Por menos acidentes de trabalho

out, 2009

Edição 45, Outubro de 2009

Por Lívia Cunha

Por menos acidentes de trabalho

Setor elétrico brasileiro investe em uma mudança de cultura para garantir que a saúde e a segurança do trabalho sejam preservadas nos serviços com eletricidade. Tema norteou debates durante o IV Seminário Internacional de Engenharia Elétrica na Segurança do Trabalho (ESW Brasil).

 

Os acidentes de trabalho no setor de energia elétrica estão diminuindo. Em nove anos, de 1999 a 2008, eles caíram aproximadamente 33%, segundo indicadores da Fundação Comitê de Gestão Empresarial (Fundação COGE), entidade de aprimoramento de gestão empresarial do setor elétrico. No entanto, os profissionais da área brasileira de eletricidade concordam que ainda há muito a ser feito a fim de reduzir os índices de acidentes e melhorar a saúde e a segurança dos trabalhadores de empresas do segmento.

 

Essa mudança, percebida pelos trabalhadores e refletida nos indicadores do setor, foi acentuada pela publicação da segunda versão da Norma Regulamentadora nº 10, em 2004. O texto, publicado pelo Ministério do Trabalho e Emprego, substituiu a primeira versão de 1978 e estabeleceu requisitos e condições mínimas de trabalho, com medidas de controle e sistemas preventivos, para garantir a segurança em instalações e serviços com eletricidade. A norma foi determinante para que as empresas se conscientizassem e mudassem posturas de trabalho.

Essas alterações de postura passam, sobretudo, por uma mudança de cultura. Para garantir a segurança e a saúde dos trabalhadores, é preciso mais do que equipamentos e instalações seguras, é necessário que aconteça também uma mudança comportamental. Na opinião do engenheiro eletricista, auditor fiscal do trabalho e coordenador do Grupo de Trabalho Tripartite da Norma Regulamentadora nº 10 (GTT/NR-10), Joaquim Gomes Pereira, o Brasil evoluiu muito nos últimos dez anos no nível de segurança do trabalho. “Hoje, o Brasil está se tornando o líder da América do Sul em conceito de segurança, mas essa melhoria tem que ser contínua”, diz. Isso incluiria mudanças de atitude perante situações de risco.

As duas mudanças, de comportamento e de estrutura, juntas, gerariam uma mudança de cultura, que abrangeria ações responsáveis dentro de um ambiente seguro. Esse é um conceito mais amplo, que deve incluir todos os ramos da empresa, da diretoria ao funcionário operacional.

Acidentes em números

No ano passado, as empresas do setor elétrico registraram 1.752 acidentes. Desses, 409 foram fatais. Dos acidentes que levaram pessoas a óbito, 15 foram típicos, que são aqueles acidentes decorrentes da atividade profissional desempenhada pelo acidentado, subdivididos da seguinte forma: 13 aconteceram em empresas distribuidoras de energia elétrica e 2 em geradoras, transmissoras ou outras companhias.

Ainda sobre os acidentes fatais, 3 ocorreram no trajeto até o trabalho (todos de trabalhadores de companhias distribuidoras); 60 dos incidentes registrados foram com funcionários de empresas contratadas (sendo 54 em distribuidoras contra 6 em geradoras, transmissoras ou outras); e, por fim, 331 das pessoas que perderam a vida por acidentes na rede elétrica eram da população comum (326 ocasionados por distribuidoras e 5 por geradoras, transmissoras ou outras).

A síntese do relatório de estatísticas de acidentes do setor elétrico brasileiro, de 2008, pode ser visualizada no site: http://www.funcoge.org.br/

ESW Brasil 2009

O IV Seminário Internacional de Engenharia Elétrica na Segurança do Trabalho (Electrical Safety Workshop, da sigla ESW Brasil 2009) foi realizado pelo Instituto dos Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE) entre os dias 22 e 24 de setembro, na cidade catarinense de Blumenau, com o apoio das empresas Areva, Eaton e Fluke.

Com objetivo de debater os aspectos técnicos, humanos e gerenciais das empresas, a fim de reduzir os acidentes e gerenciar os riscos com eletricidade, o evento contou com dois minicursos, de caráter técnico, no dia 22, e dois dias de seções técnicas nos quais foram ministradas palestras que abordaram os temas “atuando nas instalações”, no dia 23, e “atuando na gestão”, no último dia.

Com 160 participantes, o ESW reuniu e apresentou uma série de ações que têm sido desenvolvidas por todo o Brasil para aumentar a segurança no mercado de eletricidade. Um exemplo disso foi o protótipo apresentado pela Companhia Energética do Ceará (Coelce) para bloqueio de chaves seccionadoras em rede aérea de distribuição. Como não há no mercado uma solução que atenda às necessidades da empresa, a Coelce desenvolveu uma peça sinalizadora e disponibilizou o equipamento para os participantes e empresas interessados.

O engenheiro eletricista Harley Albuquerque, da Coelce, que fez a apresentação da palestra, comentou que “a proposta maior é a segurança das pessoas. O principal é preservar a vida”, por isso, disponibilizou o protótipo para interessados e para aprimoramento.

Além da Coelce, palestraram também profissionais da Elektro, de São Paulo e Mato Grosso do Sul; da Celesc, de Santa Catarina; da Cemat, do Mato Grosso; da Copel, do Paraná; do Instituto Brasileiro do Cobre (Procobre), da Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel) e mais outras empresas e entidades.

O saldo, para o engenheiro Fernando Bernardes, coordenador geral do ESW Brasil 2009, foi positivo, pois, apesar de contratempos que a organização passou, o evento atingiu as expectativas. “Tivemos grandes dificuldades na organização, com as chuvas do fim do ano passado e a crise econômica”, explicou Bernardes. Entretanto, com a retomada da economia, o evento ganhou forma. “O saldo foi positivo, o público presente participou ativamente dos debates, não só assistiu”, pontuou. Dessa forma, a organização considerou que o principal diferencial da quarta edição do evento foi a troca de experiência entre os participantes em especial nas seções técnicas.

Agora, o IEEE se prepara para a quinta edição do ESW Brasil, que é bianual e que acontecerá em Salvador em 2011.Comportamento pela vida

Este é o nome de um projeto da Elektro, que foi apresentado no dia 24 de setembro durante o ESW Brasil, e que vai ao encontro do objetivo do evento, de promover uma mudança de cultura referente à segurança em eletricidade.

 


 

O Programa “Comportamento pela Vida”, pensado para estimular e fortalecer uma cultura de segurança e valorização da vida na empresa, surgiu da análise do histórico de afastamentos de funcionários acidentados. Em dois anos, 2007 e 2008, foi observado que cerca de 70% dos casos tiveram como causa situações relativas à questão comportamental. Situações que poderiam ter sido evitadas, como dirigir um veículo em área industrial sem atenção.

 

A concessionária então realizou uma pesquisa para mapear o nível de maturidade da cultura de segurança da empresa, a fim de traçar as estratégias para o programa que seria lançado. O “Comportamento pela vida” busca uma mudança na mentalidade de trabalho, utilizando o protagonismo dos colaboradores e reforço positivo, reconhecendo o esforço pelo comportamento desejado. Com isso, fará “todos
os colaboradores passarem a observar os riscos de sua atividade diariamente e conseguirem, a partir desta observação, desenvolver comportamentos que garantam a segurança em todos os momentos”.

 

Foi desenvolvida uma metodologia que objetiva uma mudança de foco da organização, saindo de uma preocupação em evitar acidentes de trabalho e corrigir comportamentos de risco para o foco no incentivo a comportamentos que garantam a vida, valorização do que é positivo e construção de um ambiente de comunicação construtiva. Foram organizadas palestras de sensibilização para os colaboradores e criada a “Equipe Guia”, composta por 17 funcionários de diversas áreas, que é um grupo de líderes responsáveis por auxiliar na redução dos acidentes e no cultivo da segurança na empresa. Depois de um preparo específico, a equipe identificou os 20% do total de comportamentos responsáveis por 80% dos acidentes que possuem causas comportamentais na organização e, assim, poderiam ser evitados.

 

O engenheiro de distribuição da Elektro Lauro Fernando Ribeiro, integrante da Equipe Guia e palestrante no ESW, comenta que “é a mudança comportamental que a empresa tem que procurar” se quer ter uma política eficiente de saúde e segurança no trabalho. Como o projeto é recente e a mudança gradual, Ribeiro explica que os resultados ainda não são possíveis de serem mensurados, mas o retorno que colaboradores têm dado sobre as impressões sobre o “Comportamento pela vida” tem sido animador, conclui.

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