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Revista O Setor Elétrico


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Nossos consumidores não são alienados!

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Edição 67 - Agosto de 2011
Por Luis Fernando Arruda

Nas últimas duas edições visitamos os conteúdos das resoluções publicadas pelo antigo DNAEE e, mais recentemente, pela Aneel, enfatizando o ritmo das providências tomadas para o combate às perdas não técnicas de energia nos últimos 25 anos. A análise histórica mostrou que, por meio das edições das resoluções que regulamentaram o setor elétrico, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) tem reduzido os períodos de cobranças de irregularidades, o valor do custo administrativo e pouco tem feito para auxiliar na recuperação dos prejuízos causados por falhas em equipamentos de medição.

Nossas conclusões indicam um cenário propício a um aumento das perdas não técnicas nos próximos anos por acreditarmos que os consumidores desonestos e até mesmo aqueles que evitam qualquer tipo de ilegalidade poderiam aproveitar o protecionismo da área reguladora para economizar com os custos da energia elétrica. Mas, afinal, esse sentimento de um futuro complicado teria algum fundamento? Qual a visão dos consumidores a respeito de manipulação de equipamentos de medição, “gatos” ou furto de energia?

Foi procurando respostas acadêmicas para esses questionamentos que se promoveu uma pesquisa que abrangeu oito grupos de focos com o objetivo de identificar o conhecimento dos consumidores de energia sobre esse alguns assuntos.  

O conceito de “Grupo de foco” (focus group) teve origem na sociologia. Hoje, é amplamente utilizado na área de marketing e também tem crescido em popularidade em outros campos de ação, como recursos humanos, estratégia empresarial ou desenvolvimento de equipes. Trata-se de uma entrevista realizada por um moderador bem treinado de uma forma não estruturada e natural, com um pequeno grupo de pessoas visando a descobrir possíveis ideias ou soluções para um problema de marketing por meio da discussão do tema. Os grupos precisam ser pequenos o suficiente para que todos tenham oportunidade de partilhar suas percepções e grande o suficiente para promover diversidade de opiniões. Pesquisadores do assunto dizem que o tamanho ideal dos grupos seria de 8 a 12 entrevistados. Estas reuniões geralmente são filmadas ou fotografadas e podem ser observadas através de um vidro que permite ver, sem ser visto - conhecido como one-way mirror, que nada mais é do que um espelho unidirecional. Geralmente, os conteúdos das entrevistas são transcritos na íntegra para melhor analisar o seu conteúdo.

Os oito grupos de focos realizados envolveram 74 entrevistados, sendo 42 do sexo feminino, gerando uma média de 9,25 por grupo.  Constataram-se, pela análise do conteúdo, que os participantes moravam em pelo menos 25 bairros diferentes da capital e cidades vizinhas, como também que exerciam 23 tipos de profissionais diferentes, tais como: advogado, professor, gari, psicólogo, diaristas, servidor do tribunal de justiça, engenheiro civil, policial, enfermeiro e doméstica. 16% dos membros se declararam aposentados e 8% estudantes. Essas características sinalizam que a pesquisa atendeu às expectativas quanto ao tamanho dos grupos e à diversificação.

Todo o material coletado, totalizando quase mil horas de gravação, mostrou-se rico de depoimentos relevantes para a compreensão da visão do consumidor de energia sobre assuntos como economia, política pública, ética, o “jeitinho brasileiro” de resolver as coisas, além do assunto de nosso interesse, que são os procedimentos irregulares. Como temos pouco espaço para apresentação dos dados, incluímos, a seguir, alguns depoimentos para que o leitor de alguma forma participe da análise desse conteúdo.

“Dinheiro da água, da luz e internet são sagrados. Talvez seria mais fácil de enrolar uma conta de supermercado, comprar com cheque pré-datado do que deixar de pagar água, luz e telefone. Isto eu não deixaria de pagar em hipótese alguma” (Adimplente A/B – GF)

 

“Primeiro que a conta de luz é altíssima. Se eu pudesse fazer um gato, eu faria também” (Fraudador – GF)


“Eu acho que hoje em dia você está tão calejada, você desconfia de tudo” (Inadimplente A - GF)

“Acho errado, é crime, mas eu não critico, nem julgo. TV a cabo é luxo e a pessoa tinha que ser punida. Água e Luz eu sou contra, mas não julgo, pois no Brasil a situação é muito ruim” (Fraudador residencial – EP)

“Tem cada leãozão assim que você passa, você tem fio de luz assim... Uns ‘gatão’ da água... Existe até dentro de supermercado” (Adimplentes E – GF)

“Os gatos existem porque você não tem condições de pagar a luz” (Fraudador C – GF)


“Se o Lula comprou DVD falsificado, porque não posso comprar o CD falsificado?” (Adimplentes A/B – GF)

“E eles fazem tão perfeito que nem a ... descobre. A gente vai lá, fica sabendo, passa... Porque é assim, o que é bom para você, você vai passando ....Olha, eu conheço um bom, que fez lá no ..Esse é bom, fez dentro do supermercado. Traz para cá” (Adimplente E – GF)

 “A energia é muito cara, fora do contexto. Nós mantemos uma multinacional, o pobre paga essa dívida” (Fraudador residencial – EP)

“É para levar vantagem, porque a firma é rica e para economizar o dinheiro para outras coisas.“ (Fraudador residencial – EP)

“Tem que abaixar o valor. Eles estão roubando muito” (Fraudador rural – EP)


“Acho que não tem nada que poderia fazer porque tem gente dentro da própria empresa que faz” (Fraudador comercial –EP)

“O custo que a gente paga da energia alta é porque ela está dividindo estes gato” (Adimplente A/B – GF)

Os grupos foram separados pelas classes sociais, considerando as variáveis “inadimplência” e se já foi um fraudador. Em todos os grupos, os consumidores informaram que as fraudes são feitas pelos próprios empregados das concessionárias, provavelmente, os terceirizados. As pessoas mostraram que conhecem as regras para faturamento de energia, apresentando críticas sobre cobranças de impostos e taxa de iluminação pública. Também foram comuns as informações sobre como executar uma irregularidade e sair ganhando no final, seja por acreditar que não seriam descobertos ou por pagar menos que deveria pagar no final ou por tratar de imóveis de aluguel ou pelas concessionárias não conseguirem atuar com agilidade. Em regras gerais, as pessoas se mostraram “surfando a onda”, alguns se mantendo íntegros e corretos e outros aproveitando do momento para lucrar um pouco.

Nossa conclusão foi que o cenário atual é bastante desfavorável para uma atuação consistente para diminuição das perdas não técnicas. Temos uma legislação cada vez mais rigorosa para efetivação de uma cobrança de irregularidade, nossos equipamentos de medição estão sendo substituídos por eletrônicos, exigindo mudanças de procedimentos nos serviços de campo e poucas concessionárias possuem uma gestão de selos eficiente, que garantiria uma proteção a mais para o faturamento. Por fim, nossos consumidores, independentemente da classe social, estão muito bem informados com relação às possibilidades e vantagens de fazer uma irregularidade para pagar menos. Resta-nos apenas discutir tais assuntos considerando todo o contexto envolvido e buscar união de forças para garantir que o certo e justo prevaleça para o bem de todos.

São co-autores desta coluna os profissionais:

Cid Gonçalves Filho –
engenheiro eletricista, mestre em Ciência da Informação, doutor em Administração e pós-doutor pelo Massachusetts Institute of Technology, coordenador e professor dos cursos de mestrado e doutorado da Universidade FUMEC de Minas Gerais.

Eduardo Anderson Ramos – administrador de empresas, mestrando em Administração e Marketing pela Universidade FUMEC de Minas Gerais e pós-graduado em gestão de pessoas com ênfase em estratégia pela FGV.

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