Simplicidade que funciona e nem sinal de high tech

jul, 2014

Edição 101 – Junho de 2014
Por Luiz Fernando Arruda 

Estou em viagem aos Estados Unidos e, na primeira semana, estive com colegas da IURPA (www.iurpa.org) durante a conferência anual.

Encontrei pessoas de várias partes do mundo, e de quase todos os estados dos EUA, e as informações a que tive acesso não têm preço! Não estão nas revistas oficiais dos seminários e nem vão estar nas apresentações em PowerPoint que vão nos mostrar nas conferências que teremos brevemente no Brasil.

É assim mesmo que funciona: a realidade não pode ser passada sem uma boa maquiagem. E só o lado bom (real ou imaginário) é que chega a nós pelos arautos das novas tecnologias.

A verdade que se vê, no entanto, é que nas maiorias dos lares não há nem sinal de smart grid ou AMI. O que se vê são os velhos discos girando e as contas de uma energia muito mais barata que a nossa sendo enviadas todo mês pelo correio e boa parte delas sendo paga com cheques (vem um envelope dentro do envelope com a conta)!

Mais barata mesmo: mais ou menos 35% de nossa tarifa em Bacurituba, Codó ou Sucupira do Norte, que são pequenas cidades no Maranhão, no norte do Brasil. Elas são cidades comuns quanto a tudo o mais (ou seja, cheias de problemas – ou, de outra forma: não são padrão FIFA) mas tem tarifa padrão FIFA, de gente rica!

Mais barata e melhor de fato: mesmo em subúrbios longe das grandes cidades, a gente passa por tempestades tropicais (nesta parte do ano elas são muitas por aqui) e não temos grandes problemas; há equipes de plantão e mesmo sem uma agência reguladora que restringe o negócio tanto como no Brasil, o pessoal por aqui (os clientes com quem conversei) não reclamam. E de modicidade tarifária eles entendem melhor do que nós. Usam postes de madeira, tem subestações extremamente simples e um pessoal de campo que trabalha sem as amarras das leis antiquadas que temos no Brasil.

Sem estresse de portarias, mudanças impostas sem conversar antes com a indústria da eletricidade, sem anúncios bombásticos sobre queda da tarifa! Bom, simples e funcional.

Mas também há questões a serem resolvidas! O governo federal havia anunciado investimentos bilionários em smart grid e ninguém sabe com certeza onde está este dinheiro e, principalmente, o que resultou dele.

Já tivemos acesso a relatórios (alguns oficiais) que explicam os ganhos, mas confesso que para mim não foi nada definitivo e a sensação que percebo entre os colegas que encontrei aqui é a mesma: é mais propaganda do que realidade; muito dinheiro, muito software, muito “paper”, muito medidor inteligente, grande processamento de dados, acesso a muita informação, mas nada de resultado perceptível no dia a dia.

Também há o problema de concessionárias que entendem que a tecnologia resolve tudo e que estão enfrentando problemas, pois no campo as coisas não estão bem e ninguém dá conta de atender a tantos alarmes gerados. Além disso, muitos clientes exigem a retirada dos medidores inteligentes (ou nem permitem sua instalação usando liminares) e as cortes estão dando amparo legal a eles pelo fato de que os “smart meters” podem ser considerados invasivos: afinal, o que gera a fatura é apenas a quantidade de kWh consumida.

Isto preocupa, pois, no Brasil, o mercado vai ser tratado da mesma forma e considerando os problemas regulatórios (tarifa branca e pré-pagamento opcionais – o consumidor vai mudar a maneira que usa a energia voluntariamente ou o consumidor que não paga a conta vai querer um medidor de pré-pagamento?), vemos um futuro meio cinzento, sem grandes perspectivas de que nossos clientes vejam qualquer benefício das novas tecnologias em curto e médio prazos.

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