Motivações para o smart grid – tarifas de baixa tensão

jun, 2012

Edição 76 / Maio de 2012
Por Luis Fernando Arruda

Como comentamos no mês anterior, os projetos de automação de processos comerciais no Brasil têm sido impulsionados exclusivamente pela tentativa de redução do nível de perdas não técnicas. Não há dúvida que isto tem importância fundamental em alguns locais, até porque tem mostrado efetivamente o que traz resultados e o que apenas drena recursos das concessionárias.

A automação da medição, incluindo leitura e corte remotos, balanço energético por transformador, faturamento automático pela integração do sistema de faturamento ao de gestão da medição e outras funções agregadas, é a mola propulsora de qualquer projeto que pretenda dar mais inteligência à gestão da distribuição de energia elétrica.

Quem, no entanto, conhece o poder que as tarifas têm de “domar” a curva de carga (basta ver o que já foi conseguido no segmento de média tensão com as tarifas verde e azul, conjugando a restrição de energia, demanda e também do fator de potência por horário do dia) esperava que agora fosse buscada uma contribuição do setor de baixa tensão.

Ao segmentar a curva de carga no horário de ponta do sistema, podemos verificar que há dois segmentos contribuindo fortemente para o pico de demanda. São eles: a carga da iluminação pública e as cargas das unidades de baixa tensão. Em particular, onde o chuveiro elétrico é intensamente utilizado, esta carga é preponderante para os elevados valores de demanda na ponta do sistema.

Esta é uma particularidade de algumas áreas de concessão no Brasil: não há cargas com inércia térmica; são cargas intensivas quanto à demanda requerida, mas que podem resultar em pequeno uso de energia.

Com isto, o controle que é feito em alguns países se mostra inviável no Brasil para redução de demanda em projetos de “controle de demanda pelo lado da carga” ou DSM.

Dessa forma, a implementação de uma nova tarifa já mereceu, em algumas concessionárias, estudos específicos e pelo menos um deles com mais de um ano de duração em regiões representativas de grandes concessões de distribuição de energia elétrica.

Tais estudos apresentaram resultados interessantes, dos quais destacamos:

– mediante a possibilidade de redução do importe total, mais da metade dos usuários consegue alterar seu hábito de consumo;

– sem a componente binômia de demanda na tarifa, a redução obtida apenas com a diferença de tarifa de energia nos postos tarifários não é significativa;

– conjugado com a tarifa binômia, deve ser estabelecido o período de “ponta complementar” de forma a evitar a simples duplicação do valor de demanda de ponta antes e após a faixa definida como sendo o período de ponta do sistema;

– se a tarifa mais cara nos horários de ponta e ponta complementar forem opcionais, apenas as unidades consumidoras que já têm perfil adequado (não usam energia elétrica no horário de ponta) vão aderir à nova estrutura tarifária.

Assim, na estrutura proposta atualmente deve ocorrer:

– Clientes vão solicitar a instalação do medidor e estudo de tarifa;

– Se a fatura pela nova estrutura indicar um valor menor a ser pago, a opção pela nova tarifa será feita;

– Se a fatura pela nova estrutura indicar um valor maior a ser pago, optar por ela será algo restrito, seja pela facilidade de não mudar hábitos de uso diários, seja pela constatação de que se paga menos do que seria devido pelo uso intensivo de energia elétrica na ponta do sistema.

Assim, os ganhos que as concessionárias podem ter serão muito pequenos e, portanto, desanimadores para quem terá que investir em tecnologia e enfrentar os riscos que sempre acompanham as grandes mudanças de patamar tecnológico.

Da mesma forma, os ganhos para a sociedade em geral e meio ambiente também serão pífios, pois poucos vão alterar hábitos de uso de energia e contribuir para a diminuição da demanda máxima.

Na verdade, este jogo só vai levar as concessionárias a perder faturamento, gerando mais pressão no sentido do aumento de tarifas. 

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