Os primeiros 10 GW

set, 2016

Caderno Renováveis – Agosto de 2016
Por Flávia Lima

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A fonte eólica, que engatinhava em meados dos anos 2000, com uma capacidade instalada modesta de 27 MW, alcançou números surpreendentes na década seguinte. Práticas de fomento à fonte, especialmente a organização dos leilões de energia, além do desenvolvimento da tecnologia no país, permitiram o crescimento da sua participação na matriz elétrica nacional, que chega a 7,5% no final do mês de agosto de 2016 com a marca histórica de 10 GW de capacidade instalada.

A energia eólica é hoje a fonte de maior competitividade no país, tendo em vista o seu preço atrativo e a ausência de investimentos em grandes projetos hidrelétricos atualmente. Nos últimos anos, cerca de 50% dos contratos oriundos dos leilões de energia foram provenientes da fonte eólica e a expectativa é de que os certames continuem favorecendo a energia dos ventos somados ao aumento da demanda em consequência da retomada do crescimento econômico.

O Brasil já é um dos maiores produtores de energia eólica do mundo. De acordo com o relatório anual divulgado pelo Global World Energy Council (GWEC), a capacidade instalada brasileira de energia eólica tem apresentado crescimentos que se destacam na América Latina e também no ranking mundial da instituição. O 2015 Global Wind Market Report, divulgado em abril deste ano, mostrou que, em 2015, foram adicionados 2,75 GW de energia eólica à produção do país, com novas 1.373 turbinas distribuídas em 111 parques eólicos, superando a marca dos 2,5 GW instalados em 2014.

No aspecto mundial, o documento afirma que 2015 foi “um ano sem precedente para a indústria eólica, já que as instalações do ano passaram a marca de 60 GW pela primeira vez na história”. O último recorde havia sido em 2014, quando 51 GW foram instalados no mundo todo.

O Brasil tem alguns dos melhores ventos do mundo, três vezes superior à necessidade de eletricidade do país. No ano de 2015, o recorde de geração eólica do Brasil foi quebrado por produzir 10% da demanda nacional de energia no dia 2 de novembro, evidenciando ótima performance operacional. Outra marca importante alcançada foi o registro de mais um recorde diário, quando o Sistema Interligado Nacional (SIN) computou a produção de 4.877 MWmédios no último dia 30 de junho. Nesse mesmo dia, a energia eólica na região Nordeste do Brasil registrava o maior valor do ano, com 4.606 MWmédios, sendo 353 MWmédios acima do recorde anterior, verificado um dia antes.

Para se ter uma ideia, em 2015, foram investidos US$ 286 bilhões em energias renováveis no mundo. As fontes que mais cresceram foram eólica – com acréscimo de 63 GW de energia eólica à capacidade de geração total – e solar – com incremento de 47 GW.

No Brasil, apenas a energia eólica, no ano passado, abasteceu uma população equivalente a toda a região Sul do país, recebeu investimentos da ordem de R$ 20 bilhões e gerou 41 mil empregos.

Estas e outras informações foram ratificadas pela presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum, que, em entrevista exclusiva ao suplemento RENOVÁVEIS – Energias complementares, afirmou que a capacidade instalada eólica no país alcance 20 GW até o ano de 2020. Na ocasião da entrevista, a energia eólica batia os 9,9 GW com a segurança de chegar aos 10 GW até o final do mês de agosto de 2016, distribuídos em cerca de 400 parques eólicos pelo país.

Gostaria de começar a entrevista com uma boa notícia: já alcançamos os 10 GW de capacidade instalada?

Estamos, atualmente, perto de 9,9 GW de capacidade instaladaem 399 parques eólicos, mas devemos alcançar este número de 10 GW próximo ao final do mês, por volta do dia 29 ou 30 de agosto.

Qual a estimativa mais realista da Abeeólica para os próximos anos?

De toda a energia que já foi contratada por meio dos leilões até 2015, chegaremos a 2019 com 18,5 GW de capacidade instalada. Isto é real e está em contrato. Em se tratando de estimativa, devemos alcançar 20 GW em 2020. Temos um leilão ainda neste ano e outro em 2019 e os resultados desses certames podem muito bem superar esta estimativa.

Existe crise para o setor eólico brasileiro?

Ainda não existe crise para o setor eólico porque este setor está vivendo as decisões tomadas há três, quatro anos, e que estão sendo concretizadas agora. Neste ano de 2016, já sentimos um pouco mais de dificuldades pelo resultado das decisões de 2015. Agora, o país já está em processo de retomada, de recuperação econômica, logo, poderemos passar pela crise sem senti-la efetivamente.

Assim como está acontecendo com a fonte solar, a eólica, também no seu início, enfrentou problemas de preço, especialmente, por conta dos equipamentos importados. Qual o cenário atual? Já contamos com uma indústria nacional significativa de peças e componentes para este mercado?

Na realidade, o contexto da energia eólica é muito diferente do cenário vivido pela solar. O primeiro leilão de eólica ocorreu em 2009, então, desde essa data, os fabricantes já se preocuparam em produzir nacionalmente os equipamentos para atender à necessidade das usinas eólicas. Além disso, o índice de nacionalização requerido para financiamento era de 60% e o dólar estava baixo, logo, se precisássemos, era possível comprar equipamentos importados com mais tranquilidade. Hoje, a situação é outra. O BNDES exige 80% de nacionalidade dos equipamentos e com o câmbio alto, a indústria nacional é mais competitiva com relação à importação.

Como fonte complementar, você acredita que a fonte eólica (com ajuda da solar) pode substituir plenamente as térmicas em períodos de estiagem?

O conceito de complementaridade vai continuar por um longo tempo e o conceito de alternativo nunca deveria ter sido usado, no sentido de colocar uma coisa em detrimento de outra. As fontes renováveis têm um potencial muito grande de crescimento justamente porque os recursos hídricos estão se esgotando e elas são altamente competitivas em relação às outras fontes. Mas elas não vão substituir, mas sim trabalhar em complementaridade.

ed-127_renovaveis-eolica_fig-2Quais conquistas tributárias importantes já foram alcançadas pelo setor? E qual o trabalho da Abeeolica no sentido de impulsionar a fonte?

O Brasil tem políticas industriais, como isenção de ICMS, PIS e Cofins para alguns casos, não necessariamente para a eólica. O que ocorre é que o setor tem buscado essas isenções, que já existem, também para a indústria eólica. O conceito de regulação para a eólica é muito novo. A nossa competitividade não é resultado de uma política específica porque ela, por si só, é competitiva, sustentável e abundante. Não faz sentido buscar subsídios o tempo todo.

A energia eólica cresceu muito rapidamente. Você imaginava que esse avanço seria tão rápido?

Tínhamos certeza do crescimento, mas não imaginávamos que isso fosse acontecer tão rápido. Ao longo do caminho, fomos descobrindo questões importantes que nos proporcionaram esse crescimento tão acelerado e nos dão expectativa de mais crescimento ainda. Estamos falando em cinco, seis anos de rápida evolução para representarmos hoje 7,5% da matriz nacional com os 10 GW de capacidade instalada e a estimativa é de que sejamos a segunda principal fonte do país a partir de 2020 com os 20 GW.

Com o custo de produção muito competitivo, a fonte eólica passou a ter o maior potencial do Brasil. Enquanto a fonte hidrelétrica possui 260 GW, a eólica tem 500 GW de potencial. Atualmente, o país tem 160 GW instalados, ou seja, temos, em potencial eólico, três vezes, em média, a necessidade do Brasil.

No caso da mini e microgeração, a fonte solar destaca-se pela sua facilidade de ser instalada sobre telhados, por exemplo. Com a eólica, é mais difícil ser autoprodutor. Você acha que a eólica pode também crescer nesse ambiente?

A microgeração tem um potencial muito grande especialmente para solar. O grande potencial da energia eólica está em projetos de grande porte, com grande escala. A solar é mais competitiva na mini e microgeração. O vento ideal não é encontrado em qualquer lugar, diferente do sol, que pode ser encontrado em todo lugar. Mas isso não impede que, em algumas situações, você consiga fazer eólica de pequeno porte.

A transmissão chegou a ser um dos grandes obstáculos para o setor eólico. Como está essa situação hoje? Ainda existem parques eólicos sem conexão?

A transmissão já foi gargalo, agora passou a ser desafio. A transmissão é bem mais lenta do que a construção dos parques e, por isso, desde 2013, os regulamentos foram refeitos de modo que a transmissão fosse leiloada primeiro. Desses 10 GW, temos apenas 300 MW resultantes ainda desse modelo anterior. Hoje, a transmissão é um desafio porque precisamos colocar os leilões em dia para atender aos parques eólicos, isso porque, atualmente, é o projeto que, às vezes ainda fica no papel aguardando e não mais a construção em si.

Tendo em vista o cenário econômico atual, como você avalia o comportamento dos investidores nesse setor? As condições de financiamento são a principal dificuldade ou o setor se esbarra também na falta de confiança dos investidores?

Agora, com o leilão agendado, está havendo uma correção da expectativa desfavorável que apresentávamos no começo do ano. Se o país não cresce, logo, a demanda por energia também não cresce. Por este motivo, inclusive, é que a contratação deste ano será menor do que a do ano passado, por conta do cenário econômico. Com a portaria do leilão, os investidores já mudaram de opinião e se mostram mais otimistas. Estamos trabalhando para vender 2 GW neste ano no leilão. Além disso, estive com o BNDES recentemente e as políticas continuam as mesmas. O banco continuará apoiando as empresas de energia porque entende que as renováveis são prioridades para o país.

Por fim, o setor eólico é um grande gerador de empregos. Quais são os números de empregos criados? E como anda a qualificação da mão de obra neste setor?

A fonte eólica possui uma indústria que gera muito emprego. Considerando que a cada 1 GW são gerados 15 mil postos de trabalho e nossa estimativa é instalar 2,5 GW por ano, esses números correspondem a 40 mil novos empregos a cada ano, desde a fabricação de equipamentos à instalação, operação e manutenção. A capacitação é diferente em cada momento da cadeia. Tivemos alguma dificuldade com mão de obra no início, mas à medida que foi se criando uma demanda, o mercado foi se qualificando. Para isso, também foram estabelecidos convênios com entidades, como o Senai, CTGAS-ER (no Rio Grande do Norte) e outras.

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