Nova norma para SPDA sai em 2015

out, 2014

Edição 104 – Setembro de 2014
Por Bruno Moreira

Iniciado em 2005, projeto de revisão da ABNT NBR 5419, norma que trata da proteção contra descargas atmosféricas, chega finalmente à consulta nacional. Publicação deve ocorrer no meio do ano que vem.

Após cerca de nove anos de reuniões periódicas e muito trabalho, a revisão da norma ABNT NBR 5419, que trata da proteção contra descargas atmosféricas, está praticamente finalizada. O documento normativo entrou em consulta pública no site da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) no último mês de agosto, onde permanecerá até o dia 10 de dezembro, para o recebimento de sugestões. A ideia inicial era que o projeto de revisão ficasse em consulta até o dia 10 de outubro, mas devido a um pedido da Associação Brasileira de Engenheiros Eletricistas (ABEE), que foi enviado ao Comitê Brasileiro de Eletricidade, Eletrônica, Iluminação e Telecomunicações (Cobei), o prazo foi estendido por mais 60 dias pela Comissão de Estudos (CE) 64.10, que elaborou o projeto de revisão da norma. De acordo com o secretário da Comissão, o engenheiro eletricista e especialista da divisão científica de energia e meio ambiente do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (IEE/USP), Helio Sueta, se tudo correr como o planejado, a norma será finalmente publicada nos primeiros meses de 2015.

O longo tempo utilizado pelos membros da CE 64.10 para a confecção do projeto de revisão tem um motivo: a ABNT NBR 5419 passou por uma pequena revolução, aumentando o seu conteúdo de 42 páginas para 344 páginas, por meio de um aprofundamento dos assuntos tratados no documento anterior, que receberam, segundo o gerente de vendas da Obo Bettermann do Brasil e engenheiro eletricista especializado na proteção de equipamentos e sistemas eletrônicos, Sergio Roberto Santos, um maior detalhamento e mais recomendações em cada tópico. “Foram quase nove anos de um trabalho que demandou disciplina e paciência. Sem as pessoas certas jamais teríamos conseguido atingir este estágio tão importante que é a colocação do projeto de norma em consulta pública”, completa o engenheiro eletricista Jobson Modena, coordenador da CE 64.10.

O novo documento normativo toma como base a segunda versão da norma IEC 62305 – Lightning Protection, que agrupou assuntos de várias outras normas e permitiu organizar as regras para Sistemas de Proteção contra Descargas Atmosférica (SPDA). Neste sentido, o documento internacional foi divido em quatro partes, da seguinte forma: a parte 1 traz os “Princípios Gerais”; a parte 2 trata de “Gerenciamento de Risco”; a parte 3 diz respeito aos “Danos Físicos às Estruturas e Perigo à Vida”; e a parte 4 aborda a proteção em “Sistemas Elétricos e Eletrônicos Internos na Estrutura”.

Segundo o engenheiro civil e diretor técnico da Termotécnica Para-raios, Normando Alves, a maior parte do texto da nova norma sobre proteção contra descargas atmosféricas foi fiel ao texto da IEC que toma como base, especialmente as partes 1 e 4. “Porém, em dados momentos, foi necessário fazer algumas adaptações para atender à realidade brasileira”, destaca.

Partes 2 e 3 – Tropicalização

A parte 2 do texto do documento, por exemplo, terá um anexo a mais com os mapas do Brasil e de cada região brasileira, desenvolvidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com a densidade de descargas atmosféricas para terra. Na parte 3, de acordo com Sueta, outra tropicalização da norma refere-se à “adequação da bitola de alguns cabos de cobre a serem utilizados nos subsistemas de captores e de descidas conforme a prática usual do país”, explica o secretário da comissão de estudos. Isto porque a norma atual estabelece a medida de 35 mm² para os captores e 16 mm² para os condutores de descida, mas a IEC revisada estipulou a medida de 50 mm² para ambos os cabos. Durante as reuniões para a elaboração da nova versão da NBR 5419 decidiu-se que pelas características nacionais não era preciso seguir a orientação da norma internacional, sendo estabelecida a medida de 35 mm² para os dois casos.

A terceira parte do documento normativo, aliás, é a que mais tem correspondência com o texto compreendido pela versão em vigor. Neste sentido, é o trecho que mais conta com alterações. “A maior delas é a retirada inteira de um anexo informativo referente ao guia para projeto, construção, manutenção e inspeção do SPDA”, diz o especialista do IEE/USP.

Ainda sobre a terceira parte da norma, Sueta destaca outras modificações. De acordo com o engenheiro eletricista, a proteção ficará mais “apertada”.  Por exemplo, na utilização de método das malhas (Faraday), as dimensões de cada malha serão menores: para nível I, ao invés de 5 m x 10 m, a medida será de 5 m x 5 m; para nível II, de 10 m x 20 m passará a 10 m x 10 m; para nível III, de 10 m x 20 m irá para 15 m x 15 m; e para nível IV, de até 20 m x 40 m, diminuirá para 20 m x 20 m.

No que diz respeito ao Método de Franklin, visando à definição do ângulo de proteção, a tabela que existe na versão atual do documento normativo será substituída por curvas para cada nível de proteção em função da altura da edificação. Essa mudança deverá revitalizar comercialmente o emprego deste método, que até o momento vem sendo deixado de lado pela comunidade técnica em função da pouca flexibilidade na utilização dos ângulos de proteção.

Sueta salienta ainda como alteração importante a redução do espaçamento médio entre descidas, cujo valor foi diminuído para os níveis II, III e IV, aumentando nestes casos a quantidade de descidas. “Em relação ao aterramento, a versão brasileira retirou o arranjo tipo A, ficando apenas com o arranjo tipo B (em anel). Outra novidade é a retirada do valor de 10 Ohm como indicativo principal para um bom aterramento”, afirma.

Resumidamente, o engenheiro eletricista e gerente da Termotécnica Para-raios, José Barbosa de Oliveira, afirma que a principal mudança trazida pela parte 3 da ABNT NBR 5419 será o aumento da eficiência dos subsistemas de captação, descida e aterramento, o que demandará mais elementos (materiais e serviços) a fim de atender às exigências mínima

s da revisão.

Não obstante as grandes alterações realizadas nesta parte do texto normativo, o especialista da divisão científica de energia e meio ambiente do IEE/USP, que participou da confecção das quatro partes da norma, destaca a parte 2 como a maior novidade desta revisão. Isto porque, segundo ele, enquanto o documento atual possui um anexo que apenas indica se o SPDA é necessário ou não para uma determinada estrutura, a futura norma, por meio de sua segunda parte, traz uma análise que direciona as medidas de proteção para que os riscos envolvidos fiquem com valores inferiores aos toleráveis.

“Nesta análise, diversos tipos de descargas que possam influenciar a proteção da estrutura são considerados, tais como descargas que atingem diretamente a estrutura, mas também as que atingem a proximidade desta, as redes e as áreas próximas das redes que adentram às estruturas, além das que atingem as estruturas conectadas à estrutura sob estudo”, explica Sueta.

Partes 1 e 4

Ambas as partes não possuem nenhuma referência à versão atual da ABNT NBR 5419. O engenheiro eletricista, especialista em proteção contra descargas atmosféricas, José Claudio de Oliveira e Silva, que participou mais profundamente da elaboração da primeira parte da nova norma, informa que trata-se de um trecho mais conceitual. “Além de conceitos, ela apresenta os parâmetros das correntes das descargas atmosféricas que formam a base das regras de proteção, dimensionamento de componentes, etc.”, explica.

O fato de a versão atual da norma da ABNT não conter praticamente nada desse tipo de informação faz com que seja uma das partes com a tradução mais próxima da IEC 62305. Isto e, também, de acordo com Silva, porque se trata de uma parte conceitual. “Ou seja, não existem muitas razões para adaptar conceitos, não é mesmo? A menos, talvez, que existam algumas diferenças nas distribuições estatísticas dos parâmetros das descargas, mas não temos estes dados ainda”, declara o engenheiro eletricista.

Não por isso a norma brasileira não tem a sua marca própria. Conforme o especialista em proteção contra descargas atmosféricas, após muita discussão, em que se contrapôs a teoria e a prática relativas à matéria, foi acrescentada a definição do termo de equipotencialização. “Acho que ficou muito boa”, diz.

A parte 4 como um todo também é destacada pelo engenheiro eletricista Sérgio Santos, que durante as reuniões da CE-64.10 esteve mais envolvido com confecção deste trecho do documento normativo. Para ele, existe apenas uma lacuna com relação à proteção dos sistemas elétricos e eletrônicos no interior da estrutura, que não é suficientemente tratado nem na versão atual da ABNT NBR 5419 e nem na ABNT NBR5410.

Nesta parte, o procedimento e a utilização da proteção interna contra surtos serão baseados no conceito de Zona de Proteção contra Raios (ZPR), em que cada zona demandará um tipo de proteção. São três Zonas: Zona 0, dividida em A e B, Zona 1 e Zona 2. A Zona 0 representa a área externa do edifício, sendo que a parte A diz respeito a áreas fora do volume de proteção imposto pelo SPDA e a parte B é referente à área dentro desse volume de proteção. Por sua vez, a Zona 1 representa áreas internas ao prédio e a Zona 2 a salas blindadas dentro do prédio, tais como equipamentos e cubículo.

Este conceito de zonas de proteção já é bastante empregado em outras normas e na IEC, mas será uma inovação no documento normativo brasileiro. Por meio da ZPR, é esperado que haja um refinamento da proteção interna, beneficiando principalmente os ambientes internos com equipamentos eletrônicos sensíveis.

Após a publicação da norma

Com a entrada em vigor da nova versão da ABNT NBR 5419, a expectativa é de que haja um impacto positivo no setor elétrico de maneira geral, levando a mudanças no mercado de equipamentos de proteção contra descargas atmosféricas, no comportamento dos profissionais e na vida das edificações e de seus usuários.

Para o gerente da Termotécnica Para-raios, José Barbosa de Oliveira, o principal impacto será o volume maior de elementos (materiais e serviços) para a implantação de novos sistemas e a necessidade de atualização dos projetos existentes. De acordo com o engenheiro Normando Alves, haverá o reaquecimento desse setor a partir de novas auditorias que constatem a necessidade de adaptação ao novo texto normativo. Sem falar que os fabricantes de peças e acessórios terão novas oportunidades para desenvolver e atender a algumas exigências da norma.

Em contrapartida, segundo Barbosa de Oliveira, o setor elétrico terá sistemas de proteção contra raios capazes de atender às necessidades de instalações cada vez mais sensíveis “pela evolução natural da tecnologia e por estarem em um país continental, onde há uma variação enorme da quantidade de ocorrências de raios”. Conforme Santos, da Obbo Bettermann, com utilização maciça das novas regras, será inconcebível, após uma tempestade, os equipamentos eletrônicos da edificação estarem danificados.

No que ser refere à atualização dos projetistas, o secretário do CE 64.10, Helio Sueta, acredita que, por ser um texto mais extenso e um pouco mais técnico, será necessário treinar mais e melhor os profissionais que utilizarão os documentos normativos. Opinião corroborada pelo diretor técnico da Termotécnica Para-raios, Normando Alves. “Os profissionais desta área deverão correr atrás para se informar e realinhar as ferramentas de trabalho a fim de que seus novos projetos atendam às novas solicitações da norma”, destaca.

“Inicialmente acho que veremos muita dificuldade e, talvez, reclamações para a aplicação da nova versão da norma”, diz o especialista em proteção contra descargas atmosféricas, José Claudio de Oliveira e Silva, pois, trata-se de “um salto grande de requerimento de conhecimento ou entendimento sobre o assunto por parte dos técnicos deste país”. Na opinião de Silva, a parte 2 do novo texto, que trata de gerenciamento de risco, será a que vai dar mais trabalho visando a uma aplicação correta. No entanto, de acordo com o engenheiro eletricista, o conteúdo básico relativo a este tema vem de versões da IEC da década de 1990 (séries IEC 61024, IEC 61312 e IEC 61662) e o Brasil não deve continuar tão defasado assim. “É importante para o setor se não quisermos ficar muito para trás”, diz.

Enfim, atualizados

Quando em 2005, era publicada a quarta re

visão da ABNT NBR 5419, os engenheiros eletricistas Helio Sueta e Jobson Modena – que já atuavam como representantes brasileiros junto à IEC – estavam a par da nova versão da IEC 62305, que sairia pela primeira vez com a formatação de quatro partes. Dessa forma, nem bem terminado um trabalho de revisão, a CE já começava outro. 

Desde então, a IEC 62305-1-4 foi publicada em 2006 e revisada em 2010. Os responsáveis pela revisão da versão brasileira continuaram seu trabalho. Agora, finalmente, o documento normativo brasileiro alcançará o texto internacional. “Quando a nova versão da NBR 5419 entrar em vigor, teremos uma norma muito próxima da IEC. Pode se dizer que estaremos atualizados com relação à IEC”, afirma Silva,

O especialista da divisão científica de energia e meio ambiente do IEE/USP, Helio Sueta, reitera a afirmação de seu colega e crê que, após a publicação da revisão, o país estará sim atualizado em relação à proteção das estruturas contra os efeitos das descargas atmosféricas. Contudo, de acordo com ele, ainda faltará se atualizar a respeito dos materiais e componentes a serem utilizados nos sistemas. “A IEC já publicou diversas normas de componentes (por volta de oito documentos) que ainda não estão sendo estudados no Brasil”, conta.

Agora que a norma brasileira se equiparou em conteúdo ao documento internacional que lhe serviu como base, novas modificações não deverão acontecer em breve, conforme os especialistas do setor. “Não vejo lacunas nesta norma que somente seriam resolvidas com uma revisão”, afirma Alves, que, no entanto, acredita na evolução das técnicas que certamente demandarão alterações futuras, a serem realizadas tanto no texto da IEC quanto no da ABNT.

Por exemplo, Silva destaca que a física das descargas atmosféricas ainda não é plenamente conhecida e que, se novos modelos que tratem os mecanismos de conexão das descargas com as estruturas forem desenvolvidos, “de maneira razoável para se lidar em uma norma, estes devem ser introduzidos”.

A adoção de novas medidas de proteções e o abandono de outras também podem ser exigidos, conforme o especialista em proteção contra descargas atmosféricas, haja visto que os equipamentos e as tecnologias de interconexões entre equipamentos dentro das estruturas a serem protegidas estão em constante modificação.

Outras alterações podem ocorrer nos dados de frequência de descargas para terra. “Eles também podem ser atualizados em versões futuras à medida que tivermos conjuntos maiores de dados dos sistemas de localização de descargas atmosféricas em operação no Brasil”, declara Silva.

Mudanças possíveis, mas que, como dito, não deverão começar a ocorrer agora. O secretário do CE 64.10, Helio Sueta, revela que, segundo informações de grupos permanentes da IEC que se reúnem periodicamente para revisão das normas, a próxima versão da IEC 62305-1-4 será publicada apenas em 2018, isto devido às muitas transformações que foram realizadas na última revisão.

“Ainda não temos motivo para comemorar, mas já estivemos muito mais longe da porta da festa”, afirma Jobson Modena, que encerra parabenizando todos os membros da comissão que contribuíram para que o trabalho fosse feito de forma a minimizar custos, mas sem esquecer as boas práticas da engenharia.

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