Tentando entender o que pode ser “smart grid” no Brasil

ago, 2016

Este assunto é, de fato, fundamental para quem se ocupa com atividades ligadas ao sistema elétrico, seja na geração, seja na transmissão, seja na distribuição.

Na verdade, trata-se de um conjunto de ações de digitalização ou automação de processos, hoje ainda executados como 100 anos atrás, conferindo à operação das redes e do sistema elétrico como um todo mais inteligência! Mas o que devemos digitalizar?

A resposta pode ser: o que for possível e necessário e o que resultar em benefícios para os concessionários de serviços públicos (mais qualidade e segurança e menores custos operacionais), para os clientes e para o meio ambiente (mais qualidade e segurança e tarifas dinâmicas – não opcionais e multi-horário – que permitam reduzir custo final do uso da energia elétrica mediante mudança de hábito de consumo). Também para o que gerar benefícios para quem investe (retorno seguro e adequado do capital investido, considerando que se trata aqui de investimentos de médio e longo prazo). Ainda vale dizer que qualquer implementação pode ser em etapas de complexidade crescente, adicionando funcionalidades.

Assim, ao planejar a implementação de “smart grid” aqui no Brasil podemos detalhar alguns pontos básicos.

O primeiro e fundamental é o que se refere ao ambiente regulatório. Sem que este seja seguro e indique o caminho da inovação, nada pode nem deve ser feito. Políticas públicas estabelecendo parâmetros, metas, fontes de financiamento e critérios de fiscalização e do que será considerado investimento prudente precedem qualquer ação na área.

Como se sabe, não se pode esperar altruísmo de concessionárias investindo em novas tecnologias sem qualquer segurança regulatória e ainda mais considerando as agruras pelas quais as distribuidoras, por exemplo, passam atualmente com excesso de energia contratada, com custos dos terceirizados fora de controle, com perdas (inclusive, na rede básica) e inadimplência em elevação.

Quem fez isto já viu que jogou dinheiro fora. Experiências pontuais mostraram que, no Brasil, nem sempre há como obter retorno do capital investido em taxa superior ao custo de capital e isto é fatal, talvez pelo alto custo do equipamentos e dispositivos comprados a partir de uma especificação técnica inadequada.

Sabemos que somente o estabelecimento de políticas publicas claras e confiáveis vai mudar este cenário.

Os demais pontos, também fundamentais e de igual complexidade e importância – mas dependentes do êxito do primeiro – são a tecnologia (hardware e software) a ser aplicada e o posicionamento da concessionária face aos novos procedimentos. Igualmente importantes são a implementação no “campo” dos novos equipamentos e dispositivos (atendendo ao nível requerido e especificado de forma clara de qualidade e desempenho operacional), que passa pela baixa confiabilidade dos sistemas de comunicação no Brasil, e a inclusão efetiva dos clientes nos procedimentos resultantes do novo patamar tecnológico.

Estima-se que um projeto completo de rede inteligente no Brasil, somente na indústria da distribuição, pode demandar investimentos da ordem de R$ 110 bilhões (em um tempo não inferior a dez anos), dependendo, é claro, do nível de automatismo e também da profundidade da intervenção nas redes de distribuição em áreas de perdas não técnicas superiores a 25%.

Estes outros quatro pontos merecem, assim como a questão do ambiente regulatório, uma discussão mais aprofundada de forma que se veja a questão da forma abrangente e complexa que ela de fato é.

É o que pretendemos fazer nas próximas abordagens do tema.

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