Perdas técnicas e não técnicas: por que não temos uma performance melhor?

ago, 2014

Edição 102 – Julho de 2014
Por Luiz Fernando Arruda 

Tempos de adversidade trazem a necessidade de mudanças e de criatividade para serem navegados. Em meados de julho, a Fundação Coge (Funcoge) patrocinou um Workshop sobre perdas não técnicas e, durante dois dias, pudemos contar com a experiência de muitos renomados professores e profissionais que atuam de forma direta ou indireta com o tema.

Para ir direto ao ponto (ainda sem passar pelas causas e tratamentos adequados), vamos falar dos números que expressam a questão das “perdas” no Brasil:

  • Perda total: 94,2 GWh / ano (base 2013), o que equivale a 17% de toda a energia requerida no Brasil;
  • Perda não técnica: 27,94 GWh / ano (deste montante, caso projetemos uma perda zero, um consumo próximo de 9 GWh / ano seria evitado). Dependendo dos valores considerados e se relativos a baixa ou média tensão, este valor passa dos R$ 6,5 bilhões por ano.
  • Perda na rede básica: 26,6 GWh / ano e com comportamento crescente.

As perdas da rede básica não dependem de qualquer gestão das empresas de geração, transmissão e distribuição, já que cabe ao Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a gestão deste sistema.

Nos últimos dez anos, o comportamento das perdas globais em termos percentuais vem se mantendo na casa dos 17%, com leve tendência de alta. Nota-se que as perdas não técnicas também vêm se mantendo estáveis (não obstante alguns excelentes resultados pontuais, devidamente apagados por outros de performance inadequada), o que mostra de forma clara que algumas coisas precisam ser alteradas.

Não há como combater perdas não técnicas apenas com inspeções em campo, pois isso, em algumas empresas, demandaria batalhões de inspetores – os quais, após reduzirem as perdas, seriam demitidos e participariam do mercado, mas no sentido inverso.

Portanto, há consenso que precisamos de um “mix” de mão de obra e tecnologia (automação e redes que apresentem algum grau de dificuldade para serem acessadas para execução de ligações clandestinas).

As redes “especiais” são necessárias, infelizmente, dado o elevado grau de problemas de urbanização e de ausência de atuação do Estado (desordem geral). A automação se faz necessária, pois com as redes com algum grau de blindagem, a medição tem de ser protegida de forma também a dificultar acesso a ela e a outros pontos de energia não medidos.

O contraponto é que cada vez que se fala em automação, apenas a diminuição de perdas pode justificar os investimentos por parte das concessionárias de distribuição; e com a consequente redução das perdas, há a captura dos ganhos em prol da modicidade tarifária no processo de revisão que ocorre a cada período. Geralmente, esta compensação ocorre antes que haja tempo para o devido retorno sobre o investimento.

Assim, o primeiro ponto de mudança nos parece ser exatamente este: garantir aos investidores (afinal, são eles que promovem mudanças e assumem riscos dentro de regras plausíveis e estáveis) o necessário tempo para amortizar os investimentos. Mesmo que seja projeto a projeto, empresa por empresa, mas precisamos sair do marasmo em que estamos se queremos que alguma coisa se altere em termos de energia jogada fora.

Podemos dissecar um pouco mais estes números. Faremos isso no nosso próximo encontro.

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