Mercado de energia eólica de pequeno porte no Brasil – Percepção do potencial consumidor

set, 2016

Caderno Renováveis – Julho de 2016
Por Márcio Giannini Pereira, Bruno Montezano e Ricardo Dutra*

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A produção e o consumo de energia são ambientalmente impactantes. Os padrões atuais de consumo podem ser melhorados ao estimular o uso mais eficiente de energia e principalmente na transição de fontes de energia fósseis para fontes renováveis. Em decorrência dos investimentos realizados no passado em hidroeletricidade e no etanol e aos ainda baixos índices relativos de consumo energético, o Brasil ainda possui uma posição confortável em comparação com o resto do mundo em relação a participação de fontes renováveis na matriz energética.

O principal motivador para a identificação do potencial de mercado de aerogeradores de pequeno porte (APP) está nas recentes transformações do setor de geração distribuída promovido pela Resolução Aneel nº 482/2012. Ao classificar a fonte eólica como uma opção de geração descentralizada, a resolução representa o primeiro passo para a criação de um ambiente favorável para a consolidação de um mercado específico para APP.

Uma vez que a resolução apresenta características singulares quando comparada aos principais incentivos aplicados no mundo para fontes renováveis, constatou-se que o crescimento do uso das fontes participantes no âmbito desta resolução é realizado de forma diferencial. Nota-se, através do registro de projetos participantes na Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), um grande desbalanceamento do número de projetos e potência total instalada das fontes solar fotovoltaica e eólica. Mesmo representando 1,2% da potência total dos projetos participantes da Resolução Aneel nº 482/2012, projetos eólicos de pequeno porte para geração descentralizada representam um mercado muito incipiente, mas com grande potencial de crescimento.

Metodologia

Cabe ressaltar que o documento apresentado é parte da pesquisa desenvolvida pela equipe de pesquisadores do Centro de Pesquisa de Energia Elétrica (Cepel), que objetiva contemplar a análise de mercado, a análise de viabilidade, a visão dos agentes e os elementos para o debate. Nesse sentido, o presente artigo busca divulgar as informações associadas à pesquisa relacionada à percepção dos potenciais consumidores. Esta pesquisa auxiliou no entendimento das particularidades do mercado, suas barreiras e perspectivas dos agentes do setor (Figura 1). Projeta-se, como desdobramento da conclusão desta etapa, a inclusão de áreas ainda não abordadas tais como: análise de mercado (estratégias de diferenciação do produto/serviço; rivalidade; concorrência; ameaça a entrada, etc.), análise de viabilidade técnico-econômica e desenvolvimento de cenários de potencial de mercado.

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Figura 1 – Representação esquemática da proposta de desenvolvimento do estudo – Panorama do mercado de energia eólica de pequeno porte no Brasil.

A pesquisa para o consumidor final possui o objetivo central de identificar os determinantes que influenciam o potencial consumidor no processo de decisão de compra da tecnologia. A Figura 2 ilustra as principais considerações abordadas na pesquisa sobre motivações de compra da tecnologia.

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Figura 2 – Motivação de compra de APP (consumidor final).

Considerando a incipiência do mercado de APP no Brasil, questões logísticas e a pouca representatividade que os usuários de APP representam neste momento, optou-se por abrir a pesquisa para avaliar também a percepção daqueles que tinham interesse em adquirir a tecnologia. Neste sentido, foi desenvolvido o minisite (Figura 3) Mercado de Aerogeradores de Pequeno porte – MAPP (http://www.cresesb.cepel.br/app/) contendo um questionário para o público em geral e diversas informações associadas à temática.

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Figura 3 – Questionário Web – Formulário HTML (consumidor final).

A principal estratégia de divulgação do minisite MAPP foi feita por meio do Centro de Referência para Energia Solar e Eólica Sérgio de Salvo Brito (Cresesb) utilizando, principalmente:

  • A lista de e-mails do Cresesb, que possui mais de 700 e-mails;
  • O site do Cresesb (http://www.cresesb.cepel.br/), que obteve 309 mil visitas e cerca de 118 mil visitantes no ano de 2013, o que fornece uma dimensão da amplitude que a pesquisa via web pode atingir, além de cumprir o papel de disseminar informação voltada a energia renovável; e
  • A Casa Solar Eficiente do Cepel, onde são realizadas visitas nas quais uma apresentação é feita ao público sobre fontes renováveis de energia e eficiência energética, incluindo, atualmente, a divulgação da pesquisa sobre o mercado de APP. A título de ilustração, no ano de 2013 foram recebidos 800 visitantes na Casa Solar.

Um convite foi enviado para a lista de e-mails do Cresesb, com mais de 700 potenciais consumidores, convidando-os a preencher o questionário web. Soma-se, ainda, que no site do Cresesb, foi publicada, em destaque, uma notícia e colocada uma chamada permanente na página inicial convidando os usuários a participar da pesquisa e links para o minisite MAPP. Além disso, o minisite foi colocado dentro do mesmo domínio do site do Cresesb (www.cresesb.cepel.br) a fim de aproveitar a sua exposição na internet. Outras estratégias de divulgação utilizadas foram:

  • Contato com revistas digitais especializadas no setor de energia elétrica; e
  • Interação com comunidades da internet específicas sobre micro e minigeração, meio ambiente e sustentabilidade.

Ainda que pese que esta estratégia não possua a aleatoriedade estatística considerando o tipo de amostragem, possui como vantagem capturar informação em todo o território nacional com baixo custo e rapidez de resposta. Esta estratégia também possibilita a continuidade de coleta e a análise das informações ao longo do tempo, identificando, assim, potenciais alterações na percepção do consumidor frente à tecnologia.

É relevante destacar o timeline da pesquisa de forma ilustrativa (Figura 3), observando que foram planejadas duas janelas de pesquisa para o consumidor final: a primeira janela, considerando a restrição de tempo, permaneceu aberta por 35 dias (delimitado em função dos prazos estabelecidos com o Ministério de Minas e Energia – MME) para preenchimento do questionário; a segunda janela de tempo, por outro lado, ficará aberta por um ano.

Nesta primeira janela, foram obtidos 67 questionários preenchidos. Este patamar está acima do inicialmente estimado, indicando que houve uma boa aceitação do público quanto à pesquisa/tema, e que o estudo reflete o interesse da sociedade. Pondera-se que este documento se limita à análise dos dados da primeira janela dos consumidores. Estes dois momentos podem complementar, futuramente, o melhor entendimento dos motivadores de compra do potencial consumidor, além de permitir observar alterações no padrão de motivação ao longo do tempo, sendo esta uma questão central para um planejamento eficiente das estratégias de mercado no âmbito das empresas.

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Figura 4 – Timeline da Pesquisa (janela 01 e janela 02).

Resultados

Com base nas informações consolidadas na primeira etapa de pesquisa, cabe apresentar que 74% dos pesquisados responderam que tinham interesse em comprar um APP indicando que a tecnologia apresenta uma inclinação positiva na percepção dos potenciais consumidores, ainda que não se tenha um horizonte de curto prazo.

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Figura 5 – Interesse de compra de aerogerador de pequeno porte.

A principal motivação de interesse observada está associada à redução da conta de energia elétrica (54%). Neste caso, o fator econômico é indicado como o principal foco de análise do potencial consumidor. Este fato corrobora com a necessidade de os agentes públicos e privados avaliarem as estratégias possíveis no médio e longo prazo para fomentar o segmento por meio da utilização de diversos instrumentos já aplicados em mercados já consolidados, como: abatimento do imposto de renda, desoneração tributária, metas de mercado, compras públicas sustentáveis, entre outras medidas.

Tabela 1 – Motivações de compra de aerogerador de pequeno porte
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Ressalta-se a importância da disposição de investimento dos potenciais consumidores, em que 61% indicam intenção de investir até R$ 10.000 na tecnologia. Soma-se, ainda, a distribuição acumulativa de 69% dos respondentes para investir até R$ 15.000. Este resultado é muito expressivo não apenas pelo percentual significante dos respondentes afirmarem disposição de investir, como também o patamar de investimento. Este indicativo reforça a necessidade de as empresas fabricantes orientarem seus produtos para este patamar. Naturalmente, atingir estes valores é um desafio particular para as empresas, que devem orientar sua visão de longo prazo no desenvolvimento de produtos mais baratos, associado com o aprimoramento do serviço de manutenção e operação. A parceria entre as empresas privadas e instituições públicas de pesquisa e desenvolvimento é fundamental para se avançar em ganho de produtividade e de inovação.

Tabela 2 – Disposição de investimento
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A elaboração do questionário incluiu a hierarquização das características de um APP sob a ótica do potencial consumidor. Neste sentido, o Gráfico 2 ilustra a hierarquização dada pelos respondentes, indicando que os fatores de ordem econômica e técnica possuem o mesmo nível de classificação. Estes resultados indicam que existe um apelo positivo associado ao retorno do investimento e de crédito de impostos nas características de motivação de compra declaradas pelos respondentes, quando consideradas as questões econômicas. Similarmente, o aspecto técnico possui um apelo positivo associado às características de produção de energia elétrica e de vento disponível no local. Ressalta-se, também, que os itens de marca e design são menos impactantes aos consumidores. Este último resultado é natural em mercados ainda não maduros, onde a competição não é realizada particularmente pela marca. Apesar de pouco impactante, os itens apresentados devem ser uma área de ação dos produtores nacionais a médio e longo prazo, considerando o acirramento da competição internacional no segmento de aerogeradores de pequeno porte.

Cabe atentar que diversos respondentes não possuíam conhecimento sobre vários itens perguntados (ex. vento disponível, área disponível, qualidade de energia, etc.), reforçando a necessidade de divulgação no sentido de reduzir a assimetria de informações e propiciar condições suficientes para que o potencial consumidor possa tomar a melhor decisão, dentro da sua carteira de prioridades.

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Figura 6 – Hierarquização das características relevantes da tecnologia usando o valor da mediana da amostra – Ótica do potencial consumidor.

Considerações finais 

Desataca-se que a elaboração do minisite (MAPP –http://www.cresesb.cepel.br/app/) possibilitou agregar valor a pesquisa, estabelecendo um canal de comunicação efetivo com potenciais consumidores e permitindo a promoção da tecnologia, além da divulgação dos resultados parciais da pesquisa. Pondera-se, ainda, que é possível avaliar as mudanças de percepção dos potenciais consumidores uma vez que a pesquisa permanece disponível no site.

Com base nas informações apresentadas, é possível indicar algumas recomendações no sentido de consolidar potenciais estratégias de fomento ao segmento de aerogeradores de pequeno porte, sendo:

  • Desenvolver um fórum de discussão entre os agentes de mercado facilitando, assim, a organização do segmento e redução de assimetria de informações. Esta atividade pode ser capitaneada por uma instituição de pesquisa, universidade, ou propriamente, a Associação Brasileira de Energia Eólica;
  • Desenvolvimento ou aprimoramento de banco de dados de instalações de sistemas eólicos de pequeno e médio portes. Este banco é parcialmente desenvolvido pela Aneel onde ainda falta dispor diversas informações complementares;
  • Desenvolvimento de um mercado certificador. Esta questão é fundamental para a expansão do setor, possibilitando credibilidade e informação para o consumidor final;
  • Desenvolvimento do Atlas de Energia Eólica para Pequeno Porte, disponibilizando aos agentes informações mais seguras sobre o potencial de energia eólica;
  • Linhas de financiamento específicas para as empresas produtoras, assim como subsídios para o potencial consumidor final, reduzindo o impacto do investimento inicial para o consumidor e ampliando o efeito escala na produção;
  • Estratégias de divulgação para outros segmentos da sociedade, não se restringindo a divulgar a tecnologia a nichos essencialmente tecnológicos. Deve-se ampliar esta divulgação a segmentos afins a sustentabilidade; e
  • A questão tributária é central para a expansão do setor. Estados como Minas Gerais já não cobram ICMS sobre a geração de energia elétrica (microgeração). Recomenda-se um alinhamento de todos os estados no sentido de retirar este entrave.

Ao concluir este marco da segunda etapa do estudo, foi possível ter um panorama do estágio de maturidade do mercado e a percepção dos potenciais consumidores. Conjuntamente, foi possível diagnosticar, de forma mais assertiva, o mercado, avaliando as falhas na cadeia produtiva, analisando pretensos reflexos positivos e destacando possíveis aperfeiçoamentos na busca da promoção do mercado doméstico, e seus impactos na expansão da “economia verde”.

Por fim, destaca-se que o estudo apresentado consolida uma base de informações inédita no país sobre o mercado de APP. O desenvolvimento metodológico da pesquisa, considerando a percepção dos agentes da cadeia produtiva e resultados obtidos, mostra que tal metodologia pode ser replicada para outros segmentos, podendo contribuir para o fomento do mercado de microgeração no Brasil.


Referências 

  • [01] ANEEL, 2012, Regulamentação para o Acesso de Microprodutores aos Sistemas de Distribuição de Energia Elétrica Resolução ANEEL 482/2012. Rio de Janeiro: [s.n.]. Agência Nacional de Energia Elétrica – Apresentação no I Workshop de Geração de Eólica Distribuída, Rio de Janeiro, Brasil. Disponível em: <http://www2.cepel.br/swworkshop/ portugues/palestras.html>. Site visitado em:17/09/2013.
  • [02] ANEEL, 2014a, Avaliação dos resultados da Resolução Normativa nº 482/2012 na visão do Regulador. Seminário Micro e Minigeração Distribuída – Impactos da Resolução Normativa n. 482/2012. Brasília – Distrito Federal: [s.n.]. Dias 9 e 10 de abril de 2014. Disponível em:<http://www.aneel.gov.br/hotsite/mmgd/>. Acesso em: 09 Dez 2014.
  • [03] WWEA, 2012, Small Wind World Report Summary 2012. World Wind Energy Association, Ed. WWEA. ISBN 978-3-940683-04-5

*Este trabalho foi originalmente apresentado durante o Brazil Windpower 2015, realizado entre os dias 1 e 3 de setembro de 2015, na cidade do Rio de Janeiro [RJ].

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