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Eletricidade e desenvolvimento

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Edição 48, Janeiro de 2010

Por Weruska Goeking

Primeiros sistemas de distribuição de energia elétrica no Brasil

Eletricidade e desenvolvimento

Sem recursos públicos suficientes, foi preciso que empresas estrangeiras dessem os primeiros passos para o desenvolvimento da eletrificação no Brasil

A existência da energia elétrica já era de conhecimento público desde o século XVIII, contudo, sua incorporação ao dia a dia e ao processo produtivo não foi tarefa simples. Em 1867, o transporte da energia entre a fonte geradora e os poucos consumidores brasileiros acontecia com dínamos, mas a tecnologia não era suficiente para a sua utilização em larga escala e transporte para longas distâncias.

 

 

O progresso mundial do uso da eletricidade foi impulsionado pelo surgimento de tecnologias para distribuição, que se desenvolveu rapidamente graças à demanda crescente de indústrias, mas sua primeira aplicação deu-se na iluminação pública. Os primeiros sistemas de distribuição foram instalados no final do século XIX na Inglaterra, na França e na Itália e, no Brasil, a expansão dos serviços de energia e, consequentemente, dos sistemas de distribuição deveu-se, principalmente, à necessidade da disseminação da iluminação pública.

 

A demanda por este serviço crescia em diversas cidades desde 1880, mas a administração pública não possuía recursos para realizar sua implantação adequada e satisfatoriamente, o que levou à instituição do regime de concessões para prestação de serviços públicos. Essas concessões eram, na maior parte das vezes, outorgadas pelas próprias prefeituras, principalmente quando se tratavam de contratos para distribuição de energia, que tinham longa duração (até 90 anos) e davam garantias financeiras por parte do Estado.

 

Embora, atualmente, São Paulo seja a cidade mais populosa do País, no fim do século XIX tinha apenas 20 mil pessoas, e a eletrificação chegou à cidade apenas em 1889, enquanto Campos dos Goytacazes, interior do Rio de Janeiro, foi a primeira cidade do País a receber um sistema de distribuição, em 1883. Rio Claro (SP) foi a segunda a contar com o sistema, em 1884; Porto Alegre (RS), em 1887; e Juiz de Fora (MG) foi eletrificado em 1889.

 

Era uma vez, as empresas

Na capital paulista, os poucos pontos de iluminação pública existentes no final do século XIX eram de responsabilidade da Empresa Paulista de Eletricidade, que foi organizada em 1886, mas iniciou suas atividades apenas em 5 de dezembro de 1888. Isto porque a população ainda temia que as lâmpadas pudessem trazer problemas à saúde e a empresa teve de enfrentar uma espécie de embate ideológico para conseguir implantar o serviço. Nesta época, o serviço de distribuição era aéreo e utilizava postes de madeira e transformadores que reduziam a tensão primária de 2 kV para 100 V.

Operários instalam câmara subterrâmea para transformador de distribuição na Ladeira de São João, em São Paulo (SP) em 10 de fevereiro de 1990

 

 

A empresa acabou não resistindo à demanda de grandes investimentos e foi incorporada à Companhia de Água e Luz de São Paulo – empresa de capital nacional e responsável pela distribuição de energia no Estado – pouco antes da Light desembarcar na capital paulista. Apesar da curta duração e da pouca abrangência – apenas áreas central e comercial – a investida mostrou que a cidade já necessitava de eletricidade para seu pleno desenvolvimento.

 

Para contar como o sistema de distribuição finalmente deslanchou é preciso ir até 1897, quando foi dada a concessão do serviço público de bondes elétricos para o capitão da marinha italiana e empresário residente no Canadá, Francesco Antonio Gualco, e para o comendador brasileiro, Antônio Augusto de Souza. Isso porque o início da operação dos bondes elétricos no Brasil esteve diretamente ligado à chegada de investimentos estrangeiros nos serviços de energia.

 

Da mesma maneira, ainda em 1897, o empresário e engenheiro americano Frederick Pearson também estava em São Paulo (SP) e notou a expansão urbana e a necessidade de transportes públicos elétricos. Voltou para os Estados Unidos decidido a conseguir recursos para idealizar e implantar um sistema capaz de atender a demanda existente por eletricidade. O engenheiro manteve negociações com os já detentores da concessão dos bondes de junho de 1887 a dezembro de 1888, levando à conquista de mais uma concessão, agora para gerar e distribuir energia elétrica. O presidente da Canadian Northern Railway, William Mackenzie também fazia parte do grupo de investidores. Nascia dessa organização a São Paulo Railway, Light and Power Company Limited, oficialmente instituída no dia 7 de abril de 1899, em Toronto, no Canadá, detentora do direito de gerar e distribuir eletricidade em São Paulo, além da responsabilidade pela iluminação pública. O investimento foi da ordem de US$ 6 milhões. A nova empresa, porém, teve seu nome modificado em dezembro do mesmo ano para The São Paulo Tramway Light and Power Company e, em 22 de junho de 1911, foi autorizada, pelo decreto 8.791, a funcionar no País.

 

É preciso dizer que a facilidade em obter essas concessões contou com a participação do genro do comendador Antônio Augusto, o Secretário da Justiça do Estado de São Paulo, Carlos de Campos, membro influente do Partido Republicano Paulista (PRP).

 

A Companhia Água e Luz do Estado de São Paulo, temendo perder seu direito de concessão, acionou a justiça, mas os influentes integrantes da Light saíram vencedores e dois anos depois incorporou a Companhia à empresa canadense, que já estava sob monopólio de investidores estrangeiros.

 

Em 1904, o canadense Alexander Mackenzie – um dos empresários da São Paulo Railway – obteve a concessão de funcionamento da Rio de Janeiro, Tramway, Light and Power Company Limited e logo monopolizou o fornecimento de energia fluminense, graças a pressões de diplomatas norte-americanos sobre autoridades brasileiras.

 

Com o rápido aumento da demanda por energia, a Light fundou a São Paulo Electric Company Limited, em 1911, e deu início à sua expansão para o interior do Estado. Conforme a empresa avançava em seus investimentos nos bondes, a iluminação pública e residencial era instalada ao longo dos trilhos. A consolidação desse serviço aconteceu na década de 1920.

 

Em 1927, a American & Foreign Power Co. (Amforp) deu início às suas atividades no País por meio da Empresas Elétricas Brasileiras S.A. (EEB), predominantemente no oeste do Estado de São Paulo. A Amforp adquiriu várias concessionárias brasileiras, como a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL) e a Companhia de Força e Luz de Minas Gerais (CCFLMG). Dessa forma, a Amforp, que pertencia ao grupo norte-americano Electric Bond and Share Corporation (Ebasco), logo se transformou no segundo maior grupo de energia elétrica do País, disputando espaço com a Light.

 

Na década de 1930, ficou evidente a monopolização dos serviços de energia pelo Grupo Light e American & Foreign Power Co. (Amforp), que detinham 80% das empresas de energia, situação que perdurou até 1960. Nesse período, o Grupo Light era formado por oito empresas que comportavam 48 municípios em sua área de concessão e o eixo Rio-São Paulo foi dominado pelo Grupo até a década de 1970, quando as empresas foram adquiridas pelo Estado.

 

Os sistemas de distribuição brasileiros não eram controlados apenas por essas duas empresas. Iniciativas menores também contavam com investimentos estrangeiros, como a Pará Electric Railways & Lighting Company Ltd, de capital inglês.

 

 

Tecnologias e equipamentos

Em 1901, foi inaugurada a primeira estação transformadora, chamada Paula Souza, que ficava próxima à área central da cidade de São Paulo, ao lado do rio Tamanduateí. A partir dela saíam linhas de luz e força com 2,2 kV, em tensões monofásicas e trifásicas, respectivamente. Durante o dia, quando a demanda por luz era baixa – as linhas operavam em paralelo para reduzir as perdas. Já durante a noite, elas eram separadas a fim de evitar flutuação da tensão, isto porque ainda não existiam reguladores automáticos de tensão.

 

Com o desenvolvimento econômico da cidade, muitas indústrias foram construídas distantes da estação Paula Souza, tornando necessária a implantação de novas estações. Por isso, em 1907, foram inauguradas as estações transformadoras da Lapa, com capacidade de 600 kW, e da Mooca, com 1,2 MW, que alimentavam as cargas locais em 2,2 kV.

 

Nessa época, os equipamentos usados eram todos importados e apenas em 1923 a fabricação  de fios e cabos foi iniciada no Brasil, por meio da Companhia Nacional de Artefatos.

 

Das primeiras redes até hoje, pode-se notar algumas mudanças nos materiais utilizados. Os condutores primários e secundários, que eram feitos de cobre, passaram a ser produzidos com alumínio em 1965, material mais leve e, por isso, mais adequado às redes aéreas.

 

Em relação à isolação, os condutores de sistemas de distribuição evoluíram da mesma forma que os condutores de instalações prediais, passando de isolação em papel impregnado com graxa ou óleo e guta percha para polietileno (PE), etileno-propileno (EPR) e polietileno reticulado (XLPE).

 

A forma de montagem também sofreu algumas modificações, como a substituição das cruzetas de madeira – usadas para a sustentação dos isoladores  – pelo neoprene em 1970, por ser mais leve e ocupar menos espaço. Essa substituição levou à evolução dos cabos, em 1978, para modelos pré-reunidos e autossustentados, com espaçadores, dispensando a cruzeta de madeira, atualmente conhecidos como sistema isolado de distribuição. Mesmo assim, ainda é possível encontrar cruzetas de madeira em sistemas de distribuição de áreas rurais.

 

Em relação aos isoladores, atualmente é possível encontrar equipamentos mais modernos, feitos de vidro temperado ou em material polimérico em diversos pontos da rede de distribuição, entretanto, os isoladores produzidos com cerâmica usados início da eletrificação ainda podem ser encontrados facilmente.

 

No início da eletrificação, os postes eram feitos de ferro, passando, em 1966, para postes de madeira tratada. Depois de alguns anos, a madeira utilizada ficou cara e foi preciso testar novos materiais. Assim surgiu o poste que conhecemos hoje, feito de concreto armado. “Como não tinha muito movimento de carro no início da eletrificação, era comum colocar postes no centro da rua”, relembra o ex-diretor de distribuição e ex-presidente da Cemig, José da Costa.

 

Papel para isolação de enrolamento de transformadores

 

No caso dos transformadores, suas dimensões foram reduzidas ao longo das décadas e seu desempenho foi melhorado com a compensação reativa para aumentar o fator de potência e controlar a tensão primária dos alimentadores, devido à instalação de capacitores estáticos nos circuitos primários, nos quais, em 1975, também passaram a ser instalados religadores automáticos.

 

Em 1967, a potência nominal dos transformadores de distribuição aumentou de 30 kVA para 50 kVA, 75 kVA, 125 kVA e outros valores, e a isolação a óleo (que vazava com o passar do tempo e tinha risco de explosão) foi substituída, em vários casos, a partir de 1979, por  equipamentos de classe 15 kV e 35 kV consituídos por transformadores secos.. A tolerância a sobrecargas desses equipamentos também aumentou ao longo do último século.

 

O uso de outro dispositivo, o pára-raios, em sistemas de distribuição tem mais de 60 anos. No início de sua aplicação, os dispositivos eram instalados somente nos postes das estações transformadoras, junto às saídas dos cabos subterrâneos das estações distribuidoras. Posteriormente, devido a alguns problemas de segurança, houve a instalação na saída e entrada dos circuitos.

 

Há cerca de 70 anos também foi incorporado o uso de capacitores nas redes, cuja finalidade era corrigir o fator de potência dos circuitos e, consequentemente, do sistema e melhorar a regulação da tensão.

 

A partir de 1974, o desenvolvimento das tecnologias também passou a permitir o trabalho de técnicos em linhas vivas (classe 15 kV), mantendo a segurança dos trabalhadores, e a promover interrupções programadas de fornecimento de energia.

 

A padronização dos equipamentos utilizados na distribuição ocorreu em 1982 pelas normas ABNT NBR 5433 e ABNT NBR 5434 (substituídas em 2009 pela ABNT NBR 15688) da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que estabelecia as alturas dos postes e a relação de materiais que compunham cada estrutura, dentre outras peculiaridades, tanto em redes rurais quanto urbanas. “Este padrão começou na Cemig e foi adotado por outras concessionárias ao longo dos anos até se tornar norma. Era uma adaptação dos sistemas do Canadá e dos Estados Unidos, mas ficou mais parecido com o americano”, conta José da Costa.

Recondicionamento de transformador em 1947

 

A evolução dos sistemas de distribuição também contou com o desenvolvimento da informática, que possibilitou o cálculo da demanda de grandes prédios em 1977, arquivo de dados da distribuição, cadastro e classificação dos consumidores primários.

 

É importante dizer que todos esses avanços aconteceram antes mesmo de as escolas de engenharia possuírem currículo para especialização em sistemas de potência, fato que só aconteceu em 1979.

 

O desenvolvimento da automação e da eletrônica nos últimos anos pode levar a futuras evoluções significativas nos sistemas de distribuição, como as possibilidades de diminuir ainda mais o tempo das interrupções de fornecimento e obter total comando à distância da central de controle da rede, entre outras. “Com a automação você não precisa de um funcionário em cada lugar. Na hora de fazer transferência de carga, é possível comandar por meio de um centro de operação”, afirma José da Costa.

 

“As concessionárias também estão se integrando com profissionais de outras áreas, como aqueles especializados em climatologia, o que vem facilitando a prevenção e a reposição da rede em caso de queda no fornecimento”, acrescenta o engenheiro eletricista, ex-presidente da Eletrobrás e ex-diretor da Cemig, Aloísio Vasconcelos.

 

Frequência e tensão

Quando o sistema de distribuição foi ampliado, um dos entraves foi a disparidade entre as tensões existentes. Em um mesmo estado ou cidade era possível encontrar até três tensões de distribuição e a diferença era ainda maior entre as federações. Em São Paulo, por exemplo, a maior parte da energia era distribuída em 11 kV, enquanto no Nordeste a mais comum era de 6,6 kV. Já Campinas (SP) e Juiz de Fora (MG) distribuíam energia em 23 kV.

 

Esse problema foi resolvido durante o governo de Juscelino Kubitschek, no final da década de 1950, quando a indústria começou a padronizar os equipamentos graças a uma das propostas do Plano de Eletrificação de 1954 e às concessionárias, como Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e Companhia Paranaense de Energia (Copel), que padronizaram sua tensão, levando à unificação das tensões.

 

A uniformização completa das tensões só aconteceu em 1978, quando as tensões primárias dos sistemas de distribuição aéreos passaram por diversas modificações desde sua criação. Inicialmente, a maior parte das tensões de distribuição era

2,2 kV, 3,8 kV, 11 kV e 13,2 kV, sendo que as tensões de 3,8 kV e 11 kV foram unificadas e se tornaram 13,8 kV.

 

Também foi definida a tensão de 34,5 kV, na qual grandes consumidores passaram a ser abastecidos a partir de 1979, sendo o primeiro deles o Shopping Ibirapuera, em São Paulo (SP).

 

As tensões secundárias também passaram por diversas modificações. Em sistema monofásico havia 110 V/220 V, 115 V/230 V e 127 V/254 V, e em sistema trifásico existiam 127 V/220 V, 220 V/380 V, 120 V/208 V, 125 V/216,5 V e 220 V/380 V. Com tantas tensões diferentes espalhadas pelo País, a população enfrentava sérios problemas com queima de lâmpadas e aparelhos. Foi assim até a década de 1980, quando as tensões secundárias foram padronizadas em monofásico 115/230 V, 127 V/254 V, 220/440 V e em trifásico 127/220 V e 220 V/380 V. “Porém, até hoje temos disparidades. Nas regiões Sudeste e Sul é 127 V e no Nordeste 220 V. Procurou-se padronizar totalmente, mas não foi possível porque o custo dessa modificação seria tão grande que não justificaria a troca”, afirma José da Costa.

 

Nas tensões de distribuição subterrânea também houve diversas modificações, passando por 2 kV e 3,8 kV até chegar às tensões atuais de 20 kV e 34,5 kV.

 

Outra padronização que contribuiu para a organização do setor foi a unificação de frequência em 60 Hz, ocorrida em novembro de 1964, graças a aprovação da Lei 4.454 sugerida pela Comissão para Unificação de Frequência (CUF). Desde 1961, a CUF havia sugerido a adoção desta frequência como padrão, que é a mesma utilizada nos Estados Unidos, pois havia distribuição tanto em 50 Hz como em 60 Hz no País.

 

 

Organização do setor

Em 31 de dezembro de 1903, foi aprovada pelo Congresso Nacional a primeira lei que organizava o uso de eletricidade no País. Quase um ano depois, em 27 de dezembro de 1904, um decreto definiu regras para contratos de concessão.

 

Na década de 1920, foi criada a Comissão Federal de Forças Hidráulicas, primeiro órgão direcionado à política setorial. Em julho de 1934, o Ministério da Agricultura promulgou o Código de Águas, que estabelecia que as concessionárias deveriam ser organizadas no País, excetuando as empresas estrangeiras que já estavam instaladas, na uma tentativa de evitar o aumento da monopolização do mercado.

 

No início do século XX as concessionárias agiam livremente, tanto que os preços para fornecimento de energia só foram fixados na década de 1930. Ainda buscando organizar o setor, em 1939 foi criado o Conselho Nacional de Águas e Energia Elétrica (CNAEE) que devia atuar em todos os assuntos pertinentes do setor de energia elétrica, incluindo as questões tributárias.

 

A ABCE foi criada em 1936 e coordenava as ações das empresas concessionárias de serviços públicos nas áreas de eletricidade, telefonia, gás, águas, esgotos e bondes elétricos. Contudo, diante da importância das indústrias de energia, a ABCE segmentou sua atuação para os serviços de eletricidade, em 1971.

 

Em 1943, o governo do Rio Grande do Sul criou a Comissão Estadual de Energia Elétrica (CEEE) que, além de sistematizar o aproveitamento elétrico do Estado, elaborou o Plano de Eletrificação do Estado em 1945, tornando-se o primeiro de âmbito estadual no País. Esse plano deveria promover o desenvolvimento do Estado mediante a elevação da oferta de eletricidade, aumentando também a participação do governo na distribuição. Em 1963, a Comissão tornou-se uma sociedade anônima estadual e mudou seu nome para Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE). No Nordeste, a responsabilidade de distribuir energia era da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf), que iniciou seus trabalhos em 1948.

 

Em uma tentativa de padronizar o sistema de distribuição, em maio de 1948 foi apresentado o Plano Salte, elaborado pelo Departamento Administrativo do Serviço Público (Dasp) que, dentre outras atribuições, estava a elaboração de um plano de eletrificação nacional. O documento foi aprovado dois anos depois pelo Congresso Nacional e instituído pela lei 1.102, mas em 1952 foi completamente abandonado sem ter sido implantado em nenhum local.

 

Até a metade do século XX, as iniciativas para ordenar o serviço de distribuição eram, na maior parte, locais e as tentativas de âmbito nacional eram frustradas. Assim, a responsabilidade das iniciativas de maior relevância para a organização do sistema elétrico ficou a cargo da Assessoria Econômica do Gabinete Civil da Presidência da República, constituída em fevereiro de 1951.

 

Este órgão propôs, em maio de 1953, a instituição do Fundo Federal da Eletrificação (FFE), que deveria ser organizado com os recursos do recolhimento do Imposto Único sobre Energia (IUE). O imposto, aprovado no ano seguinte, foi a primeira fonte de recursos de abrangência nacional e de cunho fiscal diretamente vinculada a investimentos no setor elétrico.

 

Uma nova proposta de um Plano Nacional de Eletrificação foi apresentada em abril de 1954 sob forma de projeto de lei, mas não foi aprovada pelo Poder Legislativo. Apesar disso, as propostas apresentadas no documento contribuíram para a expansão da indústria da eletricidade juntamente com a implementação da Centrais Elétricas Brasileiras (Eletrobrás), em junho 1962.

 

Outra iniciativa estadual que colaborou para o desenvolvimento da distribuição foi a elaboração do Plano de Eletrificação de Minas Gerais, em 1950, que levou à criação das Centrais Elétricas de Minas Gerais S. A. (Cemig), posteriormente chamada de Companhia Energética de Minas Gerais, mantendo a mesma sigla.

 

O ex-presidente Juscelino Kubitshek participa da ianuguração da Cemig, em 1950.

 

Já o Plano de Eletrificação de São Paulo foi desenvolvido – com iniciativa do governo estadual, mas previa contribuição do setor privado – apenas entre outubro de 1953 e maio de 1956. Entretanto, nesse período, o governo passou, gradativamente, a tomar as rédeas de alguns serviços e a participação de concessionárias privadas, com predominância de investimentos estrangeiros, reduziu de 82,4% para 55,2%.

 

A partir de 1964 o processo de nacionalização e estatização das concessionárias recebeu um reforço com a atuação da Eletrobrás, que passou a planejar o setor e definir programas de expansão do sistema, além de atuar como holding das concessionárias públicas.

 

A estatização mostrou-se necessária porque as empresas privadas não tinham mais o mesmo potencial de investimentos para atender as demandas do setor, cujo consumo em São Paulo e no Rio de Janeiro cresceu 250% entre 1930 e 1945. A grande elevação da demanda por energia é explicada pelas exigências cada vez maiores das indústrias e ao processo de urbanização acelerado que aconteceram graças à chegada dos sistemas de distribuição a diversas partes do Brasil.

 

O processo de estatização foi acelerado pela compra dos ativos do Grupo Amforp, em outubro de 1964, pelo governo federal. As empresas do grupo foram geridas pela Eletrobrás até 1968, quando foram incorporadas às concessionárias públicas estatais.

 

Já as concessionárias do Grupo Light foram adquiridas pelo governo em 1979, em negociação que deu origem à Light Serviços de Eletricidade S.A., atuante no Rio de Janeiro, e à Eletropaulo Eletricidade de São Paulo S.A., controlada pelo governo do Estado. Assim, o sistema de distribuição aos poucos deixou de ser controlado pelo governo federal e passou a pertencer às federações, dando o pontapé inicial para a constituição de diversas concessionárias, cujos domínios geralmente eram os limites estaduais. Atualmente, cerca de 80% das empresas de distribuição é privada.

 

A primeira organização voltada somente para o segmento de distribuição foi o Comitê de Distribuição (CODI), fundado em 1976. Em 1994, surgiu a Associação das Empresas do CODI, que deu origem à Associação Brasileira dos Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) em 1995, principal representante do setor na atualidade.

 

 

Sistemas subterrâneos

Quando a Light se instalou na capital paulista, a Companhia de Água e Luz de São Paulo já havia construído sua rede de distribuição aérea na parte central da cidade. Com a falta de espaço, a Light teve de desenvolver sistemas subterrâneos, que perduram até hoje.

 

Operários abrem galerias para a construção de redes subterrâneas na Rua São Paulo, em 1929.

 

 

O ano era 1902 e foram construídas três câmaras transformadoras alimentadas por circuitos primários radiais sob tensão de 2,2 kV, mesma tensão das redes aéreas da época. Em 1926, o sistema já havia evoluído para 19 câmaras transformadoras que passaram a ser alimentadas na tensão de 3,8 kV.

 

Em 1931, existiam 41 câmaras com capacidade total de 12.300 kVA e, em 1951, o sistema havia evoluído para 40 mil kVA, quando a tensão gradativamente foi alterada para 20 kV. Essa tensão não foi escolhida aleatoriamente, a ideia era aproveitar os cabos de subtransmissão que ligavam as estações transformadoras de distribuição de Paula Souza e Helvécia.

 

De acordo com o engenheiro eletricista e especialista em redes subterrâneas, Claudio Gillet, todos esses sistemas eram do tipo reticulado, semelhantes ao “Underground Network Distribution Systems” (usado em grandes cidades americanas e europeias) e foram aplicados em outras cidades paulistas e também no Rio de Janeiro. Os sistemas serviram de base para instalações em outras localidades.

 

Nos últimos anos, as ligações subterrâneas voltaram à cena, principalmente devido a preocupações ambientais. “Até o início dos anos 1990 ninguém ligava para o ambiente, simplesmente arrancavam as árvores para a passagem das redes aéreas. Com o desenvolvimento da educação e da consciência sobre o meio ambiente, começou-se a buscar a compatibilização da extensão das redes e a poda das árvores”, explica Aluízio Vasconcelos.

 

A preservação estética de locais com patrimônios históricos também tem interferido na opção pelas redes subterrâneas, apesar de seu custo elevado, que pode chegar até três vezes mais caro que as redes aéreas.

 

José da Costa explica que, apesar do custo, este é o tipo ideal de sistema de distribuição para locais com grande concentração de pessoas e carros por ser mais segura. Além de não correr o risco de ser afetada por descargas atmosféricas, pipas e batidas, suas ligações são feitas em duplicidade, aumentando sua confiabilidade. A desvantagem é que, quando há problemas, é mais difícil de ser localizado. “No sistema reticulado os circuitos são alimentados de forma que, se houver apenas um curto, o consumidor sequer percebe”, afirma.

 


 

Pesquisa

 

• Acervo pessoal do engenheiro eletricista e ex-funcionário da Light, Claudio Gillet Soares

• Energia elétrica no Brasil: breve histórico 1880-2001 – Centro da Memória da Eletricidade no Brasil

• Memória Energia nº 28/2001 – Fundação patrimônio Histórico da Energia de São Paulo

• Energia: da Light à Eletropaulo – Desenvolvimento e curto-circuito no trabalho – Marcos Lenso de Souza – Editora Letras a Margem

• A cidade da Light: 1899 – 1930 Volume 1 – Eletropaulo S.A.

• História da Light: Primeiros 50 anos 2ª edição – Edgard de Souza – Eletropaulo S.A.

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