Pressupostos básicos para termos smart grid no Brasil

out, 2015

Edição 116 – Setembro de 2015
Por Luiz Fernando Arruda

Na prática, quando pensamos como engenheiros sobre o que nos cabe fazer para promover mudanças necessárias para que, ao final, as redes inteligentes gerem ganhos, nos deparamos com vários perigos.

Projetar, testar, implantar e manter são da natureza do engenheiro e com boas equipes se chegam a bons resultados. O problema maior repousa na estratégia inicial de que, se não for “smart”, certamente, não vai resultar o que se vislumbra para o nosso futuro.

Na edição passada, falamos sobre a tarifa branca concebida há três anos e que (ainda bem) não decolou. Ela não trará benefícios e se constitui em um processo de modicidade tarifária às avessas.

Por ser opcional, aumentará custos e diminuirá a arrecadação das distribuidoras já esgotadas por anos de tratamento inadequado do “negócio distribuição”. Sim: distribuição é um negócio em que alguns investem com a expectativa saudável de retorno positivo no prazo projetado, o que pressupõe regras estáveis.

Vários perigos já são visíveis e, de forma geral, pode-se qualificar o maior deles como a falta de integração de distintas áreas governamentais na criação de políticas públicas adequadas sobre o tema.

Tivemos há, aproximadamente, cinco anos um relatório do MME que, pela natureza neutra, nada criou, nada recomendou e nada concluiu.

A tarifa branca (nome possível para fugir de decretos que tratavam da tarifa amarela) foi criada com protestos de áreas do legislativo federal que buscou transformar em lei qualquer tentativa de tarifa horossazonal para o segmento de BT: aqui o perigo real, pois, na falta de uma política densa e correta, abre-se espaço para enganos maiores, populistas e que jogam contra qualquer tentativa de melhoria efetiva do setor elétrico.

Se tivermos que ter lei federal obrigando empresas a implantar “redes inteligentes”, teremos que buscar entendimento com todos os segmentos envolvidos e admitir que, para as redes inteligentes prosperarem, tem que haver um ambiente de negócios saudável (regras claras e estáveis e tratamento do retorno do investimento de capital como algo saudável e bem-vindo). Não basta ordenar a instalação de medidores inteligentes. Assim como os medidores de pré-pagamento não pegaram, apesar de todo o “esforço” feito criando tarifas, instruções, etc, e, da mesma maneira, quase 20 anos atrás, o lobby do medidor de ampère-hora também fracassou.

Várias experiências no Brasil (bem e malsucedidas) já nos dão algumas pistas do que fazer e do que evitar.

Já pude assistir apresentações sobre cidades inteligentes, mas poucas “abrem o jogo” e mostram, por exemplo, que os resultados atingidos não remuneram o que foi investido. Para admitir isto tem que haver um comportamento neutro e desinteressado de empresas que estão abertamente testando tecnologias e não tentando vender tecnologias.

Assim é que visitei uma cidade que já foi objeto de elevados investimentos e pude constatar que só se veem os medidores eletrônicos, mas nenhuma outra alteração visível.

Os clientes nem sabem dizer o que está havendo e se lembram de algumas reportagens que citavam a cidade, mas quando a gente pergunta o que mudou para eles, silêncio geral: nada!

Bem, este é um dos pontos que a literatura fartamente disponível na internet nos ensina: nada no segmento de distribuição de energia elétrica pode deixar de lado o que em uma empresa que trabalhei era chamado (e tratado como) “sua majestade, o cliente”.

Tanto que os projetos que focam na mitigação das perdas não técnicas apresentam resultados ao trazer dificuldades ao consumidor para uso indevido da medição ou fazer ligações clandestinas; não se eliminam totalmente as perdas, mas, em áreas minimamente civilizadas, elas caem consistentemente com o uso dosado de tecnologia e presença maciça de inspeção (temporária).

A questão ambiental é um forte aliado destas mudanças, pois não há quem se posicione contra a ideia de que temos que alterar nossos hábitos para termos um planeta mais saudável. E, neste campo, os benefícios são muitos ao se instituir tarifas que resultem na postergação de investimentos em geração, transmissão e distribuição enquanto a curva de carga não estiver quase totalmente plana nas 24 horas de cada dia! Mas tarifa opcional definitivamente não dá resultados e, por isso, na média tensão, as tarifas azul e verde são opções mandatórias.

Ou seja, já sabemos o que e como funcionam as coisas, basta ser “smart” e fazer o que é certo.

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