Smart grid – riscos tecnológicos

jun, 2016

Edição 124 – Maio de 2016
Por Luiz Fernando Arruda

No nosso ultimo encontro falamos, de forma bem resumida, sobre risco tecnológico quando se investe em Infraestrutura Avançada de Medição (AMI, sigla em inglês) ou em um sistema de automação mais abrangente que possa dar mais inteligência para as operações das redes de distribuição e de transmissão.

E isso causou algum estranhamento, pois, se pensa, de forma geral, que se trata de comprar equipamentos, instalar e integrar os dispositivos via softwares que estão bem maduros até para resistir à baixa confiabilidade das comunicações no Brasil. Por isso, ainda são feitos projetos considerando sistemas dedicados e o mais independente possível da infraestrutura de comunicação convencional e isto traz custos que poderiam ser evitados, além da dependência de tecnologias específicas.

 

 

Como todo programa de AMI começa pela modernização da medição, vamos então verificar como anda a situação dos medidores inteligentes (ou pelo menos “espertos”) no Brasil.

 

Não vamos entrar nos detalhes e na cronologia das portarias do Inmetro e resoluções da Aneel e da falta de sincronia dos órgãos governamentais. Há, inclusive, alguma confusão de papéis, como a exigência de display interno para consumidor que foi estipulada pelo Inmetro para a medição centralizada instalada na rede de distribuição (a relação com o cliente deve ser disciplinada pela Aneel). Por que este dado de consumo não pode ser disponibilizado na internet ou via mensagem SMS a pedido do cliente?

 

 

É bom lembrar ainda que um display (que espelhe o medidor externo) na unidade consumidora vai custar em torno dos R$ 200,00 entre custos de fabricação, instalação e manutenção.

 

Não temos sequer um medidor aprovado pelo Inmetro que possa fazer a função de multi tarifas em postos tarifários a serem determinados pela Aneel. Seja esta tarifa monômia (só energia) ou binômia (energia e demanda – como é mais adequado se o objetivo é ter mudanças na curva de carga do sistema).

 

 

Não há ainda regras claras e definitivas para a fabricação e testes! Assim como também ainda não temos um padrão de protocolo de comunicação que permita interoperabilidade entre todas as marcas a serem disponibilizadas no país.

 

Dessa forma, sabemos de forma clara o que fazer, mas, se uma empresa investir em medidores com mais funcionalidades, ela corre o risco de não poder utilizar estes dispositivos quando todo o imbróglio for resolvido e houver uma tarifa livre para ser praticada na baixa tensão.

 

 

Para citar apenas mais um ponto que sempre nos chamou a atenção, vemos que está sendo exigido um “clock” de elevada precisão (o que eleva muito o custo do hardware) em cada medidor, mesmo que estes sejam parte de um sistema que trabalha interligado e com comunicações diárias, que permitiriam o ajuste do horário, sem qualquer problema, a partir de um dispositivo central de alta precisão. Quanto dinheiro seria poupado, aliviando a nossa pesada tarifa? E em 2017 vem por aí mais aumento para pagar a conta dos efeitos da famigerada MP 576/2012!

 

Quanto ao corte e religamento remotos também há questionamentos, pois, as regras podem mudar quando as distribuidoras (mesmo após o reaviso formal) puderem fazer o corte remoto. Em que horas e dias isto vai ser proibido? Tem que deixar aviso no local após o corte?!

 

Estes são alguns dos fatos técnicos. Voltaremos a eles (tratando inclusive a questão do obsoletismo precoce, tão comum nos dias de hoje, para novas tecnologias), mas também temos que abordar a questão do retorno do investimento que pode ser o grande obstáculo para as mudanças que precisamos. 


Errata

 

Na coluna publicada na edição 122, de março de 2016, no sexto parágrafo, foi suprimida parte do texto importante para o seu entendimento. Confira o trecho na íntegra:

 

Quem observa a curva de carga do sistema elétrico nacional vê que há muito espaço para trabalhar a mudança de hábitos e tornar o perfil de carga mais racional (quanto mais plano mais otimizado). Portanto, não é muito inteligente trabalhar somente no lado do provimento de carga (fonte infinita?).


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