Motivações para o smart grid

maio, 2012

Edição 75 / Abril de 2012
Por Luis Fernando Arruda

É muito interessante ler ou assistir algumas reportagens que tratam da automação que se vislumbra possível com o conceito de smart grid tornando-se realidade.

Falam até de um medidor totalmente nacional como se a indústria tivesse aqui toda a gama de componentes necessária para a produção dos novos medidores.

Fabricantes falam maravilhas do seu produto e mostram orgulhosos todas as “telas” que o display, acoplado ao medidor ou remoto, poderá oferecer; versam sobre as informações que os clientes das concessionárias de distribuição terão acesso.

Falam inclusive da interação possível de medidores inteligentes com eletrodomésticos que seriam acionados nos períodos do dia ou da noite em que a tarifa se torna mais barata.

Mas não esclarecem ao consumidor leigo que os eletrodomésticos de hoje terão que ser descartados e que não há qualquer política pública em curso para permitir a produção da nova geração de equipamentos residenciais capazes de “conversar” com os medidores; nem de financiamento para esta nova geração de eletrodomésticos; nem mesmo qualquer planejamento para o descarte responsável dos equipamentos postos em desuso. Nem um padrão de protocolo desta “conversa” nós temos!

Assim, tudo é muito lúdico, mas pouco prático. Só atentamos de fato para o medidor de energia quando houve o racionamento em 2001/2002, período em que tivemos que reduzir drasticamente o consumo de energia elétrica em nossas casas e no trabalho sob o risco de termos como penalização o corte do fornecimento de energia.

Só não falam do custo e de quem vai pagar a conta (alguma dúvida quanto a esta segunda questão?)!

Quem apostar na complexidade de informações vai, no mínimo, jogar dinheiro fora e, no momento em que vivemos, tudo o que as distribuidoras não têm é recurso financeiro para aventuras.

A grande e decisiva questão é, na verdade, o que será o fator motivador.

Uma portaria tem o poder de obrigar as concessionárias a instalar novos medidores, mas não tem o poder de fazer os projetos que tornam estes medidores um sistema de medição integrado resultarem, de fato, em ganhos para a sociedade, meio ambiente, clientes e investidores.

Sim, ainda há investidores privados na área de distribuição, mas sabe-se que eles não vão suportar por muito tempo os atuais resultados impostos pela regulação restritiva.

O que faria investidores decidirem por aplicar grandes quantias na automação e deslanchar projetos de interesse para todos seria a chance de incrementar os resultados das concessionárias.

Hoje, o único motivador é a aplicação de tecnologias que permitem a redução das perdas não técnicas para patamares um pouco inferiores ao valor reconhecido na tarifa. Estas tecnologias incluem necessariamente a reforma de redes (numa tentativa de blindá-las contra acessos não autorizados) e instalação da medição em local inacessível aos “consumidores”, evitando a manipulação, evitando que sejam fraudados (ou, ao menos, tornando a manipulação mais difícil).

Há quem ache isto um exagero: “por que instalar medidores nos postes da rede? Isto complica as coisas!”. São pessoas que desconhecem totalmente a realidade de algumas áreas de concessão e as dificuldades enfrentadas no dia a dia pelas concessionárias tentando evitar a sangria que o furto de energia representa na sua arrecadação. Provavelmente são teóricos acadêmicos que vivem em laboratórios climatizados e que desconhecem o “calor” das ruas.

Espera-se que haja novos motivadores a serem criados com uma regulação mais flexível e moderna. Uma delas seria uma nova estrutura de tarifas para a baixa tensão, o que será objeto de comentários no próximo mês.

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