Luz e sombra

ago, 2016

A luz artificial pode transformar a atmosfera de um ambiente, interno ou externo, gerando aos que ali se encontram uma sensação de bem-estar. Conheça, a seguir, alguns projetos de iluminação que conseguiram esse feito com louvor e outros que se tornaram marcas registradas de cidades brasileiras

A iluminação é uma parte de extrema importância em um projeto arquitetônico. As mais variadas construções e localidades podem adquirir outra faceta dependendo da luz que nelas estiver inserida ou se nelas não se inserir luz alguma. Muitas vezes, ao entrar em um estabelecimento comercial ou em uma residência, sentimos uma sensação agradável que não conseguimos explicar. Esta sensação pode estar vindo da luz que ilumina o ambiente. Pensada para funcionar de maneira harmônica, ela é usufruída pelo indivíduo sem que este nem mesmo perceba. A iluminação pode também incomodar. Quem nunca reclamou, em um escritório, daquela luz branca, forte, que dá dor de cabeça e acaba até atrapalhando o desempenho no trabalho? Em locais públicos, como ruas, avenidas e praças, a falta de iluminação é o que afeta os transeuntes. Excesso de escuridão, nesses casos, gera insegurança, diminui o tráfego de pedestres após o pôr do sol, e coíbe a vida noturna nestas áreas.

Neste sentido, o papel de um especialista em projetos de iluminação, o chamado lighting designer, torna-se essencial, pois será este o profissional que irá pensar nos tipos de lâmpadas, luminárias e na disposição destes equipamentos nos ambientes, a fim de que a experiência da pessoa no local seja a mais agradável e proveitosa possível. Obviamente, levando-se em conta o tipo de atividade que ali será realizado. O sócio proprietário da empresa especializada em projetos luminotécnicos Arquitetura da Luz, Edmir Malveze, explica que “a luz é um estudo”, e que sendo, assim, “ela deve ser muito bem aplicada dentro do que o projeto realmente necessita”.

Baseando-se na experiência de 16 anos que tem no mercado, com aproximadamente cinco mil projetos realizados, Malveze afirma que pode se estabelecer uma diferença básica entre projetos voltados para residências, por exemplo, e projetos direcionados a escritórios corporativos, indústrias e estabelecimentos comerciais  Isto em razão da norma ABNT NBR ISSO/CIE 8995-1:2013, que substituiu a antiga ABN NBR 5413, que estabelece os valores de iluminância média mínima em serviço para iluminação artificial em interiores, onde se realizam atividades de comércio, indústria, ensino, esporte e outras.

“Então, quando falamos de um projeto decorativo, residencial ou até em lojas, em que não precisamos efetivamente pensar nestas normas, estamos tratando de um projeto mais tranquilo”, explica o proprietário da Arquitetura da Luz. Ou seja, neste tipo de projeto, a preocupação maior é com a decoração, se a luz ficará agradável ou se embelezará o ambiente.

No caso de projetos direcionados ao ambiente corporativo, segundo Malveze, o projetista precisa ter em mente que é preciso respeitar, entre outras coisas, por exemplo, o mínimo de 500 lux em uma mesa de trabalho. Assim, em projetos deste tipo, a margem para o designer usar sua criatividade diminui sensivelmente.

Além de influenciarem o tipo de iluminação a ser empregada em cada tipo de ambiente, as exigências normativas afetam também a forma como os lighting designers atuam. Pois, quando o projeto envolve a aplicação de normas técnicas, o projetista precisa do auxílio de um software de cálculo luminotécnico. Para ilustrar a utilização do programa computacional, Malveze cita um exemplo bem prático: a iluminação de um escritório em que há a necessidade de ter 500 lux no plano de trabalho. Em primeiro lugar, determina-se a luminária que será utilizada. Depois, junto com esta informação, são inseridas no software – como, por exemplo, o Dialux – diversas informações relacionadas ao projeto, como as dimensões do ambiente, o pé direito, os acabamentos, a cor da parede, a cor do piso, do teto.  “Em cima disso ele vai nos dar a quantidade de luminárias necessárias para o projeto. “É matemática pura: metragem quadrado, lux, lumens”, diz.

Não obstante, de acordo com o sócio proprietário da Arquitetura da Luz, o fato de o designer ter que se preocupar, primeiramente, com as normas a serem seguidas em um projeto como este não quer dizer que ele não possa exercer sua criatividade e projetar uma iluminação personalizada, que siga orientações do cliente, caso este queira algo diferenciado. Malveze explica que, quando se trata de iluminação, é necessário distinguir, de pronto, os dois produtos essenciais dos projetos: a lâmpada e a luminária. “Eu costumo dizer que a luminária é roupa da lâmpada. Então, temos roupas mais bonitas, mais feias, mais simples, mas quem manda mesmo é a lâmpada”, conta. Desse modo, entende-se que, se não é possível mexer na lâmpada, já que é preciso que ela emita a quantidade de lux exigidas pelas normas, é aceitável ousar nas luminárias.

Quando a solicitação do cliente é um projeto básico, costumam-se utilizar, segundo Malveze, refletores de alto brilho, as chamadas luminárias aplicadas, que formam a curva de luz necessária, para que no ambiente se exerça a atividade laboral sem problemas. “Mas, muitas vezes, o projeto necessita de um design de iluminação mais interessante, pois o cliente quer ter um espaço descolado. Então, nós usamos, sim, luminárias decorativas, com um apuro estético, contudo, mesmo assim conseguimos aplicar os luxes necessários”, explica.

Projeto de iluminação do escritório do Youtube

Um desses casos em que foi necessário atrelar as exigências normativas ao estilo solicitado pelo cliente foi o projeto de iluminação do escritório do Youtube, em São Paulo. Idealizado pelos escritórios de arquitetura Rosenbaum e Aleph Zero, o projeto contou com luminárias especialmente desenvolvidas pela Arquitetura da Luz. Conforme Malveze, o cliente demandou que “fosse um ambiente totalmente descolado, em que se pudesse trabalhar a luz como quisesse”.

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O projeto consistiu na iluminação de todas as salas de trabalho, recepção e área de convivência. O cliente demandou que fosse um ambiente “descolado” em que se pudesse trabalhar a luz como quisesse.

Dessa maneira, os designers precisavam adequar as luminárias mais sofisticadas com lâmpadas técnicas para respeitar as normas da ABNT. “Resumidamente, o projeto exigia conforto visual, luminárias bacanas e adequação às normas técnicas”, explica Malveze. Assim, pensando nestes três pilares, a ideia principal do projeto foi a aplicação de luminárias diretas e indiretas com grelhas antiofuscantes.

 

Inicialmente, pensou-se em lâmpadas do tipo Tuboled para realizar as exigências do cliente, contudo, este tipo de equipamento restringia-se apenas a jogar a luz para baixo e, como dito, o projeto necessitava de uma luz direta e indireta. Para fazer isso com tuboleds, seriam necessárias duas lâmpadas deste tipo – uma para cima e outra para baixo –, o que tornaria o projeto inviável já que o consumo de energia elétrica se tornaria muito alto.

Então, o especialista conta que foram mantidas as lâmpadas T5 fluorescentes de 28 W. Não tão econômicas quanto a tuboled de 20W, mas ainda assim eficientes. Com a luminária projetada pela Arquitetura da Luz, munida de aletas, foi possível fazer esse jogo de luz. “Se eu fecho, eu uso a aleta como refletor e jogo essa luz toda indireta e se eu abro, a mesma coisa, utilizo a aleta como refletor e jogo toda a luz para baixo, direta”, explica.

O projeto consistiu na iluminação de todas as salas de trabalho, recepção e área de convivência. E, por meio das luminárias desenvolvidas pela Arquitetura da Luz, foi possível que, ao jogar a luz toda para baixo através da abertura da aleta, se conseguissem os 500 luxes mínimos exigidos pela norma técnica.

 

Projeto luminotécnico do Centro Administrativo La Pastina

Ainda no que diz respeito a projetos de iluminação direcionados a escritórios, vale destacar o projeto luminotécnico do Centro Administrativo da importadora de bebidas e alimentos gourmet do Brasil, La Pastina, realizado pela arquiteta Paula Carnelós, titular da Acenda Projeto de Iluminação.

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A La Pastina quis que fossem buscadas as melhores soluções de iluminação disponpiveis com o objetivo de economia de energia, redução de manutenção e, principalmente, promover a qualidade dos ambientes internos.
A La Pastina quis que fossem buscadas as melhores soluções de iluminação disponpiveis com o objetivo de economia de energia, redução de manutenção e, principalmente, promover a qualidade dos ambientes internos.

Conforme a arquiteta, o intuito do cliente foi o de buscar as melhores soluções de iluminação disponíveis com objetivo de economia de energia, redução da manutenção e, principalmente, promover a qualidade dos ambientes internos. Contudo, não foi utilizado Led no projeto, isto porque, explica Paula, na época – o projeto data do final de 2012 –, a tecnologia estava começando a ser introduzida no mercado brasileiro, através de poucas empresas e fabricantes, fazendo com que os produtos de qualidade ainda tivessem um valor elevado. “Como o nosso objetivo, bem como dos clientes e arquitetos, foi de buscar a qualidade, optamos pelo uso de sistemas de iluminação convencional, com luminárias e equipamentos de alto rendimento”, diz.

A arquiteta destaca a preocupação do cliente com opções de sustentabilidade, mesmo sem ter como objetivo obter algum tipo de certificação, visando a qualidade dos espaços e de bom uso do edifício. Por isso, neste caso, mesmo com uso de fontes convencionais, foram empregadas luminárias com alto rendimento: lâmpadas fluorescentes T5 de 13 W e de 25 W e lâmpadas refletoras Eco, de 35 W e de 50 W. Para otimizar a iluminação do espelho d’agua existente na edificação também foi utilizada fibra ótica, com lâmpada a vapor metálico. Entre outras tecnologias empregadas, estiveram reatores de fator de fluxo e automação com sensor de luz natura, sensor de presença e ocupação. Nas áreas de escritórios, foram utilizadas lâmpadas com temperatura de cor de 4000 K e nas demais áreas de 3000 K.

 

“Com este projeto conseguimos uma redução significativa do consumo de energia”, afirma Paula, salientando que o projeto foi vencedor, em 1º lugar, do Prêmio Abilux 2013, na categoria Projeto de Iluminação Corporativo.

 

Projeto de iluminação da Ponte Estaiada, em Teresina (PI)

Uma outra categoria de projetos de iluminação, que exige diferentes soluções por parte do lighting designer, é o de exteriores, que engloba a iluminação de monumentos públicos, fachadas, ruas, avenidas, etc. Um exemplo deste tipo de obra é o projeto da Ponte Estaiada de Teresina, no Piauí, realizado pela Citelum Brasil – antiga Citéluz -, empresa de serviços de iluminação urbana, que foi implementado no final de 2014. Conforme o gerente da agência Teresina da Citelum, Guido Oliveira, o projeto pode ser dividido em duas partes: a iluminação artística realizada nos estais da ponte e a iluminação viária, nas avenidas marginais.

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O projeto foi dividido em duas partes: a iluminação artísticas realizada nos estais da ponte e a iluminação viária, nas avenidas marginais. Com a iluminação reforçou-se a identidade visual do município e ainda se conseguiu economizar 50% de energia elétrica.

Com 363 metros de comprimento total, 98 metros de altura e 35 pares de estais, 70 no total, a ponte recebeu 160 unidades de lâmpadas Led 50W e 40 unidades de lâmpadas Led de 300 W. Os equipamentos utilizados foram projetores de Led RGB (colorido), objetivando uma iluminação decorativa, como já é de costume nos projetos luminotécnicos de monumentos. A diferença deste projeto para os demais, segundo Oliveira, é que as luzes nos estais são comandadas em grupos, possibilitando a variação de cores de uma só vez. Foram colocados de dois a três projetores em cada estal, sendo que cada grupo de 4 a 6 estais emite uma cor diferente de luz. “Assim, é possível fazer a transição de uma cor para outra, gerando o efeito cortina”, explica. “O que se faz normalmente são iluminações maiores, com a ponte inteira mudando de cor uniformemente”, pondera.

 

Oliveira explica que a Ponte Estaiada de Teresina funciona como um cartão postal da cidade e esta iluminação reforçou bastante a identidade visual do município. Além disso, permitiu que a capital piauiense pudesse participar de várias datas importantes, como o Outubro Rosa (combate ao câncer de mama), e o Novembro Azul (combate ao câncer de próstata), nas quais a ponte foi iluminada com as respectivas cores que nomeiam as campanhas. E por ter a possibilidade de variar as cores na ponte inteira, a cidade pôde homenagear também as vítimas do ataque em Paris, por exemplo, “tingindo” a construção das cores da bandeira francesa: azul, vermelho e branco.

 

Por sua vez, a parte viária contou com uma iluminação padrão, mais convencional, no qual foram substituídas lâmpadas a vapor de sódio de 400 W por Leds de 210 W. Ao todo, foram 30 unidades de lâmpadas. “A lâmpada de vapor de sódio possui uma cor mais amarelada, o que tirava um pouco da vida noturna ao redor da ponte. Já com o Led, que apresenta uma cor branca, consegue-se um índice de reprodução de cor mais próximo do ideal, levando mais vida ao local”, diz o gerente da agência Teresina da Citelum. Além disso, a mudança gerou uma economia de 50% no consumo de energia elétrica na via em relação à tecnologia anterior. “A população gostou bastante”, conclui.

 

Projeto de iluminação da Ponte Estaiada Octávio Frias de Oliveira

Ao se falar da iluminação de uma ponte Estaiada, vem à mente de todos que moram na capital paulista, e daqueles que alguma vez já trafegaram pelas ruas da cidade mais populosa do Brasil, a imagem fulgurada da Ponte Octávio Frias de Oliveira, com seus portentosos estais suspensos sobre as marginais do Rio Pinheiros.

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Nos mastros da torre sob a marginal do Rio Pinheiros, que tem 138m de altura, foi empregada a tecnologia Led RGB. Ao todo foram instalados 142 projetores com 36 lâmpadas de Led agrupadas em cada projetor.

Desenvolvido pelo engenheiro eletricista e lighting designer Plínio Godoy, com o escritório Luz Urbana, o projeto luminotécnico do agora cartão postal de São Paulo foi, de acordo com o engenheiro, um dos primeiros projetos deste porte desenvolvido no país. Nos mastros da torre, que tem 138 m de altura, foi empregada a tecnologia Led RGB, com controles DMX programáveis com informação via tecnologia Powercord. Ao todo, foram instalados 142 projetores, com 36 lâmpadas de Led agrupadas em cada projetor, totalizando uma potência de 50 W. Já no sistema viário, onde hoje se encontram luminárias Led, foi utilizada uma fonte de luz chamada Cosmópolis, lâmpada de multivapores metálicos, solução eficiente à época – o projeto data de 2008-, econômica e com alto índice de reprodução de cores.

“A intenção era iluminar um novo ícone de São Paulo, que durante o dia é imponente e que durante o período noturno se torna também uma referência urbana”, explica Godoy. Nesse sentido, buscou-se utilizar os efeitos dinâmicos do Led em uma área da torre onde os demais sistemas não interferissem, pois almejava-se que as cores projetadas fossem destacadas. “Assim, posicionamos os equipamentos de forma a criarem exatamente os efeitos projetados e calculados”, diz. “O resultado foi perfeito e identificado como um bom projeto”.

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