O mito da madeira

maio, 2011

Edição 62 – Abril 2011
Por Flávia Lima

A teoria de que não se deve usar madeira em quadros elétricos é uma recomendação normativa ou uma lenda viva no setor elétrico? Veja o que especialistas dizem sobre o assunto

Não raramente, ouvimos, inclusive de profissionais experientes na área, que madeira e eletricidade não podem andar juntos e chega a ser uma heresia o seu emprego no fundo de quadros elétricos. Em uma breve pesquisa no Google, por exemplo, encontramos em inúmeros sites – mesmo especializados – a indicação de que não se deve utilizar a madeira em quadros de eletricidade. Um deles determina:

“O quadro de luz deve ser metálico ou de material incombustível e nunca de madeira (na sua parte interna ou externa)”. Para muitos, esta proibição é certa e inconteste e poucos chegam a pesquisar o tema, visto que, muitas vezes, não restam dúvidas quanto a esta aplicação. Mas, afinal, esta seria uma recomendação normativa, excesso de zelo ou uma prática sem razão de ser? O que dizem as normas técnicas sobre este assunto?

Para o consultor e professor Hilton Moreno, para discutir a questão é preciso recorrer a dois conceitos fundamentais: condutividade térmica e ponto de combustão. A norma de instalações elétricas de baixa tensão ABNT NBR 5410 diz:

5.2.2.1.2 – Os componentes fixos, cujas superfícies externas possam atingir temperaturas suscetíveis de provocar incêndio nos materiais adjacentes, devem ser: a) montados sobre ou envolvidos por materiais que suportem tais temperaturas e sejam de baixa condutividade térmica.

Hilton Moreno explica que condutividade térmica é uma propriedade física dos materiais, medida em W/m.K, que descreve a habilidade dos materiais de conduzir calor. “Enquanto, por exemplo, a condutividade térmica do alumínio é 237 W/m.K e a do ferro é 80,3 W/m.K, a da madeira (pinho) é apenas de 0,11 a 0,14 W/m.K. Assim, devido à organização estrutural do tecido, que retém pequenos volumes de ar em seu interior, a madeira impede a transmissão de ondas de calor ou frio, tornando-se um mau condutor térmico (baixa condutividade térmica), isolando calor ou frio”, esclarece. Desse modo, a madeira acaba sendo qualificada como um material apto a receber os componentes elétricos.

Além disso, outro ponto importante refere-se à combustão, ou seja, a temperatura mínima em que um combustível sólido, sendo aquecido, desprende gases que, em contato com fonte externa de calor, se incendeiam, mantendo-se as chamas. Moreno explica que o ponto de combustão da madeira é da ordem de 300 °C. Dessa forma, para provocar incêndio em madeira, é necessário que a superfície externa do componente elétrico seja constante e igual ao ponto de combustão da madeira, o que, segundo ele, não é uma condição usual. “Até porque os circuitos são interrompidos pelos dispositivos de proteção contra sobrecorrentes em frações de segundos em temperaturas menores do que esta, anulando assim a fonte de calor para a combustão da madeira”, acrescenta.

Não há, portanto, na ABNT NBR 5410 qualquer menção ou proibição ao uso de madeira no fundo de quadros elétricos.

Alguns documentos com regras de instalação caminham na mesma direção que a norma de instalações de baixa tensão. É o caso do “Regulamento de instalações consumidoras” das concessionárias AES Sul, CEEE e RGE, que recomenda, inclusive, entre outros materiais, a aplicação da madeira:

9.2. Caixas e/ou painéis para medição

9.2.1. Material

Devem ser confeccionadas em chapa de aço oleada ou zincada, alumínio, resinas poliéster reforçadas com fibra de vidro, policarbonato, polietileno, poliéster ou madeira.”

 

O documento fornece as seguintes instruções:

3.2.4. Caixas de madeira

Devem ser confeccionadas somente nos modelos CI e CE, de cerne ou pinho, aplainado em ambos os lados, sem fendas ou rachaduras, com espessura mínima de 2 cm.

Devem ser pintadas interna e externamente com tinta a óleo, esmalte sintético ou envernizada.

O modelo CE deve ter a face superior revestida com chapa metálica.

O modelo CI deve possuir moldura.

Em regiões com acentuado índice de corrosão (carboníferas e litorâneas), as partes metálicas (dobradiças, trinco, fecho, face superior, etc.) devem ser de material não ferroso.”

 

Mas há controvérsias. Diversos especialistas manifestam-se contra este tipo de aplicação. Na opinião do engenheiro eletricista e de segurança do trabalho, Roberval Mostardeiro de Paula, por exemplo, a principal argumentação contra o uso da madeira refere-se a outras questões, como o apodrecimento, o cupim, a umidade e a salinidade do material. “A madeira tem uma durabilidade limitada e não permite, por exemplo, um trabalho mais complexo, diferente do poliéster refinado, muito melhor e mais fácil para se trabalhar”, avalia.

Para ele, um composto de poliéster (SMC resina termofixa prensada ou assemelhado) com aditivos específicos possui condições de suportar até 960 °C. Resiste aos agentes do clima tais como umidade, UV, ambientes salinos, às bruscas mudanças climáticas, imune a cupins. Isso sem contar com a moldabilidade. “Pode-se argumentar que a madeira tratada pode chegar bem próximo destes níveis, o que eu concordo, mas neste caso surge uma dúvida: que norma prescreve a obrigatoriedade do tratamento da madeira antes de aplicá-la em painéis de eletricidade? Quais os critérios? Que parâmetros?”, questiona.

Nesse sentido, o site do Procobre, por exemplo, traz o seguinte aconselhamento embutido em um artigo: “Quadro de luz: é a peça chave inicial das instalações elétricas. Deve ser metálico ou de material não-combustível, tanto na sua parte interna ou externa. Se o quadro de luz for antigo ou de madeira, por exemplo, é aconselhável trocá-lo o quanto antes”. Para Roberval de Paula, dimensões, replicabilidade, facilidade construtiva, tempo de instalação, padronização e normatização, enfim, falta de certificação, são os argumentos que inviabilizaria o uso da madeira. “Como ensaiar e certificar um painel de medição feito em madeira e depois efetuar sua instalação sem que perca as características certificadas?”, indaga.

O engenheiro Edson Martinho, diretor-executivo da Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel), concorda que não há restrições normativas quanto ao uso da madeira, mas não recomenda seu uso. Segundo ele, para que a madeira seja utilizada, é preciso que a instalação esteja corretamente dimensionada, com os devidos dispositivos instalados para não correr riscos. O engenheiro Eduardo Daniel, da Certiel Brasil, também não recomenda o uso da madeira por conta do risco de combustão em caso de fogo nos contatos ou condutores. Roberval de Paula diz que, em maior ou menor grau, a madeira é um combustível se comparada aos metais comumente utilizados em painéis de eletricidade. “Se assim fosse, porque os quadros de comando, CCMs, não são feitos de madeira?”, lembra.

Mesmo não havendo restrições normativas, muitos profissionais manifestam-se contra o uso da madeira. Portanto, o uso ou não do material fica por conta de cada instalador e/ou projetista.

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