, Elsevier, 2014.
  • GOMES, Rafael de Oliveira. Estudo do impacto da incorporação de usinas hidrelétricas a fio d’água no sistema interligado nacional, 2012.
  • Statistics on the web: http://www.iea.org/statistics/ –  http://world-statistics.org

*Roberto Asano Junior é formado em engenharia elétrica e atuou no desenvolvimento de produtos e tecnologia para transmissão de energia. Ele é doutorando em energia (UFABC), voluntário em associações profissionais e normativas e membro do IEEE.

Shevine Silva Oliveira Risso é formada em engenharia civil e em tecnologia em saneamento ambiental (IFS 2009). Desenvolveu o projeto de Aplicação de Indicadores de Desempenho para Análise de Sistemas Hídricos: Estudo de Caso na Bacia do São Francisco. Atualmente, é mestranda em energia (UFABC).


 

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