Metodologia para análise de eventos do sistema elétrico quanto à possibilidade de danos de equipamentos de baixa tensão

mar, 2010

Edição 49, Fevereiro de 2010

Por Carlos Figueiredo, Edson H. Takauti, Eduardo L. Ferrari, Ivo T. Domingues, Juan C. Cebrian, Marcelo H. Iunes, Nelson Kagan, Nelson M. Matsuo, Silvio X. Duarte e Tiago P. Souza

Metodologia para análise de eventos do sistema elétrico quanto à possibilidade de danos de equipamentos de baixa tensão

Conheça os aspectos técnicos relacionados à análise de danos em aparelhos que geram pedidos de indenização às distribuidoras e a abordagem da metodologia aplicada em uma ferramenta computacional de análise desenvolvida em um projeto de P&D

 

As empresas de distribuição têm sentido demandas crescentes de pedidos de ressarcimento por danos em equipamentos. A publicação de considerável número de artigos e outras publicações sobre o assunto, incluindo a edição das Resoluções nº 61 (2004) e 360 (2009) da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) atesta a importância do assunto.

 

 

Um projeto de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) reuniu a Universidade de São Paulo (USP) e várias companhias de distribuição (Bandeirante Energia, AES Sul, AES Eletropaulo e oito empresas do Grupo Rede) em busca de uma metodologia aperfeiçoada e uma ferramenta computacional de análise de pedidos de indenização por danos em equipamentos (PID). Essa ferramenta incorpora um sistema de consulta dos bancos de dados das companhias para acessar as ocorrências na rede e identificar indícios de situações que podem ter causado perturbações que sejam potencialmente associáveis a danos de equipamentos. Efetua-se, então, a análise das possibilidades de danos em função da instalação que alimenta o consumidor, tipo de equipamento e sua susceptibilidade a perturbações.

 

A Figura 1 apresenta uma visão geral da ferramenta de análise desenvolvida.

Figura 1 – Estrutura geral do programa de análise

 

Este artigo discute alguns aspectos técnicos importantes e muitas vezes controvertidos relacionados a essa questão e apresenta a forma de abordagem adotada na metodologia e na ferramenta computacional de análise.

 

Perturbações nas tensões de alimentação de consumidores de baixa tensão

Podem ser citados os principais tipos de perturbação elétrica no suprimento de consumidores de baixa tensão que podem afetar de alguma forma o funcionamento de aparelhos elétricos, seja do ponto de vista funcional como da integridade do aparelho: sobretensão (sustentada e temporária), subtensão sustentada, afundamento de tensão e interrupção temporária, desequilíbrio de tensão/inversão de fases ou inversão fase-neutro (longa-duração) e sobretensão transitória de manobra e de origem atmosférica.

 

O efeito de um tipo de perturbação sobre um determinado aparelho depende do seu nível de severidade e da suscetibilidade do aparelho em relação a esse tipo de perturbação.

 

A seguir são apresentadas algumas considerações gerais sobre as perturbações.

Sobretensão

Dentre as perturbações, a sobretensão tem sido o maior foco de atenção como causa de danos de equipamentos, tanto a sustentada e a temporária como a transitória. Não há dúvidas quanto ao fato de as sobretensões causarem danos a aparelhos. Contudo, há ainda uma carência de conhecimento sobre a suportabilidade de aparelhos de baixa tensão às sobretensões e sobre os níveis dos diversos tipos de sobretensão a que os consumidores de baixa tensão ficam sujeitos.

 

Subtensão (sustentada)

A subtensão poderia, em princípio, provocar solicitação adicional em equipamentos que tenham a sua corrente aumentada ao sofrer subtensão, como aqueles de característica de funcionamento a potência constante, e eventualmente causar dano. Algumas referências mencionam essa possibilidade, principalmente referindo-se a equipamentos com motores, como refrigerador, ar condicionado e máquina de lavar, entre outros.

 

Ensaios realizados no projeto P&D com diversos eletrodomésticos, aplicando vários níveis de subtensão de longa duração, não indicaram nenhum caso de queima de equipamento por este motivo. Esses ensaios contemplaram refrigeradores, máquinas de lavar roupa e máquinas de lavar louças, secadora de roupa, além de aparelhos eletrônicos. Verificou-se que os equipamentos motorizados ensaiados, ao serem submetidos a subtensões, não têm a sua corrente aumentada de acordo com o modelo de potência constante.

 

Portanto, esses resultados indicam que, ao menos na grande parte dos casos, a subtensão não deve ser apontada normalmente como causa de dano de equipamentos.

 

Interrupções de curta duração e afundamentos de tensão

Normalmente interrupção ou afundamento de tensão de curta duração na alimentação não provocam danos de equipamentos. Entretanto, há menções na literatura quanto à possibilidade de dano de aparelhos causados pelo retorno da alimentação logo após uma interrupção, quando se trata de equipamentos que utilizam compressores, como refrigerador ou condicionador de ar.

 

Ensaios realizados em laboratório com refrigeradores, no presente projeto, não confirmaram essa susceptibilidade.

 

Desequilíbrio de tensão

É largamente conhecido o efeito danoso do fenômeno de desequilíbrio de tensão em motores trifásicos. Assim, motores que não tenham dispositivo de proteção que permita desconectá-los em condições de desequilíbrio podem sofrer dano. Condições de desequilíbrio são muito comuns nas redes de distribuição deste País, tendo em vista o uso extensivo de dispositivos de proteção/manobra monopolares em redes de distribuição.

 

Sobretensões transitórias de manobra na rede e de origem atmosférica

É de conhecimento geral que manobras na rede de suprimento e descargas atmosféricas produzem sobretensões transitórias, mas não há um domínio amplo sobre os níveis e durações das sobretensões que realmente ocorrem nos sistemas de distribuição. Além disso, praticamente não há dados de suportabilidade de equipamentos de baixa tensão relativa a esse tipo de sobretensão. Conforme comentado mais adiante, os ensaios e estudos realizados no projeto indicaram que os equipamentos possuem, em geral, níveis de suportabilidade relativamente altos a sobretensões transitórias de manobra.

 

Suportabilidade de aparelhos a perturbações: ensaios

 

As perturbações podem se propagar para um equipamento por dois modos distintos: comum e diferencial. As sobretensões de modo comum ocorrem entre condutores ativos e terra (linha-terra) e aparecem em função das elevações de potencial dos condutores da rede de alimentação em relação à terra. Esse tipo de sobretensão impõe solicitações às isolações de equipamentos que não tenham terminal de terra ou a sua massa conectada ao neutro.

 

As sobretensões de modo diferencial ocorrem entre condutores ativos (linha-linha, que pode ser fase-fase ou fase-neutro) e impõem solicitações nos equipamentos independentemente da sua forma de aterramento.

 

Outra forma de solicitação pode ocorrer se o equipamento possuir entrada de outro sistema, tal como de sinal, quando houver diferenças de potencial elevadas entre os dois sistemas.

 

Os seguintes ensaios de aplicação de sobretensões rea

lizados em laboratório permitiram conhecer melhor as características de suportabilidade de vários aparelhos eletroeletrônicos:

 

a) ensaios com sobretensão de 60 Hz de modo diferencial, com a obtenção de curvas Vxt de suportabilidade de equipamentos

b) ensaios de surtos (modos diferencial e comum) aplicando onda combinada padrão IEC 61000-4-5 (onda de tensão de 1,2 x 50 ?s e onda de corrente de 8 x 20 ?s após curto-circuito e onda tipo “ring wave”)

c) ensaios de sobretensão com onda de frequência 420 Hz e 1020 Hz (modo diferencial) com duração de dois ciclos de 60 Hz superposta à onda de 60 Hz de regime permanente com pico de 3,3 pu do valor de pico nominal.

 

Observou-se que uma grande parte dos aparelhos ensaiados (TV, DVD, refrigerador, máquina de lavar roupa, máquina de lavar louça, secadora de roupa) suporta as sobretensões mostradas na Figura 2. Contudo, os microcomputadores e os aparelhos de fax apresentaram níveis de suportabilidade inferiores. A figura mostra também a curva ITI (sobretensão) para comparação.

 

Os ensaios com surtos indicaram que, em geral, os aparelhos suportam tensões (surtos) de 2 kV ou mais, nos modos diferencial e comum, com tendência de valores suportáveis maiores no modo comum. Em geral, os níveis de suportáveis são maiores do que os níveis de imunidade especificados na IEC-61000-6-1 (linha-linha: 1 kV, linha-terra: 2 kV).

 

Quanto aos ensaios de sobretensão transitória, os resultados indicaram que normalmente os aparelhos suportam um pico de 3,3 pu resultante da superposição da onda de 420 Hz ou de 1020 Hz com duração de dois ciclos à onda de 60 Hz.

 

Outro tipo de teste foi realizado para verificar a possibilidade de dano de equipamentos com compressor submetidos ao retorno da alimentação logo após a interrupção de curta duração. Testes realizados com refrigeradores não indicaram nenhum caso de dano.

 

Perturbações na rede e danos em equipamentos

Na metodologia de análise proposta, as perturbações são comparadas com a suportabilidade do equipamento analisado, considerando nível e duração.

 

Com base nos resultados de ensaios, são consideradas como potencialmente causadoras de danos em equipamentos as seguintes perturbações: sobretensões e desequilíbrio de tensão (este no caso de equipamento trifásico).

 

A seguir são enumerados os principais tipos de ocorrência que podem produzir perturbações eventualmente associáveis a danos de equipamentos de BT (baixa tensão).

 

– Sobretensão sustentada e temporária: curto-circuito na rede secundária, abertura ou mau contato em uma fase no primário do transformador de distribuição, abertura ou mau contato no neutro, inversão fase-neutro, curto-circuito envolvendo circuitos primário e secundário.

 

– Desequilíbrio de tensão: abertura ou mau contato em uma fase no primário, abertura ou mau contato do neutro primário, em sistema com transformador ligado a esse neutro, abertura ou mau contato em uma fase no secundário, inversão de fases ou fase-neutro.

 

 

– Transitório de manobra e surto atmosférico: manobra no sistema alimentador, ocorrência de raios.

 

Principais aspectos considerados nas análises das ocorrências

Os procedimentos de análise adotados na metodologia levam em conta as perturbações que podem ter havido em função de ocorrências na rede. Combinações de dados de ocorrência na rede são associadas a indícios de possibilidade de perturbação.

 

A estimativa das possíveis sobretensões é baseada em estudos de rede realizados utilizando simulações de redes típicas. Na metodologia de análise, consideram-se geralmente situações conservativas, mas com probabilidade significativa de ocorrência real. Em situações duvidosas, procuram-se indícios adicionais que apontem que pode ter ocorrido uma situação mais desfavorável.

 

Seguem considerações sobre os tipos de ocorrência que podem causar danos em equipamentos de BT.

Curto-circuito na rede primária

Durante a ocorrência de um curto-circuito na rede primária, os consumidores secundários podem ficar sujeitos a elevadas sobretensões. Nesse tipo de ocorrência, os seguintes mecanismos podem produzir sobretensões:

 

surgimento de condições desequilibradas de tensão no primário durante a falta, transferidas ao secundário, podendo resultar em sobretensão dependendo do tipo de defeito e tipo de ligação do transformador MT/BT;

 

queda de tensão ao longo do neutro da rede secundária, pela passagem de alta corrente de defeito, nos casos em que o defeito envolva o neutro, principalmente em sistemas com neutro contínuo;

 

elevação de potencial do neutro do secundário em relação à terra, caso o defeito envolva esse neutro, podendo afetar equipamentos de BT que tenha aterramento da sua massa não ligada ao neutro;


contato direto da fase primária à fase secundária.

 

Essas situações são geralmente temporárias, uma vez que nesse tipo de ocorrência normalmente há atuação da proteção da rede de MT.

 

As sobretensões de modo comum estão associadas principalmente a defeitos que envolvem fase primária e neutro do secundário, podendo atingir valores da ordem da tensão de fase do sistema primário, e tem potencial para provocar dano de qualquer equipamento de BT que não tenha terminal de terra ou a massa conectada pelo rompimento da isolação neutro (o esquema TN evita esse problema).

 

Outra situação de possível sobretensão é a que ocorre no sistema monofilar com retorno por terra (MRT) em consequência de defeito fase-terra ou fase-neutro na rede de origem.

 

Curto-circuito na rede secundária

Ao analisar uma ocorrência de curto-circuito na rede secundária, devem ser consideradas as situações antes e após a atuação da proteção, normalmente fusível do primário do transformador.

 

a) Situação antes da atuação da proteção

Nesse período pode ocorrer sobretensão, que normalmente é temporária, mas pode ser sustentada se o defeito ocorrer em local muito distante do transformador.

A sobretensão ocorre na fase sem defeito quando o defeito envolve o neutro. Na origem do circuito a sobretensão é nula e esta aumenta conforme se aproxima do ponto de defeito na rede. No outro lado do circuito secundário, em relação ao transformador, não há sobretensão. Esse comportamento é típico de sistema em que o neutro é solidamente aterrado.

 

b) Situação após a atuação da proteção

Após a atuação do fusível, pode ocorrer ou não sobretensão, dependendo do tipo de defeito e da fase em que a proteção atua.

 

A abertura do fusível primário pode ocorrer na ordem natural ou não natural. É considerada natural quando a abertura ocorre na fase em que a atuação é esperada, considerando a relação entre a corrente de defeito que passa pelo fusível e a corrente nominal do elo fusível e a característica tempo versus corrente do elo. A ordem da abertura é considerada não natural quando isso não acontece, em função de alguma condição desfavorável, como elo fusível de característica diferente daquela que se espera.

 

Uma abertura monofásica na ordem não natural e a permanência do defeito podem produzir sobretensões severas sustentadas em todos os consumidores do circuito secundário.

 

Os exemplos mostrados nas Figuras 3 e 4, para o caso de transf

ormador trifásico com ligação DY aterrado, com defeitos fase-neutro e fase-fase, podem esclarecer essa questão. Verifica-se que, no caso de defeito fase-neutro, a abertura monofásica na ordem natural pode provocar tensão fase-fase de 1,15 pu. No caso de defeito fase-fase, uma abertura monofásica na ordem não natural pode causar tensão fase-neutro de 2 pu e tensão fase-fase de 1,73 pu.

 

O defeito 2, fases-neutro, também pode produzir sobretensão (tensão fase-neutro de 1,4 pu), mas a sua probabilidade de ocorrência é baixa. Na prática, a saturação do transformador tende a reduzir essas sobretensões.

 

Para bancos de transformadores ou outros tipos de transformador, é realizada análise semelhante.

 

Abertura de fase no primário

As situações aqui tratadas se referem às condições de abertura de fase no primário (de transformador ou trecho de circuito primário), sem a existência de curto-circuito no lado do secundário.

 

A abertura de uma fase no primário de uma estação transformadora MT/BT produz situações desequilibradas de tensão no secundário, que dependem dos tipos de cargas ligadas (monofásicas com alimentação fase-neutro, monofásicas com alimentação fase-fase ou trifásicas) e das relações entre as impedâncias desses diferentes tipos de cargas nas diferentes fases. Dependendo dessas condições, pode haver sobretensões fase-neutro ou fase-fase. As sobretensões tendem a ocorrer nas fases menos carregadas. São situações semelhantes aos casos de curto-circuito com abertura monofásica no primário.

 

No caso de transformador trifásico com ligação DY aterrado, a abertura de uma fase pode produzir, em situações desfavoráveis de desequilíbrio de cargas, tensão fase-fase de 1,15 pu quando há desequilíbrio acentuado de cargas monofásicas ligadas entre fase e neutro e tensão fase-neutro de 2 pu e fase-fase de 1,73 pu quando existem cargas monofásicas ligadas entre fases em condições de desequilíbrio acentuado.

 

Experiências em laboratório com transformador de BT com ligação delta-estrela confirmaram essa possibilidade.

Figura 3 – Curto-circuito fase-neutro na rede secundária

Figura 4 – Curto-circuito fase-fase na rede secundária

 

Abertura de fase no secundário

Esse tipo de ocorrência normalmente não produz sobretensões. A abertura de fase no secundário pode produzir situações em que cargas monofásicas ligadas entre duas fases ou uma carga ligada entre duas fases e outra ligada entre fase e neutro fiquem em série. Teoricamente, existe possibilidade de sobretensão quando cargas indutiva e capacitiva ficam em série e se houver condição de ressonância. Entretanto, essa condição é pouco provável de ocorrer com equipamentos usuais.

Abertura do neutro primário

Esta situação pode produzir sobretensão no secundário de transformador ou banco de transformadores que tenha enrolamento primário com ligação fase-neutro, em sistema primário a quatro fios multiaterrado.

 

Abertura do neutro secundário

Esta situação pode produzir sobretensão em cargas monofásicas com ligação fase-neutro em locais de circuito secundário a jusante do ponto de abertura do neutro em que haja duas ou mais fases. Na condição mais desfavorável, a tensão de fase se aproxima da tensão de linha.

Transitórios de manobra

Embora manobras no sistema supridor, como energização de alimentador de distribuição, chaveamento de banco de capacitores, manobras de linhas no sistema de transmissão/subtransmissão, possam teoricamente causar tensões de pico acima de

2 pu ou 3 pu do pico nominal, principalmente em condições sem carga, simulações indicam que as cargas contribuem para redução dos picos e das durações das sobretensões. Estima-se que as sobretensões que ocorrem efetivamente nos sistemas de distribuição raramente atingem valores que causam danos em equipamentos de baixa tensão.

 

Uma análise de 178 registros de tensões e correntes de alimentadores de 13,8 kV durante religamentos (incluindo religamento de alimentador e religamento do sistema a

montante), compreendendo 90 alimentadores, mostrou que as sobretensões durante religamento são pouco frequentes, sendo comum a ocorrência de pequenas subtensões de curta duração durante os religamentos. Em apenas cinco casos (2,8% do total), houve sobretensão em que o valor de pico superou 1,1 pu do pico em regime e, em um desses casos, o valor de pico foi de 1,7 pu. Nos outros casos, os valores de pico foram inferiores a 1,2 pu. Os picos de sobretensões em todos os casos não persistiram além do primeiro ½ ciclo.

 

Além disso, algumas medições específicas que procuraram avaliar transitórios na rede de distribuição indicaram sobretensões associadas a operações de bancos de capacitores inferiores a 1,5 pu com durações que não ultrapassaram ½ ciclo.

 

Não se descartam tensões transitórias maiores do que as verificadas nessas medições, mas, conforme mostrado anteriormente, no item relativo aos ensaios de suportabilidade, em que os equipamentos suportam níveis de sobretensões bastante superiores a esses, normalmente transitórios de manobra não causam danos em equipamentos de BT.

Descargas atmosféricas

Para a análise da possibilidade de danos de equipamentos em consequência de surtos de origem atmosférica, são utilizados os dados dos registros de descargas atmosféricas. Essa análise leva em consideração o tipo de rede de suprimento de energia em que o consumidor se encontra e a característica de suportabilidade do equipamento a esse tipo de surto.

 

A avaliação consiste em verificar se há uma probabilidade significativa de que o transformador que alimenta o consumidor em questão esteja a uma distância suficientemente pequena, de forma que a sobretensão possa ultrapassar o nível de suportabilidade do equipamento analisado. Essa condição é verificada caso a distância entre o transformador e o ponto de queda do raio seja menor do que a distância crítica, que é um valor abaixo do qual poderia haver dano no equipamento.

 

Essa distância é determinada a partir de resultados de estudos de propagação de surtos em rede de distribuição realizados usando simulações computacionais e é dependente da corrente de descarga, de parâmetros e configurações da rede, de aterramentos e do nível de suportabilidade do equipamento analisado.

 

Os estudos realizados para essa avaliação, valendo-se de simulações computacionais com o programa ATP, foram descritos em [2].

 

Considerando diversas incertezas existentes quanto ao ponto exato de descarga e no processo de propagação dos surtos atmosféricos na rede de distribuição, é adotada uma abordagem conservativa, que fornece resultados no geral pessimistas, a favor de consumidores.

 

A análise é efetuada de maneira descrita a seguir:

– Quanto à posição do ponto de queda de raio, considera-se que é significativa a probabilidade de ocorrer a queda em qualquer ponto dentro da elipse de probabilidade de 50%. É feita a verificação da existência de trecho de rede de distribuição de onde possa haver a propagação de surto para o consumidor em questão na área determinada pela intersecção entre a elipse de probabilidade de 50% e o cír

culo traçado com o centro no transformador e com raio igual à distância crítica. Em caso afirmativo, considera-se que o raio pode ter causado dano no equipamento. A aplicação deste critério é ilustrada na Figura 5.

Figura 5 – Critério para avaliação da possibilidade de dano por descarga atmosférica

 

– Se a distância do ponto de queda de raio for pequena, admite-se a possibilidade de haver dano de equipamento de instalações de BT por surto induzido. A partir de uma estimativa baseada nas informações contidas no trabalho “Tensões induzidas por descargas atmosféricas em redes de distribuição de baixa tensão” (veja bibliografia), adotou-se o valor de 300 m como a distância limite para haver dano de equipamento por surto induzido.

 

– Considerando que as sobretensões causadas pelas descargas diretas ao sistema de distribuição normalmente produzem disrupções em isoladores da rede primária de distribuição e, consequentemente, condições de falta, esses eventos causam, em geral, atuações da proteção de sobrecorrente do alimentador, com ou sem religamento. Assim, o fato de ter ocorrido a atuação da proteção ou a ocorrência de sobrecorrente no alimentador é usado como um dado de confirmação de que a descarga atmosférica teria causado uma situação especialmente severa na rede que possa ter provocado danos de equipamentos de consumidores.

 

– Considera-se que, no caso de descargas diretas, a ocorrência de danos de equipamentos tenderia a se concentrar em locais mais próximos do ponto de queda do raio. Com base nos resultados de simulações, estima-se que os casos de danos de equipamentos se concentrariam principalmente em uma área de raio de cerca de

750 m. Em redes urbanas, considera-se que se houver dano de equipamento a distâncias superiores a 750 m haveria danos também em consumidores localizados a distâncias menores. Para a análise de rede urbana, é admitida a possibilidade de dano a distâncias maiores que 750 m (mas inferiores à distância crítica) se existir(em) outro(s) caso(s) de dano de equipamento na área próxima, além da ocorrência de sobrecorrente.

 

Curto-circuito no sistema de subtransmissão

Curto-circuito no sistema de subtransmissão pode causar elevação de potencial na malha de aterramento da subestação AT/MT, que pode, em princípio, chegar às instalações de baixa tensão nos seguintes casos: sistema de distribuição com neutro interligado à malha da subestação e sistema MRT sem transformador de isolação. A multiplicidade de aterramentos do sistema supridor contribui para reduzir as elevações de tensão. Como esses casos envolveriam grandes áreas e muitos consumidores simultaneamente, a expectativa é de que ocorram múltiplos casos de danos de equipamentos na área próxima.

 

Dados das ocorrências no sistema supridor e indícios da possibilidade de perturbações

 

Na metodologia utilizada para o desenvolvimento da ferramenta computacional de análise de PID, os bancos de dados com as informações das ocorrências no sistema elétrico são acessados para buscar indícios de situações que podem ter gerado perturbações nos consumidores de baixa tensão. Essa busca tem a finalidade de auxiliar a obtenção de dados de ocorrências e na identificação de possíveis eventos relacionados à reclamação de forma rápida, a partir dos dados do consumidor reclamante e sua localização na rede elétrica.

 

O programa PID busca os dados das ocorrências na rede e verifica a existência de determinadas combinações de dados específicos que apontem indícios de ocorrências de situações na rede que possam estar associadas a perturbações. É utilizada uma lista de indícios associáveis a cada uma das situações que podem gerar perturbações. Cada um desses indícios deve ter uma correspondência na base de dados da companhia de distribuição por meio de uma tabela que estabelece essa correspondência com uma combinação de dados da empresa. Assim, a partir dos dados das ocorrências, são identificados os indícios de situações associáveis a perturbações e então a verificação da possibilidade de dano de equipamento é direcionada aos algoritmos de análise de acordo com a situação apontada.

 

Considerações finais

 

Este artigo apresentou os principais aspectos considerados na metodologia de análise de pedidos de indenização por danos em equipamentos de baixa tensão desenvolvida no projeto de pesquisa e desenvolvimento. Esse trabalho compreendeu os seguintes tópicos principais: a) desenvolvimento da metodologia de análise, baseada em estudos de situações em rede elétrica que podem produzir danos em equipamentos de baixa tensão; b) pesquisa de suportabilidade de equipamentos de baixa tensão a perturbações na alimentação; c) desenvolvimento de ferramenta computacional para auxílio à análise de pedidos de indenização.

 

Os trabalhos realizados nesse projeto possibilitaram avanços nas análises de pedidos de indenização no sentido de ampliar os conhecimentos sobre os eventos na rede e sua relação com danos de equipamentos, uniformizar os procedimentos de análise e permitir a agilização da análise técnica para atendimento de reclamações.

 

Cabe mencionar que ainda há pesquisas a serem realizadas nesta área no sentido de obter maior quantidade de dados de medições de campo principalmente de sobretensões transitórias e temporárias, para melhor conhecimento dos níveis das perturbações que ocorrem nos sistemas de distribuição, e também de efetuar investigações adicionais sobre a susceptibilidade de equipamentos a diferentes tipos

de perturbações.

 

Como forma de melhorar os recursos analíticos das companhias de distribuição nas avaliações das perturbações, recomenda-se o incremento do uso de monitores de

qualidade de energia nas suas redes de distribuição para detectar as diversas condições anormais em vários locais da rede elétrica por meio de monitorações permanentes do sistema. Isso seria útil não só para pesquisa dos valores típicos das perturbações, mas para que os registros possam servir sistematicamente como dados para análise rotineira de pedidos de indenização.

 


 

Referências bibliográficas

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* Silva Neto, Acácio. Tensões induzidas por descargas atmosféricas em redes de distribuição de baixa tensão – Dissertação de Mestrado – EPUSP – São Paulo, 2004.

 


 

Dissertação de Mestrado – EPUSP – São Paulo, 2004.

 

Carlos Eduardo Cauduro Figueiredo é mestre em engenharia elétrica e atua na área de Planejamento e Engenharia da AES Sul Distribuidora Gaúcha de Energia S.A.

 

Edson Hideki Takauti é engenheiro eletricista especializado e gerente operacional de estudos e

projetos de redes MT/BT na EDP Bandeirante Energia.

 

Eduardo Luiz Ferrari é mestre em engenharia elétrica, consultor e pesquisador do Centro de Estudos em Regulação e Qualidade de Energia (Enerq), na Universidade de São Paulo (USP).

 

Ivo Teixeira Domingues é engenheiro eletricista da AES Eletropaulo.

 

Juan Carlos Cebrian Amasifen é mestre e doutor em engenharia elétrica, pesquisador doutor da SINAPSIS-Inovação em Energia e colaborador do Enerq/USP.

 

Marcelo H. Iunes é engenheiro eletricista e gerente do departamento de projeto e construção das concessionárias Caiuá, Vale Paranapanema, Bragantina, Nacional e Força e Luz do Oeste.

 

Nelson Kagan é doutor em engenharia elétrica, professor titular da USP, revisor da Sociedade Brasileira de Automática, membro senior do Institute of Electrical and Electronic Engineers (IEEE) e diretor administrativo da SBQEE.

 

Nelson M. Matsuo é engenheiro eletricista e mestre em sobretensões em sistemas de distribuição. É consultor e pesquisador do Enerq/USP.

 

Silvio Xavier Duarte é engenheiro eletricista, mestre e doutor em qualidade de energia elétrica. É professor e pesquisador do Enerq/USP.

 

Tiago Poles de Souza é engenheiro eletricista e mestrando em sistemas de distribuição. É pesquisador do Enerq/USP.

 


 

Participaram ainda deste projeto os profissionais: Flavio Cerdan (AES Eletropaulo), Gilson Loser (AES Sul), Jonas Gonçalves (Grupo Rede), Reinaldo Vinagre, Lucca Zamboni (Bandeirante Energia), Maria de Fatima R. Cavalieri e Vagner M. Pedroso.Este trabalho foi originalmente apresentado durante a oitava edição da Conferência Brasileira sobre Qualidade de Energia Elétrica (VIII CBQEE), realizada entre os dias 2 e 5 de agosto de 2009 em Blumenau (SC).

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