Os desafios para a continuidade do crescimento da energia eólica

nov, 2016

Caderno Renováveis – Setembro de 2016
Por Flávia Lima

Em um dos principais eventos do setor, os agentes comemoraram a marca emblemática de 10 GW de capacidade instalada e sinalizaram os próximos desafios a serem superados: demanda, transmissão e financiamento.

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A sétima edição do Brazil Windpower, um dos mais importantes eventos de energia eólica da América Latina, reuniu as principais autoridades do setor, membros do governo e agentes de empresas públicas e privadas deste mercado para comemorar a marca dos 10 GW de capacidade instalada da fonte no país e discutir o futuro da energia eólica. Entre os dias 30 de agosto e 1º de setembro, mais de 2.800 pessoas participaram do evento, que foi constituído por um congresso e por uma área de exposição, a qual registrou a presença de 110 expositores.

Como O Setor Eletrico antecipou na última edição, a energia eólica já representa 7% da matriz elétrica brasileira e acaba de atingir 10 GW de capacidade instalada em cerca de 400 parques eólicos e mais de 5200 aerogeradores em operação. No ano passado, a energia eólica abasteceu mensalmente uma população equivalente a todo o sul do país e gerou 41 mil postos de trabalho. Já considerando os contratos assinados, a fonte chegará a 2020 com a capacidade instalada de 18,4 GW, mas a meta do setor é que este número chegue a 20 GW com os próximos leilões e com a popularização da geração distribuída.

Sobre a construção dos próximos 10 GW, a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum, afirmou, durante o evento, que existem alguns obstáculos a serem superados neste momento. “Enfrentamos problemas de logística de transporte com os equipamentos evoluindo e ficando cada vez maiores. Isso porque o Brasil ainda não tem uma infraestrutura satisfatória para transporte”, afirma. A executiva reconhece que o setor ainda precisa evoluir no que diz respeito à pesquisa e desenvolvimento e também deve conquistar uma fatia maior do mercado livre de energia, assim como continuar investindo em capacitação profissional.

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Segundo a presidente da Abeeólica, além desses fatores mencionados, há três principais entraves que preocupam o setor e que precisam ser esclarecidos para garantir o crescimento da fonte. O primeiro diz respeito à demanda. Para Elbia, demanda é sinal de investimento e, com toda essa discussão de sobra de energia, não está claro o quanto o país terá de demanda nos próximos anos. A segunda dificuldade diz respeito à transmissão, que, segundo a executiva, já foi um gargalo muito grande no passado, e hoje se mostra como um desafio. “É preciso revisitar o modelo de transmissão de energia no Brasil. Para este próximo leilão, por exemplo, estamos preocupados com a margem de escoamento que teremos para os projetos previstos”, afirma. O terceiro ponto refere-se ao financiamento. “Temos sentido sinais importantes e positivos do BNDES, mas esta é ainda uma grande preocupação do setor”, avalia.

O diretor executivo do Operador Nacional do Sistema (ONS), Luiz Eduardo Barata, disse que as são inúmeras as vantagens das fontes renováveis, mas ponderou: “elas também têm algumas desvantagens, como o fator intermitente e o seu rápido crescimento na geração distribuída, fatores que tornam menos previsíveis as condições de operação do sistema”. Para ele, essa situação torna obrigatório o aprimoramento dos métodos atuais de previsão de geração das renováveis para não impor riscos à operação do sistema. “O planejamento e a operação devem trabalhar completamente sintonizados para assegurar que o sistema opere de maneira confiável”, reitera.

Elbia aproveitou a ocasião para criticar a carência de uma política energética que confira clareza ao setor elétrico brasileiro. “O segredo do Brasil é o recurso que temos. E a política é que não temos política. Mas temos o mercado. Na ausência de política, o mercado reagiu.

Estamos em um momento bom e conseguimos bons resultados por competência do mercado”, declarou.

A executiva, no entanto, defendeu o estabelecimento de política energética adequada para sinalizar o investidor, que precisa de planejamento e de garantias de longo prazo. “Sinto um clima de oportunidade para pensarmos em longo prazo. O Brasil tem servido de exemplo para o mundo como um modelo de sobrevivência e modelo de contratação de energia. Mas estamos preocupados com a pouca prioridade da lógica de sustentabilidade em detrimento da lógica econômica e política”.

Nesse ponto, o diretor de Estudos de Energia Elétrica da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Amílcar Guerreiro, discordou e defendeu as políticas que já existem ou existiram para o setor, como de fomento à hidroeletricidade, nuclear, álcool, mesmo para o modelo de contratação dos leilões. “Existe política, mas ela precisa ser aprimorada”, admite. “A GD trará também desafios e deve mudar bem a estrutura que conhecemos hoje”, acrescenta.

A energia eólica em números

O Brasil foi o quarto país em crescimento de energia eólica no mundo em 2015, considerando os números de capacidade instalada, atrás da China, dos Estados Unidos e da Alemanha. Os dados são do Global World Energy Council (GWEC), que revelou ainda que o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo, em percentual.

Segundo o “Boletim de Energia Eólica Brasil e Mundo – Base 2015”, divulgado no mês de agosto de 2016 pelo Ministério de Minas e Energia (MME), o Brasil subiu sete posições nos últimos dois anos, ocupando hoje o oitavo lugar em geração, representando cerca de 3% de toda a produção eólica mundial.

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O bom momento da energia eólica no Brasil pode ser explicada pela ótima qualidade dos ventos brasileiros e também pelo forte investimento das empresas que, nos últimos cinco anos, construíram uma cadeia produtiva nacional importante para garantir o aproveitamento do grande potencial do país.

O Leilão de Reserva também é um instrumento importante para planejamento estratégico do setor elétrico brasileiro considerando segurança do sistema “Em dezembro, teremos um momento muito importante para o setor neste ano: o Leilão de Reserva. A contratação de energia eólica neste leilão será vital para dar um sinal de investimento para toda a cadeia de energia eólica, formada recentemente e num investimento que já passa dos R$ 48 bilhões nos últimos seis anos. Os contratos que temos assinados sustentam a cadeia até 2020, como se vê no gráfico acima, mas é necessário fazer novas contratações para manter a cadeia ativa e o setor crescendo de forma sustentável”, explica Elbia.

A executiva explica ainda que as discussões sobre sobra de energia dizem respeito, na verdade, a sobras de contrato, de papel, e não de garantia física. “Quando se olha apenas a garantia física, o que pode ser efetivamente gerado, o que existe de sobra de garantia física seria rapidamente utilizado na inevitável retomada do crescimento econômico brasileiro. Também por este motivo, o leilão de dezembro será fundamental para o País. Historicamente, o Brasil alterna períodos de risco de racionamento e de discussão sobre falta de energia. Isso precisa acabar e os leilões de reserva são os instrumentos adequados para um melhor planejamento”, explica a executiva.

Acordo de cooperação para Certificado e Selo de Energia Renovável Durante o Brazil Windpower, a Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), a Associação Brasileira de Energia Limpa (Abragel), o Instituto Totum e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) anunciaram um acordo de cooperação, visando dar maior robustez ao Certificado e

Selo de Energia Renovável.

Pelo acordo, a CCEE passará a apoiar o processo de certificação sempre que for necessária a verificação dos dados de geração de energia proveniente de fontes renováveis. A confirmação e a certificação digital dos dados de fonte independente estão de acordo com as melhores práticas adotadas pelos certificadores internacionais. Importante mencionar, ainda, que esta credibilidade é fundamental e cumpre requisitos do acordo também assinado durante o evento com a plataforma mundial de comercialização do IREC.

“Um dos pilares do Sistema de Certificação de Energia Renovável é a confiabilidade dos dados de geração de energia e a cooperação com a CCEE garante ainda mais credibilidade aos RECs emitidos no Brasil”, explica Fernando Giachini Lopes, Diretor do Instituto Totum.


Energia eólica no Brasil

  • 10 GW de potência instalada;
  • 400 parques: 5.251 aerogeradores e torres e 15.753 pás instaladas;
  • 15 empregos gerados a cada MW. Em 2015, foram 41 mil empregos gerados. No acumulado, são 150 mil postos de trabalho desde o primeiro parque eólico;
  • Cerca de R$ 60 bilhões investidos de 1998 até hoje;
  • Em 2015, a energia eólica abasteceu 11 milhões de residências no país, uma população equivalente ao sul do Brasil;
  • Representatividade de 7% na matriz elétrica brasileira;
  • Há mais de 8 GW já contratados para serem implantados até 2020.

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