Smart grid, smart metering e associados (parte II)

jan, 2011

Ed. 59 – Dezembro de 2010

Por Luiz Fernando Arruda

Continuando o tema abordado no artigo anterior, seguimos, nesta coluna, questionando alguns pontos. É o que se espera de nós, que atuamos no setor, pois as decisões que serão tomadas afetarão o futuro da distribuição de energia elétrica de forma acentuada.

Para falar um pouco mais sobre os “novos” medidores, vamos lembrar que temos mais de dois milhões de pontos de atendimento a clientes de baixa tensão, para os quais a medição está instalada nos postes da rede de distribuição. A solução engenhosa permite a leitura do medidor pelo uso de lentes nas caixas e implementada para minimizar a manipulação dos medidores anteriormente instalados nas residências e comércios.

Nestes casos, o novo medidor terá de ser do tipo “split”, pois talvez não seja possível ler o display pela lente e, em caso de interação entre medidor e eletrodomésticos, a função de comunicação deve estar dentro da unidade consumidora.

Fica claro que adotar medidores inteligentes, sem se importar onde e para que classes de unidades consumidoras (UC) serão instalados, será um desperdício.

Vejam ainda as funções de qualidade de energia que estão em discussão para UC de baixa tensão. Nem as informações disponíveis nas medições de fronteira são utilizadas plenamente e, portanto, cabe perguntar: o que será feito com esta quantidade absurda de dados que serão gerados? Devem ficar nas memórias dos medidores, guardadas para a eternidade! E há quem dirá: mas se quisermos saber é só ir a campo e retirar a informação!

Outra questão que se coloca é a integração e a automação dos equipamentos de proteção e, entre eles, os ainda pouco usados indicadores de falta. É preciso também falar da geração distribuída, que veio quebrar paradigmas, pois não podemos mais falar em lado de fonte e de carga em muitos setores de nosso sistema de distribuição.

No futuro, alguns trechos do sistema de distribuição poderão até ser operados isoladamente em casos de contingência e alimentados por geração de produtores independentes. Temos casos também em que algumas linhas de 13,8 kV passam de alimentadores de UC para alimentadores de subestação. Sem uma boa dose de inteligência e automação, não teremos como otimizar os recursos advindos da geração distribuída. Portanto, pensar somente nas funções dos medidores de forma isolada também não é o melhor caminho.

Outro aspecto apaixonante deste novo capítulo será, sem dúvida, a grande interação dos clientes com o sistema de distribuição, escolhendo quando consumir. Como já comentamos antes, o período de prover qualquer patamar de consumo está por acabar e deveremos ter a demanda adequada à capacidade racional de geração (pelo bem do meio ambiente e também para racionalização de custos).

Hoje já temos o segmento de média tensão fazendo isso de várias formas: desde os shoppings que gelam água e a estocam para uso no ar-condicionado no horário de ponta até os supermercados e hotéis que usam geradores a diesel também no horário de pico. Temos também grandes prédios intitulados de “inteligentes”, alguns menos por mérito e mais por pura propaganda.

Mas é interessante imaginar cargas (lavadoras e secadoras de roupa, por exemplo) sendo acionadas automaticamente quando o medidor lhes sinaliza o posto tarifário de energia mais barata. Hoje isso já é realidade em muitos locais, mas demanda políticas públicas bem planejadas, pois até mesmo linhas especiais de financiamento para eletrodomésticos que podem ser operados remotamente via “bluetooth” devem ser criadas.

Porém, mais que tudo, o ambiente regulatório deverá assumir com bastante coragem uma política pública de incentivo para que seja alterado o hábito de consumo de nossos clientes. De forma análoga ao que já temos na telefonia, teremos de implantar a tarifa diferenciada para o segmento de baixa tensão. Sem isso, os medidores serão pontos isolados de informações serão uma inteligência perdida, como todo conhecimento que não é ampla e democraticamente compartilhado.

Assim, com a discussão que se aproxima para definição de medidores, eu desejo que todos os segmentos envolvidos tenham a capacidade de pensar na contribuição da engenharia para o País, com bastante altruísmo e sem pensar nos benefícios comerciais de alguns setores da indústria. Mais que definir açodadamente os medidores, devemos aguardar a definição do ambiente regulatório que teremos.

Planejar não é perda de tempo. O que se propõe é mais ou menos como planejar a viagem, sondar os caminhos que serão seguidos e somente depois definir o carro ideal para a aventura. Inverter esta ordem vai tumultuar a vida dos viajantes e pode até mesmo impedir que se chegue ao destino desejado.

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