Uma história fictícia (mas nem tanto…)

nov, 2010

Ed.56 – Setembro de 2010

Por Dácio de Miranda Jordão

Apresentamos a seguir uma história fictícia, mas formada por partes que foram recolhidas de situações verdadeiras. Essas partes ocorreram isoladamente e, por isso, a tragédia não foi tão grande, mas se elas acontecessem de forma sequencial, o resultado poderia ser conforme descrito a seguir.

Numa indústria química que processava produtos inflamáveis, certa vez ocorreu uma violenta explosão causada por um equipamento elétrico. Lamentavelmente houve mortes, além de prejuízos materiais de grandes proporções. Com o objetivo de apurar as causas do acidente, foi formada uma comissão de investigação que tinha a função de, após a análise, propor medidas que pudessem garantir que acidentes como aquele não voltassem a acontecer.

Essa comissão iniciou seus trabalhos e, decorrido o prazo estipulado, apresentou suas conclusões, que podem ser resumidas conforme a seguir.

A explosão aconteceu a partir de uma tomada elétrica para alimentação de máquinas de solda. Essa tomada era metálica, do tipo à prova de explosão, tensão de 480 V, fabricada por uma empresa chamada TÔNEMAÍ. A comissão observou que essas tomadas não tinham certificado de conformidade e sua aparência não era das melhores, bem como ficou claro também que os materiais empregados em sua fabricação eram de qualidade duvidosa.

Na descrição do acidente, o relatório mencionava que o operador necessitava utilizar uma máquina de solda e, ao inserir o plugue na tomada, esta veio a explodir. Como se tratava de uma área classificada e havia gás no ambiente, a explosão se propagou para o meio externo e causou toda aquela tragédia. A análise mostrou que o início da explosão foi causado por um curto-circuito interno. Esse curto-circuito foi o resultado de uma deterioração do isolamento interno em virtude de haver acontecido penetração de muita umidade e agentes corrosivos que eram de presença frequente no ambiente daquela indústria. A penetração de umidade, por sua vez, foi facilitada pelo fato de que a tampa com mola que deveria proteger os contatos da tomada não existia mais; havia caído por corrosão. Aquela tomada estava sem a proteção já há alguns meses. Em uma inspeção em outras tomadas instaladas na indústria, do mesmo fabricante, a comissão verificou que todas elas apresentavam o mesmo problema, com risco de haver novas explosões semelhantes, pois todas estavam também sem a tampa de proteção dos contatos,  com sinais visíveis de corrosão e comprometimento do isolamento interno.

Na verificação dos procedimentos de compra de equipamentos elétricos para atmosferas explosivas usados internamente pela empresa, foi demonstrado também que havia exigência de que todos os equipamentos elétricos ou eletrônicos para uso em áreas classificadas somente poderiam ser adquiridos com o respectivo certificado de conformidade. O relatório apontava então uma falha no atendimento a esse requisito.

Essa falha colocava a empresa em um estado de ilegalidade, com possibilidades de ter consequências desastrosas, pois se tratava de não atendimento à legislação.

Para isso foi aberta uma investigação interna para apurar a responsabilidade pela aquisição desses equipamentos.

O resultado dessa investigação apontava para uma pessoa com posição gerencial, mas que já era conhecido como alguém que não tinha nenhum compromisso com a segurança. Evidências demonstraram que, por diversas vezes, havia desrespeitado procedimentos de segurança, exigindo de seus subordinados a execução de tarefas de elevado risco sem as devidas salvaguardas.

Ficou comprovado que o fabricante das tomadas era um elemento corruptor e o responsável pela aquisição dos produtos era o elemento corrupto. E esse elemento era nada mais nada menos do que aquele que foi apontado como responsável pelas aquisições das tomadas durante a investigação interna.

O saldo desse acidente foi extremamente negativo, pois, além dos processos judiciais, de responsabilidade civil e penal, a empresa teve de arcar com vultosas indenizações e com o peso insuportável de ter sua imagem completamente destruída.

O tempo passou e, quando tudo parecia retornar ao normal, com a empresa tentando superar o abalo moral e financeiro sofridos com o acidente, eis que o INSS entra com uma ação regressiva contra a empresa, para se ressarcir do montante desembolsado para o pagamento de pensões e indenizações por morte aos familiares dos acidentados. O INSS alegou, com justa razão, que houve negligência da empresa no cumprimento dos requisitos de segurança e que essa negligência foi a causa do acidente.

Este foi então o golpe final, que fez essa empresa ter de fechar suas portas e encerrar suas atividades.

Embora essa história seja fictícia, ela pode representar uma realidade algumas vezes encontrada em muitas empresas por aí. É de fundamental importância que as gerências sejam alinhadas com a segurança, pois, se assim não for, o risco de acontecer o naufrágio dessas empresas é muito grande.

Pode-se dizer que:

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