“Pibinho” e “Elasticidadezona”

mar, 2013

Edição 85 – Fevereiro 2013

Por José Starosta

Aspectos do uso de energia e crescimento econômico

 Os aspectos de uso de energia estão intimamente relacionados ao comportamento da economia e um dos principais indicadores que medem o comportamento da economia nos países é o PIB (produto interno bruto) que representa, em definição bem simplificada, o volume produzido por produtos e serviços em um período. Em nosso caso trataremos o PIB anual do Brasil em nossa moeda corrente, o real (R$).

Um dos indicadores utilizados para se avaliar o desempenho e o comportamento da eficiência energética nos países é a chamada elasticidade energética, definida como a relação da variação do consumo de energia em um período e a variação do PIB (ou crescimento econômico) neste mesmo período. A elasticidade energética, ou simplesmente elasticidade, é um indicador que deriva de outro indicador bastante aplicado, o da “intensidade energética” que é definida como a relação da energia consumida (em geral no ano) pelo PIB do mesmo período. A intensidade energética pode ser expressa, por exemplo, em GWh/R$. Matematicamente, pode-se definir o conceito do indicador elasticidade (E) como:

 

E=ΔW/ΔPIB

 

Em que:

ΔW é a variação percentual de energia em um período (ano);

ΔPIB é a variação percentual do PIB no mesmo período ao da variação da energia.

Por se tratar de uma relação entre duas “variações”, o indicador elasticidade é evidentemente adimensional.

Como andam nossos números

A análise do comportamento destas duas variáveis no Brasil, no caso anual, com a ajuda das pesquisas e dados estatísticos da EPE (energia) e IBGE (PIB) nos conduz a algumas informações interessantes.

A Figura 1 apresenta o comportamento da variação do consumo anual de energia elétrica segmentado entre os principais setores (industrial, comercial, residencial e outros). O comportamento da variável “Brasil” traduz o total dos outros setores. 

Como pontos de análise da Figura 1, pode-se observar a redução de consumo em 2001, ano do racionamento de energia elétrica, com importante contribuição do setor residencial; ou o crescimento do consumo na indústria em 2010, por conta da recuperação daquele setor após a crise de 2009.

Em 2012, o setor industrial se manteve estagnado com variação próxima a zero, o setor residencial com aumento de 5% e o comercial e serviços com 7,9%. A variação total do Brasil ficou em 3,5% com valores absolutos de consumo de energia elétrica em 2012 um pouco acima de 448 TWh/ano. A Tabela 1 apresenta, em valores absolutos, o consumo de energia.

 

Tabela 1 – Consumo anual de energia elétrica da rede – 2011 e 2012  Fonte: EPE

 

Tabela 1 – Consumo anual de energia elétrica da rede – 2011 e 2012  Fonte: EPE

 

A outra variável desta análise refere-se ao comportamento do PIB (variação anual), conforme o gráfico da Figura 2.

 Figura 2 – Variação do PIB anual no Brasil.  Fonte: IBGE

O desafio das economias sustentáveis é o de manter o índice de elasticidade menor que 1, ou seja, buscar resultados e incremento na economia com menor consumo de energia de forma que a variação do consumo de energia em um determinado período seja menor que a variação do PIB neste mesmo período.

Tomando-se a variação da energia consumida no Brasil ano a ano, e o respectivo PIB, e assumindo-se uma mesma referência (100) no ano de 1995, encontra-se o comportamento apresentado no gráfico da Figura 3.

Da análise deste gráfico, observa-se a redução do consumo de energia em 2001 (racionamento) e em 2009 (reflexo da crise americana). Em 1998 e 2009, a variação do PIB foi negativa.

 

 

Figura 3 – Variação anual do consumo de energia elétrica e variação anual do PIB no Brasil desde 1996.  Fonte: EPE (energia) e IBGE (PIB). Base 1995 -243.074 GWh.

 

Outras observações interessantes sobre o gráfico da Figura 3 são:

• O país demorou três anos para voltar a ter o consumo de energia de antes do racionamento, mesmo com o incremento do PIB;

• No ano de 2001, mesmo com variação negativa do consumo de energia, o PIB variou positivamente;

• Após 2001, nota-se a tendência de descolamento das curvas, com mudança da tendência na crise de 2009, voltando então a descolar na sequência.

• E, por fim, em 2012, o PIB estacionou e o consumo de energia seguiu sua subida contínua, rumo ao crescimento e tendência de novo descolamento das curvas.

 

A relação entre as variações de cada período do gráfico da Figura 3 é apresentada no gráfico da Figura 4, em que se pode avaliar a elasticidade.

 Figura 4 – Elasticidade – Consumo de energia elétrica e PIB anual – Brasil – 2000-2012

Os comentários do gráfico da Figura 4 são praticamente os mesmos da Figura 3, contudo, nota-se que o racionamento de 2001 permitiu uma eficácia maior do uso da energia realizada pelas ações individuais de cada consumidor. Na sequência, foi-se aumentando o consumo e fomos perdendo eficiência. Em 2003, retomou-se um processo de melhor uso da energia que se manteve até 2008. Em 2009, houve um pico de desperdício.

O valor próximo a 4 do recém terminado 2012 se equipara ao de 2009 (época da crise) e 2003 (quando o Brasil voltou a consumir energia passado o racionamento).

Informações da EPE publicadas recentemente em sua “resenha mensal” de janeiro de 2012 justificam este resultado como consequência da não linearidade entre variação de consumo e PIB. Em outras palavras, quando a economia apresenta resultados desfavoráveis, a elasticidade tende a ser maior. O gráfico é reproduzido na sequência.

 

Figura 5 – Relação entre consumo de energia e PIB

Fonte: EPE – Resenha mensal do mercado de energia – Jan/2012.

 

Algumas conclusões

 

Avaliando-se novamente a Tabela 1, observa-se que os setores responsáveis pelo aumento do consumo de energia foram o comercial e o residencial. Este último, claramente compreensível pelos fenômenos sociais, como a ascensão de classes sociais com consequências, como o aumento de consumo de energia por novos eletrodomésticos (ainda incentivado pela redução do IPI da linha branca) e outros bens de consumo e de capital (como automóveis não referenciados neste artigo, mas certamente trazem impacto semelhante no consumo de combustíveis fósseis).

Há de se considerar ainda o aumento de consumidores residenciais em função da regularização promovida pelas concessionárias com o uso do programa de eficiência energética da Aneel voltado para a baixa renda. O que antes era “perda técnica” passou a ser “consumo do setor residencial”, mesmo que o índice de inadimplência destes novos “ingressantes” no mercado consumidor de energia seja altíssimo (até 80%), como relatado por fonte de uma distribuidora de energia paulista. De qualquer forma, o consumo passa a ser registrado enquanto o consumidor se mantiver ligado.

Ainda no setor residencial, os gráficos das Figuras 6 e 7 apresentam o forte consumo do setor residencial nos últimos anos. As informações de população foram obtidas do site do IBGE. Em menos de 20 anos, nosso consumo médio residencial subiu quase 50%. Neste caso, outros programas sociais como o “Luz para todos” aumentou o número de residências atendidas com energia elétrica.

 

Figura 6 – Consumo anual de energia elétrica no setor residencial – Brasil.

 

 

Figura 7 – Consumo anual de energia elétrica por habitante – setor residencial – Brasil.

O forte incremento de consumo de energia do setor comercial (serviços) pode ser justificado por novas áreas de shoppings e áreas de infraestrutura urbana como os aeroportos. O resultado operacional do comércio de varejo também subiu, justificando o aumento do consumo de energia elétrica como importante insumo.

A indústria se manteve estagnada sob ambos os pontos de vista (energia e PIB).

Medida provisória n. 579/2012

A medida provisória n. 579/2012 determinou a redução do custo de energia a partir de 2013 após um forte movimento dos setores da indústria que reivindicavam melhores condições para a obtenção de redução de seus custos com vistas à necessidade de aumento da produtividade e competividade frente ao mercado externo.

Ocorre que, contrariando o que seria esperado pela medida provisória, os setores mais beneficiados pela redução tarifária foram justamente aqueles que mais gastaram: o residencial, o comercial e algumas pequenas indústrias ligadas como consumidores cativos.

As indústrias de base e os grandes consumidores de energia, que possuem seus contratos de energia elétrica atrelados ao mercado livre não serão beneficiados da mesma forma, pondo abaixo as esperanças iniciais de redução de custos operacionais. O esvaziamento dos reservatórios em função da seca e a entrada em operação das usinas térmicas de emergência contribuem para esta esdrúxula situação. 

A contradição se completa quando justamente os setores que mais consomem energia ganham (sem pedir) um belo presente que certamente os possibilitará a continuar na tendência do aumento de consumo. 

Está claro que estes setores (e também o industrial que certamente voltará a crescer) merecem e precisam de um choque em suas áreas de gestão de energia, de forma a corrigir esta tendência que nos levará à necessidade de investimentos em novas fontes que podem ser reduzidos, afinal, o custo da energia conservada em projetos de eficiência energética é significativamente inferior ao de novas fontes e usinas.

  

Referências:

 

EPE, em www.epe.gov.br;

IBGE, em www.ibge.gov.br;

Eletrobras, em www.eletrobras.com;

Abesco, em www.abesco.com.br

 

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