Os apagões e a eficiência energética

mar, 2011

Ed. 61 – Fevereiro de 2011

Por José Starosta

É sempre a mesma história, quando menos se espera lá está ele. Como a aparição de um fantasma em um desenho animado, sentimos sua presença. O fluxo das lâmpadas varia bruscamente, como que em um “ensaio de cintilação” os transformadores roncam como se reclamassem da situação, os computadores, os eletrodomésticos e outras maravilhas tecnológicas da atualidade que operam quando ligadas às tomadas se desligam, e boa parte desta turma não sobreviverá quando a situação se regularizar, pois o comportamento da rede os terá fulminado. O “vai e volta” funciona como se fosse um “ensaio destrutivo” das instalações. Finalmente, em um instante de silêncio, ele surge: o “apagão”.

As reações são das mais variadas. Gerentes de TI se descabelam pedindo aos céus pela saúde de seus UPS, geradores e da “turma” que os mantém e opera. As indústrias contabilizam seus prejuízos com perda de produção, matéria-prima, queima de equipamentos; o transporte vira um caos, assim como hospitais, clínicas, escritórios, prédios, residências, lojas e outros estabelecimentos.

Imediatamente todos apontam seus dedos para aqueles que seriam os culpados e que são “eleitos” em frações de tempo semelhantes a alguns ciclos do “nosso” 60 Hz. São eles: as concessionárias, os governos, os deputados, o vizinho, enfim, são vários os culpados.

Propositadamente não citamos acima os prejuízos das concessionárias de energia. Concessionárias? Como? Afinal elas aparecem sempre como as principais culpadas nos julgamentos efetuados. Sem dúvida o prejuízo das concessionárias é significativo, pois a energia não fornecida é simplesmente não faturada e não há como recuperar esta perda financeira.

Mas quais as razões que levariam à existência dos apagões? E por que eles não são diagnosticados com a competência merecida?

O último evento em que 2,5 milhões de pessoas na zona sul de São Paulo ficaram sem energia teve como causa divulgada um defeito na subestação e, depois de algumas tentativas e deslocamento/remanejamento de carga, o sistema pode ser restabelecido sem antes “piscar” algumas outras vezes.

 

Poderíamos até intuir que a carga alimentada pela subestação não possuía redundância de fontes e que os sistemas e os instrumentos de monitoração poderiam apresentar informações para um melhor e mais claro diagnóstico do que ocorrera, evitando-se especulações sobre os fatos, principalmente quanto às recorrências, mas esta incumbência é da concessionária e da agência reguladora e fiscalizadora.

De nada adianta a energia ser gerada e transmitida em usinas e linhas em constantes incrementos de capacidades, mas não passar pela porta do circuito de distribuição (transformador de distribuição).

É clara a necessidade de investimentos ou a situação continuará como naquele dia, em que qualquer defeito em um equipamento nos levará novamente às escuras. E os equipamentos elétricos possuem seus indicadores de confiabilidade, portanto, saem de serviço em função de suas taxas de falhas.

O que deve ser mudado? Os investimentos em infraestrutura são necessários? E em tecnologia? Treinamento? Manutenção? Fontes de redundância nas cargas no lado do consumidor? Parece que sim, que tudo isso é importante, mas leva tempo e custa caro. Os geradores de contingência de prédios e indústrias voltam como ferramenta de sobrevivência, apesar de toda a fumaça (literalmente) que vai para a atmosfera.

A eficiência energética surge mais uma vez como um importante caminho para a redução da carga com expressivos valores potenciais. Não estamos abordando a ridícula troca de geladeiras que se tornou uma prática comum na mão de políticos inescrupulosos ou outras ações de resultados duvidosos, mas propondo um novo desafio aos modelos ultrapassados que aí estão e, por favor, deixem para trás o ranço do uso político de programas que foram concebidos de forma séria e que sofreram desvios e acidentes de percurso.

A redução da carga do outro lado do muro das subestações de distribuição é infinitamente mais barata, atraente e viável sob diversos aspectos e pontos de vista do que o incremento de mais uma fonte a 3.000 km de distância. Temos toda a capacidade de prover nossas instalações com sistemas eficientes e sustentáveis, bastando definir modelos de projetos que sejam exequíveis e livres de burocracia.

Os prédios afetados em São Paulo, na região da Berrini, na Avenida Paulista, na Marginal Pinheiros, no Morumbi e em tantas outras regiões tão famosas e badaladas, poderiam ter, eles próprios, evitado o ocorrido.

Os dedos apontados para os possíveis culpados poderiam também ser rotacionados em 180 graus: para nós mesmos.

Comentários

Deixe uma mensagem