Smart grid

jul, 2010

Edição 53 – Junho de 2010

Por Luiz Fernando Arruda

Para todos nós do setor elétrico, é impossível não ouvir sobre este assunto, impossível não se interessar por ele e, também, não torcer para que vire realidade o mais breve possível abaixo da linha do Equador, pelo que vai representar de incremento da racionalidade do uso da energia elétrica e consequentes benefícios para todos.

 

Mas até mesmo quando se trata de entender o que de fato é “isso”, há uma profusão de conceitos e uma confusão de ideias. Por isso, com certeza, este é um tema que vai nos ocupar muito nos próximos meses.

Há algumas semanas, participei de um seminário promovido pela APTEL no CPQD, onde, durante dois dias, pudemos receber uma série de informações de qualidade, inclusive do exterior, e colocar mais luz no assunto, até mesmo em termo de normas e nomenclatura.

Alguns pontos vêm à mente em função de questões típicas do nosso País (e de muitos outros ao redor do mundo) e que absolutamente não existem na América do Norte e Europa ou são de pequena monta por lá. Nós sabemos que, quando se trata de interface com os nossos consumidores e clientes (consumidores que pagam pelo seu consumo), há uma clara necessidade de adaptação de qualquer tecnologia, até mesmo pela regulação do setor elétrico em vigor no Brasil.

Assim, por aqui teremos que associar algumas funcionalidades que garantam a blindagem da receita em locais com perdas não técnicas elevadas (vamos deixar os novos medidores dentro das casas naquelas caixinhas velhas, sem tampa, com os antigos desvios e as redes ali prontas para receberem conexões clandestinas?), bem como a possibilidade de desconexão/reconexão da unidade consumidora como instrumento de combate à inadimplência.

Lá fora se usa cortar algumas cargas com inércia térmica – ar condicionado e aquecimento – por pequenos intervalos (que não chegam a causar desconforto significativo ao ambiente e usuários) para controle de demanda; por aqui, não temos estas cargas em todas as regiões do País e, onde temos (locais onde o ar condicionado é imprescindível), é simples perceber que muitos consumidores vão usufruir da redução de tarifa (contrato que se faz para permitir tais interrupções e que estabelece descontos variáveis como contrapartida) e vão fazer um desvio (by-pass) no dispositivo de corte para evitar a interrupção.

Outro ponto preocupante: vamos conferir inteligência a um corpo velho e mal cuidado, sem flexibilidade operacional e, com raras exceções, já acima das condições nominais e com perdas técnicas muito acima do nível aceitável? Boa parte de nossas redes são assim e basta ver alguns índices de qualidade disponíveis na internet para que se dispense qualquer discussão.

E temos ainda de considerar que o ambiente regulatório tem de ser propício, de forma que as concessionárias possam, ao menos, ter os ganhos projetados garantidos antes que estes sejam capturados para a “modicidade tarifária” nos períodos de revisão de tarifa. Hoje, considerada a possibilidade de ocorrer atraso em grandes projetos, há um risco elevado de um investimento passar de extremamente rentável a prejuízo puro.

Há que se considerar também que não existe “smart grid” sem que a concessionária possua um nível de informatização básico, intranet eficiente e segura, sistemas corporativos de faturamento, gestão de serviços de campo, operação da rede, comercial e de relacionamento com o cliente. Vale lembrar que sistemas corporativos dependem diretamente de um cadastro minimamente confiável dentre outros fatores.

Estas condições estão longe de serem simples de serem adquiridas. Vejam o exemplo de algumas das últimas implementações de SAP em concessionárias do Brasil e também não teremos qualquer discordância. O mundo de TI é complicado e vemos que empresas experientes erram até mesmo no básico, como o dimensionamento de desempenho e capacidade de servidores (chamado de “sizing” neste mundo repleto de termos pomposos).

Em resumo, temos de ter um anteprojeto do que queremos atingir de forma a ver claramente as etapas a serem cumpridas. Vamos ter de fazer coisas básicas, como trocar cruzetas podres, eliminar emendas de cabos, transformadores de distribuição reformados em “fundo de quintal” (com perdas elevadíssimas e com vida útil lá embaixo), iniciar a modernização de redes utilizando rede protegida na média tensão e isolada na baixa (isso ainda é novo em muitos locais e regiões), instalar chaves automáticas em pontos a serem identificados de forma a conferir flexibilidade operacional mínima a rede e melhorar nosso cadastro de clientes (que, em geral, estão com defasagem em mais de 50% das informações).

Ainda teremos de pensar, depois disso, na mídia de comunicação: PLC (Power Line Communication, que transmite dados usando a própria rede elétrica) ou RF (rádio frequência). Isto vai ser assunto para os próximos encontros, mas, para adiantar só um pouco, estou há mais de dez anos esperando pelo tal de “broad band” via cabos da rede e gostaria muito de ver isso operando corretamente nestas nossas redes precárias. Testes realizados mostram grande atenuação e dispersão de sinal em redes em que os cabos não são pelo menos em trifólio. Além disso, há o custo elevado. Por enquanto, temos experiências pontuais e declarações muito mais voltadas à promoção de empresas, projetando ao grande público que se investe em alta tecnologia.

Depois dessa discussão e, antes de determinar o uso de determinadas funcionalidades na medição (os medidores serão simplesmente o meio de adquirir informações do campo, meros sensores de grandezas), poderemos verificar quais aspectos do ambiente regulatório que temos na América do Norte e Europa que podem e devem ser replicados no Brasil.

Aí sim, já posso ver as empresas diagnosticando as áreas para identificar onde e como começar a implantar a inteligência aplicada na operação coordenada do sistema de distribuição, interligando toda a geração distribuída de acordo com as opções tarifárias disponíveis, subordinando o consumo e demanda ao montante disponível de geração (ao contrário do que se faz hoje), programando chaves para operar automaticamente, de forma a isolar defeitos da forma mais otimizada possível e fazendo os orçamentos do projeto.

Se for bom negócio, sai do papel. Caso contrário, vai ser apenas assunto de muitos seminários.

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