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Revista O Setor Elétrico


Atitude Editorial

 

 

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Instalação provisória ou definitiva enquanto puder?

Edição 92 - Setembro de 2013
Casos e causos
Por Nunziante Graziano*

Lendo os jornais, principalmente, os cadernos de imóveis em lançamento comercial, vemos que os novos empreendimentos estão sendo concebidos com um nível de automatismo e controle nunca antes imaginado pelos pobres mortais – iluminação comandada por smartphones, controle de demanda, eletrodomésticos com acesso à internet, tais como banheiras que podem ser programadas para preparar um banho pelo tablet ou geladeiras que avisam, por e-mail, que o suco de uva acabou! São as benesses da vida moderna.

Entretanto, na outra face dessa moeda, ainda encontramos as instalações provisórias, que são aquelas feitas para operarem por tempo determinado durante uma reforma, por exemplo, em instalações existentes. Ocorre que nossa cultura ainda permite que o temporário ou provisório perdure o quanto a “gambiarra” suportar. Assim sendo, temos muitas instalações em funcionamento que enriquecem as páginas do “What's Wrong here?”, seção comandada pelo Prof. Hilton Moreno nesta publicação.

Baseando-se na legislação trabalhista, mais especificamente, na norma regulamentadora do Ministério do Trabalho e Emprego, a popular NR 10, instalações industriais e comerciais de grande porte têm sido aprimoradas, motivadas pelo risco das ações trabalhistas que se avolumam nos fóruns de todo o País, e, principalmente, pelo risco de acidentes fatais arrolarem os responsáveis pelas instalações em ações cíveis e criminais.

Em minhas andanças, tenho encontrado muitas oportunidades de melhoria nas instalações elétricas, mas algumas são realmente absurdos tecnológicos, que representam risco iminente de incêndio ou de eletrocussão. Relato aqui, três experiências que vale a pena descrever.

Em uma instalação em uma empresa de serviços, encontrei uma situação bastante simples, mas com resultado bastante problemático. Na foto a seguir, vemos uma ação deliberada bastante simples e corriqueira, quando a necessidade de se realizar a ligação elétrica de um novo ventilador na sala do gerente sujeitou o “eletricista” a utilizar a janela como passagem do cabo do eletroduto, que estava na fachada do prédio, até a sala do gerente. 


Figura 1 – Situação 1: uso da janela para passagem de cabos.

Entretanto, num certo dia, foi necessário fechar a janela. Como a esquadria é de alumínio, por falta de sorte, a esquadria perfurou a isolação do cabo e o pobre rapaz foi eletrocutado. Resultado: ação trabalhista e R$ 10.000,00 de indenização ao funcionário. Repare que, mesmo sete meses após este acidente, estive no mesmo local e a ação corretiva para impedir que o acidente ocorra outra vez foi a colocação do guarda-chuva, que impede o esmagamento do cabo. Repare ainda que foi acrescentado um ponto de rede lan, utilizando a mesma “tecnologia de instalação” da anterior. Lamentável, não é?

A segunda situação é tão estranha quanto a anterior. Na necessidade de se produzir acima da capacidade atual da fábrica de telas de arame, utilizou-se uma área, antes inutilizada, como novo setor de enrolamento das telas finalizadas e de embalagem final.

Entretanto, como se pode ver na Figura 2, era possível instalar, com um pouco mais de capricho e respeito às leis e normas vigentes, tanto técnicas como de ergonomia e de saúde ocupacional, na instalação da iluminação da nova área produtiva.

Ocorre que não foi assim que essa empresa pensou e uma denúncia ao Ministério do Trabalho e Emprego trouxe à luz essa situação.


Figura 2 – Improvisação de uma área produtiva.

Analisando a figura, é possível constatar inúmeros atentados à saúde dos trabalhadores, tais como: falta de ventilação, umidade excessiva, acessibilidade comprometida, entre outros. Mas como o nosso objetivo aqui é avaliar as instalações elétricas, passemos a esta análise: iluminação precária que nem de longe alcança os níveis mínimos de iluminamento do plano de trabalho do operário; acondicionamento dos condutores em total desacordo com a ABNT NBR 5410; falta de proteção termomagnética dos condutores; e, finalmente, como o piso está constantemente molhado e os cabos estão soltos no piso, ocorria a ruptura do dielétrico dos condutores, tornando todo o piso eletrificado, o que submetia os trabalhadores a risco elétrico de eletrocussão iminente. E como acidentes sempre acontecem, ao tocar o “suporte da luminária” da foto para desligar a lâmpada, dois trabalhadores foram eletrocutados, mas por sorte, sobreviveram para relatar o ocorrido e efetuar a denúncia ao Ministério do Trabalho e Emprego.

A terceira e última situação é de uma empresa de separação e encaminhamento de sucatas para reciclagem, em que uma prensa de baixa capacidade localizada em meio ao material a ser separado tornou-se um grande problema para 14 trabalhadores.

Em uma área coberta de aproximadamente 1000 m², uma grande quantidade de materiais metálicos estava empilhada aguardando separação manual. Em meio a este mundo de materiais condutores elétricos, havia uma pequena prensa com a finalidade de compactar peças de mesmo material para que, em fardos de meio metro cúbico, fossem transportados a uma fundição onde finalmente serão reciclados. Por ser o galpão alugado, alegava o gerente operacional da empresa, que as instalações elétricas destinadas ao processo de reciclagem eram, de fato, provisórias ou temporárias. Até aí, nenhum problema, se não fosse essa prensa impulsionada por um motor elétrico e os cabos alimentadores dessa prensa passarem sem nenhuma proteção mecânica (tipo eletroduto, eletrocalha, capa, canaleta ou outra forma de montagem conforme recomenda a ABNT NBR 5410) no meio daquela montanha de metais.

Imagine o risco que corriam aqueles 14 trabalhadores realizando a separação manual naquele ferro-velho com cabos elétricos energizados jogados entre eles, escondidos e só aguardando um leve corte na capa isolante de um dos condutores para energizar mais de 70 toneladas de metais.

Risco iminente! E como já dito antes, acidentes acontecem. Neste caso, tamanha negligência só poderia resultar em acidente. Dos 14 trabalhadores, 11 foram eletrocutados. Um deles que retornava do banheiro e encontrou seus companheiros de trabalho sob eletrocussão, teve a inspiração divina de desligar o disjuntor geral do galpão, salvando a vida de todos após 15 segundos sob os efeitos da eletricidade em seus corpos.

Até quando vamos ter que rezar para evitar acidentes fatais por tanta negligência?

Façamos aqui as devidas ressalvas ao idioma português. Retomando o assunto que nos motiva a escrever este artigo sobre instalação provisória ou temporária, trata-se de instalação elétrica que será desmontada antes de sua vida útil ser alcançada. Não significa em hipótese alguma instalação feita pela metade.

Entendamos de uma vez que as instalações provisórias devem ser realizadas seguindo as mesmas normas e a boa técnica das instalações definitivas, incluindo materiais com certificação e métodos de instalação e acondicionamento de condutores e proteção termomagnética e diferencial.

Devemos considerar, por exemplo, um canteiro de obras. Nas edificações temporárias de escritórios, banheiros e almoxarifados, muitas vezes, encontramos construções realizadas em madeira. Assim sendo, por se tratar de material combustível, as instalações elétricas devem ser de alta qualidade, sob pena de incêndio. A utilização, portanto, de materiais de procedência duvidosa e de técnicas de montagem em desacordo com as normas técnicas vigentes é um risco que não compensa. Não há desculpa que se apresente para explicar montagens “alternativas”.

Temos que nos conscientizar que a preservação da vida é uma atitude indiscutível e qualquer que seja o custo para defendê-la deve ser pago. Analisando o custo, se este é proibitivo, é porque a atividade econômica não é viável, e não é suprimindo a segurança laboral que se viabiliza economicamente um produto ou serviço. Se é possível acessar pela internet as câmeras de controle territorial e vigilância de qualquer lugar, temos que utilizar as tecnologias disponíveis para aprimorar as atividades laborais dos nossos trabalhadores e protegê-los dos riscos da eletricidade para dela usufruir.


 

*Nunziante Graziano é engenheiro eletricista, mestre em Energia pelo Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (IEE/USP), pós-graduado em Política e Estratégia da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra ADESG-SP. É membro da ABNT/CB-3/CE:03:17.03 – Conjunto de Manobra e Controle em Invólucro Metálico para tensões acima de 1 kV até e, inclusive, 36,2 kV; e membro do conselho diretor do IEE/USP. Atualmente, é diretor de engenharia da Indústria, Montagem e Instalações Gimi Ltda.

 

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Comentários  

 
+2 #1 A regra e não a excessãoWiliam 2013-11-23 19:54
Infelizmente, instalações deste tipo são a regra em muito lugares! Uma fiscalização mais séria poderia coibir esse tipo de situação! E muitos acidentes ainda aconterão! Lamentável!
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