Redes inteligentes: quem é contra?

abr, 2016

Edição 122 – Março de 2016
Por Luiz Fernando Arruda

 

Na coluna anterior, falamos sobre as “smartcities” e, dentre os comentários que recebi, me chamou a atenção aqueles que colocam a questão: quem é contra? Por que nada, ou quase nada, acontece?

Há vários pontos a serem colocados e que, pelo menos parcialmente, explicam a morosidade do processo aqui no Brasil.

 

Primeiramente, no início de tudo, ainda é muito forte a cultura de prover a demanda a qualquer custo. Tem muita gente que gosta mesmo é de fazer usinas, linhas e subestações e suprir a necessidade de carga de umas três horas de cada dia, apesar da ociosidade nas demais horas.

 

Tem gente que se arrepia só de ouvir as palavras “smart grid”. E é gente que tem poder e que acredita que está tudo bem, que já há tecnologia suficiente e que nada mais precisa ser feito, tanto na geração como na distribuição. E este pessoal defende que nosso sistema é o melhor do mundo!

 

Ocorre que vamos entrar em um período de grande oferta de energia, o que complica mais ainda o setor, pois, há muito o que se pagar via tarifas (já muito elevadas) e temos consumo em declínio, o que indica que a modicidade tarifaria vai ficar meio para escanteio.

 

Quem observa a curva de carga do sistema elétrico nacional vê que há muito espaço para trabalhar a mudança de hábitos e tornar o perfil de carga mais racional (quanto mais plano, mais otimizado). Portanto, não é muito inteligente trabalhar somente no lado do provimento de carga?

 

Com uma política adequada de tarifas, muito ainda pode ser feito, principalmente, no setor de baixa tensão, para, de fato, termos mais qualidade, confiabilidade e menores custos.

 

Em segundo lugar, observam-se a morosidade, falta de criatividade e de coragem de promover mudanças. Aquela velha história: se você não faz nada você não erra! E o salário continua vindo normalmente.

 

Esperar que as concessionárias de distribuição invistam em novas tecnologias por puro altruísmo é sonhar demais.

 

Tem que haver politicas públicas com regras claras e permanentes para que investidores sejam motivados a correr os riscos inerentes ao setor.

 

O terceiro ponto que complica a vida de quem aspira por mais tecnologia no sistema elétrico diz respeito aos riscos envolvidos. Risco tecnológico e risco de que, mesmo que as coisas andem bem, não haja o retorno financeiro esperado.

 

Risco tecnológico sim, pois a gente sabe que muita coisa que foi divulgada e até mesmo implantada simplesmente não funciona, foi puro engodo. Muitas empresas de tecnologia já chegaram ao mercado e, simplesmente, desapareceram, deixando um rastro de prejuízo e de frustração. Dá até para fazer um seminário sobre o tema com apresentações que seriam extremamente valiosas ao apontar os erros cometidos.

 

Os riscos comerciais são mais impactantes, pois, normalmente, se fazem projeções de ganhos e de economias a serem obtidas com a aplicação de tecnologia de um lado. E do outro, há um cronograma e um aporte de recursos a ser remunerado (e por estas bandas, o custo de capital é bem elevado).

 

Este terceiro ponto seria resolvido com o estabelecimento de uma parceria integral, na qual se remunera o fornecedor da tecnologia com parte dos ganhos de fato apurados. Será que temos no mercado quem confia na performance do seu produto a ponto de correr este risco?

 

Foi só um pequeno passeio por algumas dificuldades, mas falaremos mais sobre outros obstáculos a serem vencidos.

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