Edição 76 / Maio de 2012
Por Hilton Moreno
A evolução das sociedades em busca do desenvolvimento sustentável somente é possível se revisarmos conceitos e chavearmos a mente em relação à forma como enxergamos o mundo. No caso da área elétrica, não é diferente, como veremos a seguir. Teremos que mudar nossa “cabeça de caneta” para “cabeça de automóvel”, se quisermos que o setor elétrico colabore ativamente com a sustentabilidade.
Exceto se a pessoa é colecionadora de canetas, tudo o que ela espera de uma caneta é que ela escreva legivelmente, não falhe, dure um bom tempo e tenha um custo adequado, geralmente o menor possível. Em outras palavras, busca-se a melhor relação entre o custo inicial da caneta e o benefício de utilizá-la da melhor maneira possível. Não se espera nada além disso.
Quando ainda se deseja realizar a comunicação por escrito, podemos trocar de “mídia” e, ao invés da caneta, usaremos uma impressora. Neste caso, já é preciso chavear a forma de encarar essa aquisição. O custo inicial da impressora é sempre muito importante (até porque quase ninguém gosta de rasgar dinheiro!). No entanto, mais importante do que esse custo inicial é o custo operacional da impressora, representado pela substituição dos cartuchos ao longo da sua vida útil.
A conta é muito simples e óbvia: é mais vantajoso comprar uma impressora “A” de custo inicial $ 500, cujo cartucho custa $ 50 do que comprar uma impressora “B” de custo inicial $ 200, cujo cartucho custa $ 80. Ao longo de dois anos, por exemplo, se forem trocados 24 cartuchos, descontando o efeito da inflação e considerando que ambos os cartuchos durem o mesmo tempo, teria havido um custo operacional da impressora “A” de $ 1.200 versus $ 1.920 da impressora “B”. Note que o custo operacional da impressora “A” é 2,4 vezes o valor do custo inicial, enquanto que, para a impressora “B” essa relação é de 9,6 vezes! Além disso, somando-se os custos inicial e operacional, a impressora “A” teria um custo total de $ 1.700, enquanto que a impressora “B” custaria $ 2.120, 25% a mais do que o outro modelo.
Em resumo, durante o processo de decisão de aquisição de alguns tipos de bens, deve-se olhar a questão pelos lados dos custos inicial e operacional, que, em diversos casos, é muito maior do que o inicial, como foi demonstrado no exemplo anterior.
É muito importante ressaltar que a história não termina por aí e, pelo contrário, está longe de seu final. Vamos analisar agora a decisão de compra de um terceiro tipo de bem: um automóvel.
Sem dúvida, é preciso considerar o custo inicial de um automóvel. Não se deve esquecer também os custos operacionais (inclusos aqui os custos de manutenção), representados pelo licenciamento anual, seguro, troca de óleo e pneus, combustível, multas, lavagens, serviços mecânicos em geral, dentre tantos outros gastos que todos aqueles que têm um automóvel conhecem muito bem. No entanto, no caso dos automóveis, há um terceiro custo muito importante, mas igualmente muito esquecido pelos compradores: o custo ambiental.
Quantos quilos (ou toneladas) de dióxido de carbono (CO2) são emitidos na atmosfera num certo período por aquele veículo que será adquirido? Entre dois ou três modelos de automóveis que tenham aproximadamente os mesmos custos iniciais e operacionais, a escolha consciente que leva em conta a preservação do meio ambiente deve ser pelo modelo que emita menos quantidade de CO2. Um veículo de passeio movido à gasolina, que roda 1.000 km por mês, emite uma quantidade equivalente de CO2 igual a 2,9 toneladas por ano, o que implica o plantio de 12 árvores para compensar essas emissões. Para esse e outros cálculos muito interessantes de emissão de CO2, consulte http://keyassociados.com.br/calculadora-de-emissao-co2-carbono.php.
Conclusão: a aquisição de alguns tipos de bens, tais como os automóveis, requer que sejam considerados com a mesma importância três custos: inicial, operacional e ambiental.
A pergunta chave desde artigo é simples: como é que a maioria das pessoas pensa as instalações elétricas no momento de sua especificação/aquisição: como caneta, impressora ou automóvel?
Tenho feito esta mesma pergunta em diversas ocasiões para grupos de profissionais e, com raras exceções, a resposta é sempre a mesma: as instalações elétricas são vistas como canetas! Isso implica que o mais importante, e às vezes o único critério, para selecionar e comprar instalações elétricas é o seu custo inicial. A péssima notícia é que as instalações elétricas são “automóveis” e não “canetas”. Elas têm custos iniciais, custos operacionais e custos ambientais.
Já tratamos sobre os aspectos ambientais em outras ocasiões nesta coluna e, em resumo, a toda perda joule numa instalação ou rede elétrica existe uma correspondente emissão de CO2 na atmosfera. A própria perda joule representa uma parte considerável do custo operacional da rede, ao qual devem ser somados os custos de manutenção ao longo da vida útil da instalação.
Já passou da hora de incluirmos nos critérios de dimensionamento das instalações elétricas os aspectos de eficiência energética e sustentabilidade. Por “instalações elétricas”, entendam-se todas as redes, sejam de transmissão, distribuição, uso final, automação, controle, etc. Cada uma delas, um pouco mais ou um pouco menos, tem impactos na eficiência energética e no meio ambiente.
É urgente pensarmos nas instalações elétricas com a “cabeça de automóvel” e não mais com a ultrapassada “cabeça de caneta”. Até quando isso vai acontecer? Só depende de cada um de nós. Mãos à obra!
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Comentários
fico feliz por levantar a questão da valorização do formação do eletricista no Brasil, sou a 2ª geração de eletricista na familia e, meu pai é um apaixonado pela profissão, quando pela primeira vez assisti um video sobre como um eletricista tem seu valor nos EUA, muitas vezes fui discriminado e até perdi emprego por buscar trabalhar de maneira correta e com segurança no setor de elétrica, essa sua matéria e um despertar para abrir discussões nas equipes de elétricas e salas de aula.
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