Qualidade (e responsabilidade) no consumo da energia elétrica

set, 2013

Edição 91 – Agosto de 2013
Por José Starosta

Diversas questões relativas ao ponto de conexão ou de acoplamento comum (concessionária e consumidor) têm sido desenvolvidas sob diversos aspectos, entre elas, destacamos três:

 

Qualidade da energia

A primeira questão considera as características do que se adotou tratar por características da qualidade da energia elétrica quando uma fonte elétrica (concessionária) alimenta um consumidor e suas cargas. Neste caso, ocorreria na interação entre as características da fonte (potência de curto-circuito, distorção de tensão, desequilíbrio de tensão, regulação e outras) na alimentação de cargas com suas características típicas – correntes típicas nos diversos regimes (partida e regime) distorções de corrente, desequilíbrio de corrente, de fator de potência, entre outras. As consequências são um regime de operação duplamente dependente ou ainda a constatação de que as características das variáveis elétricas neste ponto de conexão dependerão das características tanto da fonte como da carga. Daí a preocupação com as compatibilidades requeridas.

 

Este assunto tem sido tratado continuamente pelas concessionárias e pelas empresas com volume significativo de cargas, pois deste resultado dependerá a operação correta das cargas de onde as concessionárias também têm interesse, pois, afinal, desta premissa dependerá o seu faturamento. Não se trata de “apontar o dedo” para o culpado, mas, sobretudo, definir uma solução de convivência de modo a manter a carga operando da melhor forma possível. Algumas concessionárias como a CPFL adotam o estudo de conexão “batizado” de Relatório dos Impactos no Sistema Elétrico (RISE) que procura mitigar esta questão do ponto de vista técnico.

Eficiência energética

A segunda característica envolve um aspecto econômico que nem sempre pode ser compensado. A questão trata da eficiência energética do processo e das cargas do consumidor. Em outras palavras, a quantidade da energia elétrica (kWh) envolvida na alimentação das cargas de um determinado consumidor estaria sendo efetuada da forma mais adequada sob o ponto de vista quantitativo? Não existiriam outras formas mais eficientes de se alimentar os processos dos consumidores? Será que a tarifa de energia estaria cobrindo este desequilíbrio, considerando a necessidade de investimentos na infraestrutura do sistema elétrico de alimentação? Um determinado prédio comercial, construído e mantido conforme os protocolos “Leed”, “Procel Edifica” ou outro semelhante, deveria estar sujeito à mesma tarifação de outro prédio com instalações obsoletas e de baixa eficiência?

Programas bem estruturados de gestão de energia, como aqueles recomendados pela norma de gestão de energia ISO 50001, contribuem para a redução de desperdícios de energia e podem ser encarados como verdadeiras fontes ou usinas virtuais de energia. Outro ponto de fundamental importância é a escolha da qualidade dos equipamentos que estão sendo instalados. Neste caso, o programa de etiquetagem do Procel exerce um importante auxílio na especificação. Nesse sentido, o programa deveria ser estendido aos aspectos de qualidade de energia destes equipamentos; exemplificando: de nada adianta a lâmpada fluorescente compacta possuir um bom desempenho luminotécnico se possui baixo fator de potência e alta distorção harmônica de corrente.

Matriz energética sustentável

A vinculação dos temas anteriores à questão da qualidade da nossa matriz energética é outro ponto a ser considerado. Se a afirmação de que a qualidade da matriz energética é elevada na medida em que a dependência de combustíveis fósseis é reduzida for verdadeira, alguns pontos merecem atenção: 

  • Não só os aspectos de emissão de carbono devem ser considerados, mas os próprios custos relativos à geração com as térmicas e com óleo em particular como apresenta a Figura 1. Nesta figura relativa à geração térmica no sistema interligado nacional, observa-se a geração a óleo “em verde”, devido ao esvaziamento dos lagos e consequente geração hidráulica, no final de 2012 e início de 2013. Quase 3 GW médios foram gerados para garantir o suprimento ao sistema interligado.

 

 

  • Por conta desta situação, os custos de energia aumentam. O novo modelo tarifário acompanhará esta dependência das térmicas sinalizando mensalmente com as bandeiras (verde, amarela e vermelha) as tarifas a partir de 2014. Quanto maior for a dependência das térmicas, mais cara será a energia elétrica. Informações recentes da imprensa apresentam os pesados investimentos da ordem de R$ 10 bilhões para as compensações da redução de tarifas em ambiente de baixa produção das usinas hidráulicas.

Alguns pontos merecem reflexão:

  • Caberia a toda sociedade arcar pela má gestão energética de parte dos consumidores, uma vez que a sinalização de tarifas será generalizada?
  • Organismos ou empresas que desenvolvem programas bem sustentados e coerentes não mereceriam um bônus ou desconto na conta de energia?
  • A tarifação dos reativos excedentes não mereceria um modelo mais amplo e justo, envolvendo outras variáveis?
  • Os empreendimentos não deveriam cumprir requisitos mínimos de eficiência energética que considerariam não somente os custos iniciais relacionados aos investimentos em instalações e equipamentos, mas, sobretudo, em seus custos operacionais (que inclui energia) ao longo de um período típico?
  • Seria razoável que os empreendimentos sociais simplesmente excluíssem chuveiros elétricos de seus escopos? Quanto custa para o sistema elétrico a demanda dos chuveiros elétricos de baixo custo?
  • As concessionárias arcaram em 2012 com mais de R$ 500 milh&o

    tilde;es em penalidades por não cumprirem os regulamentos de qualidade de serviço ou produto. Será que os consumidores que receberam estas quantias consomem a energia exemplarmente e de forma sustentável?

  • Até quando as cidades vão manter sistemas de iluminação pública que iluminam as copas das árvores deixando as calçadas em situação de “penumbra”?
  • Não estaria na hora de os poderes públicos agirem com mais competência na eficiência energética de suas próprias instalações com investimentos bem menores que aqueles ora praticados na geração térmica?
  • A Lei 8.666 mereceria algum tipo de adequação? Ou mesmo modelo complementar aplicável?
  • Será que a discussão de temas relacionados à necessidade de eficiência energética pelos setores públicos traria implícito lembranças não desejáveis de racionamento?

Enfim, a temática é ampla e merece posicionamentos maduros à vista de riscos e oportunidades. Temos muito por fazer, e de preferência, com a “bandeira branca”.

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