Painel de Mercado

fev, 2010

Por Lívia Cunha – 22 de Fevereiro de 2010

 

A causa do apagão

ONS apresenta relatório final que explica os motivos que levaram ao blecaute de novembro de 2009

 

Pouco mais de um mês após o blecaute que atingiu 60 milhões de pessoas em 18 Estados brasileiros, acontecido no dia 10 de novembro de 2009, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) divulgou o relatório final sobre a análise dos acontecimentos. O Relatório de Análise da Perturbação (RAP) foi apresentado pelo diretor geral do ONS, Hermes Chipp, no dia 16 de dezembro na Câmara dos Deputados, no Congresso Nacional.

 

Na avaliação do Operador aconteceram três curtos-circuitos monofásicos praticamente simultâneos que foram reconhecidos pelo SIN como um curto trifásico. Esse evento provocou a interrupção de 40% da carga total do sistema. Na síntese do relatório, Chipp afirmou que o incidente foi “altamente improvável” e que, por isso, “o blecaute foi inevitável”.

 

Acontecimentos

Às 22h13 do dia 10 de novembro houve a sequência de curtos que envolveram a linha de transmissão Itaberá – Ivaiporã de 765 kV (circuitos C1, C2 e C3). Isso provocou a rejeição de 5.564 MW gerados pela usina hidrelétrica de Itaipu em 60 Hz e a abertura dos circuitos remanescentes da interligação Sul-Sudeste, em 525 kV, 500 kV, 230 kV e 138 kV. Houve, ainda, a rejeição de 2.950 MW do fluxo Sul-Sudeste e o desligamento de dois bipolos do sistema de transmissão em corrente contínua em alta tensão, que, no momento, estava em 5.329 MW.

 

Em sequência, outros desligamentos ocorreram, fazendo 24.236 MW de cargas do SIN serem totalmente interrompidas. Essa carga representava 40% do total em operação do sistema. A região que mais sentiu essa interrupção foi o Sudeste, que ficou sem 22.468 MW; seguida do Centro-Oeste que perdeu 867 MW; depois a região Nordeste com 802 MW; o Sul com 104 MW; e, por fim, a região Norte, com os Estados do Acre e de Rondônia, que perderam 195 MW.

Detalhes da perturbação

Iniciada por uma falta monofásica na linha de transmissão 765 kV Itaberá – Ivaiporã C1, durante condições climáticas adversas, passou a ocorrer, nos instantes seguintes, outra falta monofásica no C2 e, logo após, ainda com as duas primeiras faltas presentes, ocorreu uma terceira falta monofásica localizada na Barra A de 765 kV da subestação Itaberá. Como as faltas ocorreram quase que simultaneamente, o sistema entendeu que tinha ocorrido um curto-circuito trifásico envolvendo a terra, na subestação de Itaberá, até o momento em que foi iniciado o processo de recuperação e eliminação dos defeitos, com a retirada dos componentes afetados.

 

A falha na linha Itaberá – Ivaiporã C1 foi controlada pela eliminação e atuação das proteções principais e alternadas de distância; a no C2 pela atuação das proteções de sobrecorrente direcionais, em ambos os terminais; e, por fim, a falha na Barra A de 765 kV, da subestação de Itaberá, pela atuação da proteção diferencial de barra local. Instantes após a eliminação da última falta, a proteção contra sobrecorrente instantânea residual do reator “shunt” da linha de transmissão 765 kV Itaberá – Ivaiporã C3, em Ivaiporã, também atuou, provocando o desligamento dessa linha e interrompendo totalmente a conexão entre as subestações de Itaberá e Ivaiporã.

 

Nesse meio tempo, foram desligadas, na usina hidrelétrica de Itaipu, em 60 Hz, cinco unidades geradoras das nove que estavam em operação. Isso fez 3.100 MW gerados serem rejeitados, devido à atuação das lógicas 15 e 8 do Esquema de Controle de Emergência (ECE) do tronco de 765 kV, devido à perda tripla nesse tronco de 765 kV, ocorrida no trecho entre as subestações de Itaberá e Ivaiporã. Esse desligamento provocou o ilhamento e a preservação da região Sul.

 

Por conta dessa sequência de eventos, ocorreu a abertura da linha de transmissão de 500 kV Bateias – Ibiúna C1 e C2 por sobrecarga e oscilação de potência entre os subsistemas Sul e Sudeste. Com isso, houve uma elevação da frequência no subsistema Sul a 63,5 Hz e redução no subsistema Sudeste a 58,3 Hz.

 

Nos instantes seguintes ocorreram, principalmente nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, desligamentos de unidades geradoras e de diversas linhas de transmissão. As linhas foram desligadas pela atuação das proteções de distância, em decorrência da oscilação de potência experimentada pelo Sistema. Devido à elevação de frequência na Região Sul, em taxa elevada, ocorreu a abertura da linha de transmissão de 765 kV Foz do Iguaçu – Ivaiporã C1, C2 e C3, por atuação da lógica 4 do ECE do tronco de 765 kV, isolando a Usina de Itaipu, em 60 Hz, que permanecia até então conectada ao Sistema Sul.

 

Pelos mesmos motivos e pela atuação das proteções, também foram desligadas as linhas de Interligação do SIN do Mato Grosso do Sul com as regiões Sul e Sudeste, levando este Sistema ao colapso.

 

O distúrbio ocorrido no sistema provocou colapso nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul e atuações do Esquema Regional de Alívio de Carga (ERAC), rejeitando cargas na Região Nordeste e áreas de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Acre e Rondônia, estas duas últimas após a separação do Sistema Sudeste/Centro-Oeste, formando uma ilha em torno da usina hidrelétrica de Samuel e da Termonorte II, ambas em Rondônia.

Causas

As equipes técnicas do ONS consideraram duas hipóteses como causadoras do blecaute, sem uma conclusão definitiva de um único acontecimento. Pelos registros gráficos e de imagens dos equipamentos afetados, foi considerado que o apagão pode ter sido provocado por descargas atmosféricas ou pela redução da efetividade dos isoladores submetidos às condições meteorológicas adversas, como chuvas intensas e ventos. Os técnicos consideram a possibilidade de esses eventos terem ocorrido juntos ou isoladamente.

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