Sob fortes ventos

jun, 2009

Edição 50, Março de 2010

Por Lívia Cunha

Referência em fontes de energia renováveis, o Brasil é cotado como uma possível potência de energia eólica, apesar das divergências entre profissionais e estudiosos

Quando Jorge Ben Jor canta que o Brasil é um “país abençoado por Deus e bonito por natureza” ninguém duvida. Afinal, com uma extensa costa, florestas, mangues, chapadas, serras e uma diversidade geográfica admirada nos quatro cantos do mundo, não há muito do que reclamar no quesito “beleza natural”. Essa composição territorial ao mesmo tempo vasta e diversa nos coloca em posição privilegiada em relação a outros países quando o assunto é, por exemplo, a disponibilidade de recursos para a busca de alternativas renováveis para um desenvolvimento sustentável.

Exatamente por isso, quando o assunto é energia renovável, o país é referência internacional pela geração de energia por meio da hidroeletricidade, assim como pelo desenvolvimento do biocombustível e da biomassa. Os potenciais eólico e solar também são admiráveis, dada a sua abundância, beneficiada pela extensão territorial, apesar de ainda serem pouco aproveitados. Estudos realizados para o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro, em 2001, encomendado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e Eletrobrás, mostraram que, na época, o país tinha uma potência instalável de 143.000 MW, revelada a partir de medições feitas em torres de 50 metros de altura e ventos com velocidade igual ou superior a 7m/s. Potencial que, hipoteticamente, permitiria uma geração de energia de 272 TWh/ano.

Acontece que o potencial brasileiro hoje pode ser, na verdade, maior do que este, medido uma década atrás. Na época da medição, as torres anemométricas, que mensuram a velocidade, a direção e a força dos ventos, tinham a metade da altura das torres de hoje, que ficam a uma altura média de 100 metros. Esse aumento de comprimento das torres garante uma captação maior dos ventos porque, assim, ficam livres de interferências externas. Isso acontece porque, quanto mais longe da superfície, ou seja, quanto mais alto, menor será a influência sofrida por eles de terreno e relevo. Dessa forma, podem ser mais intensos, atingindo velocidades maiores.

Por isso, esse potencial pode ser bem maior. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Lauro Fiúza, os indícios são de que o potencial brasileiro supere os 300.000 MW. Caso essa potência instalável seja, ainda que parcialmente, aproveitada, o Brasil poderia entrar para o grupo das cinco potências mundiais de energia eólica. Hoje a capacidade instalada brasileira é de 430 MW, muito abaixo dos 9.645 MW da potência instalada da Índia, quinto maior país em capacidade instalada do mundo.

Mas a pergunta que fica no ar é: se há mesmo tanto potencial, por que o aproveitamento dele é tão pequeno? Levando em conta o valor da capacidade instalada do Brasil, valor de referência utilizado pelos defensores desse tipo de fonte energética, se todas as usinas eólicas brasileiras começassem a gerar energia ao mesmo tempo hoje em capacidade máxima, o país ainda assim não conseguiria produzir nem 1% do potencial instalável medido nos estudos que deram origem ao atlas.

 

Para o gerente de desenvolvimento de negócios da Wobben Windpower, empresa de aerogeradores, Eduardo Lopes, um dos principais entraves é a questão política. Apesar de 2009 ser um ano importante para o mercado eólico brasileiro, pelo acontecimento do seu primeiro leilão individual de energia, até 2002, quando foi criado pelo MME o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), não existiam estímulos governamentais significativos ao desenvolvimento de usinas e tecnologia nacional para a geração de energia eólica.

Até essa época, quem instalasse usinas e gerasse energia eólica fazia por próprio risco, sem garantias de compra. É a fase que alguns especialistas chamam de “pré-Proinfa”, em que a capacidade instalada brasileira era de cerca de 30 MW. Com um alto custo de investimento e poucas certezas de retorno, poucas empresas entravam nesse mercado. As que fizeram, serviram como projetos pilotos para as posteriores, que surgiram com o programa de incentivo do governo.

Com o Proinfa, houve um grande aumento na capacidade instalada, mas ainda foi muito abaixo do que o projeto inicialmente previa, de 1.100 MW só para a eólica. O Proinfa previa ainda a contratação de mais 1.100 MW para biomassa e a mesma medida para Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs).

O programa de incentivo, que tinha data prevista para conclusão em dezembro de 2006, sofreu algumas prorrogações e a construção de usinas para geração de energia eólica ainda não chega nem perto do planejado. Eduardo Lopes, da Wobben Windpower, explica que muito investidores que tiveram projetos selecionados para receberem incentivos do Proinfa não deram continuidade e não efetivaram a instalação de usinas. Atuaram, na verdade, como especuladores, que contribuíram para que as várias previsões do Proinfa não saíssem do papel. As prorrogações aconteceram na tentativa de que esses projetos fossem ainda concluídos, mas por outras empresas.

Não só o volume a ser contratado pela geração de energia eólica foi alterado. Como a biomassa também não atingiu os 1.100 MW destinados a ela, parte dessa quantia foi redividida entre a eólica e as PCHs, passando para 1.423 MW o destinado à energia dos ventos. De acordo com Lauro Fiúza, da Abeeólica, desses, 1.000 MW estarão disponíveis em usinas em construção, que devem ser concluídas entre o final deste ano e 2010.

Mas a opção pela eólica não é um consenso entre especialistas e estudiosos. Para o professor doutor em meteorologia e diretor do Instituto de Ciências Atmosféricas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Luiz Carlos Molion, a energia eólica é erroneamente apresentada como uma fonte de energia eficiente e segura para se aplicar recursos, por isso, afirma que o investimento nesse tipo de geração de eletricidade é duvidoso. “A energia eólica não é uma fonte de energia segura ou firme, uma vez que o vento é extremamente variável e dependente do posicionamento e intensidade dos sistemas de alta e baixa pressão atmosférica”, explica no seu artigo intitulado “Considerações sobre a energia eólica no Brasil”.

Para Molion, ao contrário do que dizem os estudos do atlas eólico, os ventos brasileiros não são suficientemente fortes para gerar energia, isto é, não atingem velocidade superior a 4m/s (ideal para que os aerogeradores atuem com eficiência). “Ao longo do ano, durante os períodos em que predominam os sistemas de alta pressão atmosférica, a velocidade dos ventos é baixa e a demanda, em geral, é alta”, explicou à reportagem. O que geraria um descompasso entre o suprimento (geração) e a demanda (consumo), tornando a energia eólica não confiável.

À espera do leilão

Mas há muita gente apostando no setor eólico. Prova disso é que este ano acontecerá o primeiro leilão brasileiro de energia eólica, marcado para 25 de novembro. Há muita expectativa em torno deste evento porque, segundo Lauro Fiúza, o certame é um marco para o segmento, que representa a decisão do governo nacional em colocar a energia eólica na matriz energética brasileira. “Para desenvolver energia eólica é preciso vontade política. E essa já foi tomada”, expressou o presidente da Abeeólica.

Entretanto, para especialistas em eólica, a iniciativa não pode parar aí. “O leilão tem que ter continuidade e a tarifa tem que ser competitiva, no nível do Proinfa, porque senão não adianta”, avalia Eduardo Lopes. O gerente de desenvolvimento de negócios da Wobben explica ainda que, para que o leilão cumpra as expectativas dos profissionais do setor, seria importante que
ele incentivasse a indústria nacional, incentivasse quem está comprando da indústria nacional, principalmente em uma época na qual o país precisa gerar emprego, tivesse uma tarifa considerada “razoável” e tivesse continuidade, que não parasse nesse evento.

Um estudo encomendado pela Abeeólica mostra que, se forem contratados 1.000 MW por ano, durante dez anos, o país teria uma economia de R$ 1,4 bilhões anuais. Essa economia se daria porque o país passaria a comprar uma energia que tem custo de combustível nulo, em comparação à fonte de energia complementar adotada hoje, a termelétrica, que utiliza os combustíveis fósseis, principalmente o gás natural.

Hoje, em época de estiagem de chuva, quando os reservatórios das usinas de energia hidroelétrica baixam e há a necessidade de uma utilização de energia complementar para suprir a demanda de consumo brasileiro, são acionadas as usinas termoelétricas. Lopes e Fiúza afirmam que se fosse usada a energia eólica, ao invés da térmica, como complementar à hidrelétrica, se pagaria por uma energia mais barata (de geração), com combustível renovável e limpo. Assim, defendem a eólica como substituta à térmica como energia complementar à hidrelétrica, deixando a geração de energia de combustíveis fósseis como um back-up estratégico para o país, uma proteção para eventuais necessidades.

O professor Molion, ao contrário, não pensa assim. Para ele, a energia eólica não poderia ser complementar à hidroeletricidade, considerando que “o fenômeno que gera a seca também é o que não produz vento”, que é o sistema de alta pressão atmosférica. “Grande parte do Brasil é dominada por sistemas de alta pressão durante parte do ano, portanto, com baixo potencial eólico”, completa.

O preço que se paga

Um ponto negativo sempre atribuído à geração de energia eólica é o custo de implantação de suas usinas, que são caras e, por isso, não compensariam o investimento. Lauro Fiúza, da Abeeólica, afirma que, de fato, “a energia eólica requer um investimento muito elevado, mas, como o custo de operação é quase zero, porque o combustível é o vento, a comparação da eólica não deve ser feita com a hidrelétrica, mas com a térmica, que também é uma fonte complementar”.

Um estudo realizado pela empresa PSR Consultoria, encomendado também pela Abeeólica e divulgado pela Agência Brasil, mostrou que, embora o investimento de implantação da usina eólica seja maior do que o de uma usina termelétrica tradicional, os benefícios para o consumidor, advindos do custo zero do combustível, da abundância e da consequente possibilidade de gerar mais energia, reduziriam de maneira substancial a diferença final do investimento.

Mas para Molion esse um dos mitos criados em torno da energia eólica. “Dão a entender que o custo é barato, mas não é”, pontua. O encarecimento que o professor aponta seria dado pela manutenção das usinas, que seriam caras, e pelo transporte da energia nas linhas de transmissão, que teriam que ser longas, pois as usinas ficam localizadas em pontos afastados dos grandes centros de consumo. E os custos de operação, afirma, seriam agregados ao valor final da energia gerada.

De acordo com Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), o valor da energia eólica nos contratos das usinas do Proinfa, válido para 2009, é de R$ 263,10/MWh. Enquanto o custo da energia gerada em usinas a óleo tem um valor médio de R$ 574,56/MWh e em usinas a gás a tarifa média é de R$ 166,89/MWh, usando como números de referência os valores de custo do Programa Mensal de Operação Eletroenergética (PMO), do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), do mês de maio deste ano.

 

Sazonalidade

Em geral, no Brasil, as usinas termelétricas são utilizadas quando a produção de energia hidrelétrica não é suficiente para suprir a demanda de consumo nacional. Isso acontece nos períodos de estiagem de chuva, quando as reservas de água das usinas começam a baixar. Nos períodos de seca, que para as regiões sul e sudeste acontece, aproximadamente, entre julho e agosto, e para o nordeste entre setembro e novembro, são as mesmas épocas em que são registrados ventos de maior intensidade e velocidade, isto é, quando o potencial de geração de energia eólica é maior, de acordo com os resultados dos estudos feitos para o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro.

Dessa forma, muitos defensores da energia eólica argumentam que a substituição de energia complementar das térmicas para a eólica, além de ter benefícios sazonais naturais, pode trazer benefícios econômicos. A utilização de energia dos ventos “ajuda a evitar o racionamento, por exemplo, porque no período de seca, que tem bastante vento, pode ir armazenando água”, pontua Lopes. Como não há como armazenar energia e nem estocar vento, salvaguardar a água pode ser uma solução para contornar possíveis faltas de energia. Apesar de opiniões contrárias, como a do professor Molion, que diz que quando os reservatórios ficam vazios, nos períodos de seca, é exatamente a mesma época em que os ventos seriam insuficientes para gerar energia elétrica.

Mapa dos potenciais eólicos regionais e nacional

Distribuição

Os estados com maior geração de energia pelo movimento dos ventos hoje são o Rio Grande do Sul, o Rio Grande do Norte e o Ceará. Dos 430 MW de capacidade instalada que o Brasil tem hoje, a maior parte está localizada no estado do Rio Grande do Sul, onde está a usina de Osório, Sangradouro e Índios, conhecida como Parque de Osório, que tem capacidade para gerar 150 MW. Enquanto isso, o estado com maior número de usinas é o do Ceará, que conta com quatro usinas (de Taíba, Prainha, Mucuripe e Beberibe), além de ter o maior número de projetos e de ter atualmente em construção mais outros 513 MW. Na época de publicação do Atlas do Potencial Eólico Brasileiro, em 2001, o Ceará concentrava quase 65% da capacidade instalada do país.

Alguns estados ainda não têm usinas de energia eólica instaladas, mas apresentam grande potencial de geração futura, como é o caso do Alagoas, que teve publicado no início deste ano dois atlas sobre o potencial eólico e solarimétrico estadual, desenvolvidos pela Eletrobrás. A iniciativa surgiu a partir do potencial percebido no mapeamento nacional, da atlas eólico, lançado em 2001.

O diretor de tecnologia da Eletrobrás, Ubirajara Meira, explicou que, devido à existência de “áreas promissoras para a geração de energia elétrica por meio de recursos eólicos e solares no estado, eles esperam que, agora, empreendedores utilizem as ferramentas dos atlas para investir nessas tecnologias em Alagoas”.

USINAS EÓLICAS INSTALADAS NO BRASIL*

Tabela 1 – Usinas eólicas brasileiras

Alternativas

As medições brasileiras de energia eólica, tanto nas usinas já instaladas quanto nas que estão em construção, são feitas em terra, em um sistema que é chamado de on shore. Existe ainda a possibilidade de geração de energia dos ventos sobre o mar, em um sistema off shore, que requer altos investimentos e não devem aportar no Brasil por enquanto, mas que alguns países europeus já adotaram.

A Alemanha, segunda maior geradora de energia eólica do mundo, com capacidade instalada de quase 24 GW, já esgotou a sua possibilidade de expansão em terra, devido às suas limitações de territoria

is. Assim, começa agora a investir no sistema off shore.

Outras opções de geração de energia eólica começam também a ser desenvolvidas. Alguns países, como a própria Alemanha, Israel e Estados Unidos – país com maior capacidade instalada –, estão começando a utilizar sistemas de geração eólica de pequeno porte em prédios urbanos e espaços residenciais. No Brasil, ainda não há regulamentação específica para esse tipo de sistema.

Tabela 2 – Potências mundiais

Capacidade instalada versus fator de capacidade

Capacidade instalada é quanto uma empresa tem capacidade de produzir dentro das dimensões de sua instalação, o que os equipamentos e tecnologias permitem que ela gere, elabore, em qualquer área de atuação. No caso das usinas eólicas, capacidade instalada, diz respeito à capacidade de geração de energia total permitida em suas usinas instaladas, o que uma determinada usina é capaz de gerar, em atividade plena.

Como as usinas nem sempre funcionam com a capacidade total de produção, há quem defenda que mais importante do que a capacidade instalada é o chamado fator de carga ou fator de capacidade, que é a fração entre o que é efetivamente produzido por uma usina de energia em relação à capacidade instalada em um dado período de tempo.

Isso porque o fator de capacidade determinaria o que é realmente energia consumível. “Nas apologias à eólica, dá-se ênfase à capacidade instalada no mundo e não ao fator de capacidade. Há que se tomar cuidado, pois capacidade instalada não significa energia disponível”, afirma Molion. Por isso, diz que a capacidade instalada, por si só, “não serve de nada. O importante é o fator de carga.”

Alagoas tem seu potencial eólico e solar mapeado

Estimulado pelo mapeamento nacional realizado para o atlas eólico e o solarimétrico brasileiro, a Eletrobrás, em parceria com as universidades federais de Pernambuco e de Alagoas, lançou no início deste ano, o atlas dos potenciais específicos de Alagoas para essas duas fontes de energia. Com estudos iniciados em 2006, os materiais foram concluídos no final de 2008.

O diretor de tecnologia da Eletrobrás, Ubirajara Meira, contou que foram identificadas cinco áreas com potencial satisfatório para geração de energia elétrica pelos ventos: Dunas de Piaçabuçu, Serras de Água Branca e Mata Grande e Região de Carneiros, Senador Rui Palmeira e Girau do Ponciano.

“O potencial estimado para áreas com ventos iguais ou superiores a 7 m/s é de 173 MW, 336 MW e 649 MW nas alturas de 50 m, 75 m e 100 m, respectivamente. Este potencial resultaria em uma produção anual de energia de 458 GWh , 822 GWh e 1.340 GWh nas alturas de 50 m, 75 m e 100 m, o que representaria, respectivamente, 22%, 39% e 64% do consumo do Estado (2,1 TWh em 2006)”, explicou Meira.

Por fim, o trabalho revelou também que a área com maior potencial para energia solar é o sertão alagoano, nas regiões de Pão de Açúcar, Santana do Ipanema e Água Branca.

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