Por onde começar a implantar as redes inteligentes no Brasil?

set, 2016

Sempre é melhor começar com uma vitória e, assim, que tal iniciar os projetos de “smart grid” pelos locais (ou “clusters”) em que certamente o retorno será positivo?

Como no atual ambiente regulatório, somente a eliminação das perdas não técnicas garantem ganhos certos e o aumento destas perdas atualmente é inquestionável, bem como os estragos que elas trazem, parece que temos um bom indicativo. Assim, por que não atacar o problema de forma corajosa, concreta e definitiva?

Já temos projetos pioneiros que mostram de forma clara a aplicabilidade de tecnologia em conjunto com novas redes mais seguras e com maior dificuldade para acesso clandestino em áreas onde a urbanização precária convive com baixos índices socioeconômicos e de presença do poder público e, consequentemente, com perdas elevadas.

Temos também projetos que, uma vez implantados, mostraram fragilidades tecnológicas e custos de manutenção mensais que evidenciam erros a serem evitados (lições importantes que nos ensinam mais que os casos de sucesso).

Os ganhos a gente conhece muito bem:

1. mais segurança e melhor qualidade de energia para os usuários destas áreas específicas (para quem não sabe, a quantidade de interrupções é enorme, o nível de tensão varia muito e a quantidade de acidentes é crescente em áreas de comunidades carentes e/ou de urbanização precária);

2. menor perda não técnica, o que implica dizer que estaremos contribuindo para a justiça tarifária e diminuindo a pressão sobre novos investimentos no setor pois o consumo corretamente medido traz comportamento mais racional por parte dos consumidores.

Com o uso mais frequente das térmicas no Brasil é correto pensar, inclusive, que estaremos contribuindo para limpar nossa matriz energética e trazendo benefícios ao meio ambiente (aproximadamente 30% da redução da perda não técnica transforma-se numa usina virtual, na forma de energia não mais requerida do sistema elétrico).

Os pontos negativos a gente também conhece. Maior custo para a manutenção das redes (fruto e função do grau necessário de “blindagem” da rede) e o investimento inicial para a tecnologia associada com a medição centralizada (infraestrutura avançada de medição – AMI).

É claro que, nos primeiros anos, a inspeção “in loco” vai demandar maior esforço e atenção para evitar e controlar ações de vandalismo, mas, ao longo do tempo, esta necessidade diminui bastante.

Se houver flexibilização para a exigência de display remoto nas unidades consumidoras (a ser substituído com vantagens por acesso via internet e /ou mensagens SMS requisitadas pelos clientes – afinal, quem controla consumo no medidor todo dia?), ganharemos, logo de saída, uns R$ 150,00 de custo evitado por ponto! Como temos milhões de pontos para instalar neste nicho a economia será bem significativa.

Além do que foi citado, teremos o risco tecnológico bem controlado pela boa chance de competição entre várias tecnologias disponíveis pois estaremos concentrando a aplicação em áreas bem delimitadas.

Por que então não usar este conhecimento e partir para a ação?

Até mesmo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e o Inmetro podem tirar proveito destes projetos, acompanhando ativamente, sugerindo/contribuindo e aprendendo a flexibilizar (aguardar o tempo necessário para jogar economias na conta da modicidade tarifária, permitindo amortizar investimento, considerando todos os ativos na base tarifária, mantendo exigências técnicas em níveis razoáveis, etc.), agindo restritivamente somente no que for necessário e essencial e acompanhando as dificuldades do mundo real quando se implementa novas tecnologias capazes de romper com velhos e maus hábitos.

Certamente, teríamos ótimas condições de aprendizado para aprimorar a legislação que regula a distribuição de energia elétrica e torná-la mais adequada a realidade brasileira depois desta primeira rodada de implementações.

Podemos estimar que, além do tempo de planejamento, projeto e licitação, a instalação em campo vai demandar, no mínimo, três anos de obras em campo.

Ao final desta primeira etapa, apenas acompanhando o crescimento vegetativo, teríamos um nível de perda não técnica menos vexatório ou, se quiserem, mais civilizado.

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