As lições que vêm dos balcões

nov, 2010

Ed. 57 – Outubro de 2010

Por Luiz Fernando Arruda

Mesmo antes de me formar em engenharia eu já acreditava muito no lado prático das coisas e no que podemos aprender com quem trabalha em “campo”. Na verdade, isso teve início quando comecei a dar aulas no ensino médio

e pude conviver com professores experientes, alguns deles que tinham sido meus mestres e que me acolheram como colega, mas nem por isso deixaram de continuar sendo meus educadores.

Após 11 anos trabalhando com projetos e obras de usinas hidroelétricas, subestações e linhas de transmissão, passei a trabalhar na área de distribuição de energia elétrica onde a figura do cliente permeia todas as decisões. Na distribuição, toda a engenharia toca, em cada pequena decisão, as pessoas que precisam da energia elétrica no seu dia a dia. Se não forem bem pensadas e explicadas vão se chocar com os clientes.

Assim, torna-se necessário, além do básico e imprescindível conhecimento técnico, a sensibilidade para avaliar o impacto de cada medida na vida dos clientes. Neste novo cenário, logo no início, fui percebendo a força dos balcões do comércio especializado de material elétrico.

Neste segmento estabelecemos parcerias com grandes empreendedores, que perduram até hoje, para propiciar desde o treinamento de eletricistas que fazem os padrões de entradas de unidades consumidoras individuais (muitos deles na verdade são pedreiros e muitos destes analfabetos, mas que conseguem entender e atender aos requisitos de uma tabela numérica) até a emissão de normas para balizar o projeto de instalações elétricas de edificações coletivas, com muitas unidades consumidoras de baixa tensão, e mesmo de unidades atendidas em média tensão.

Lançando novas práticas como a substituição dos antigos relés primários (os famosos “pica-pau”) pelos relés eletrônicos (na década de 1990), enfrentamos, enquanto concessionária e comércio especializado, a grande dificuldade de fazer chegar aos colegas projetistas informações, critérios de projeto e o acesso a fabricantes para aquisição de transformadores de instrumentos e relés. Principalmente os colegas residentes no interior do Estado de Minas Gerais tinham muita dificuldade para se manter atualizados nos tempos pré-internet.

Tudo passa pelos balcões: indicam-se padronistas, materiais e projetistas. Indicam-se marcas também. E isto demanda certos cuidados, pois alguns fabricantes fazem um trabalho de convencimento muito estranho de forma que, quando confrontamos o vendedor, ele entrega que “no coquetel ou no churrasco promovido pelo fabricante teve uma pequena palestra de um famoso consultor em que ele mostrava as grandes vantagens e exclusividades da marca” e que “vender mais de tal marca assegura prêmios”.

Isto também chega a extremos de desinformação, como na vez em que, ao perguntar pela capacidade de interrupção de corrente de uma pequena chave de baixa tensão, fui informado que tudo dependia de quanto eu conseguiria ser ágil na sua operação pois a “chave em si poderia abrir qualquer valor de corrente”.

A avaliação de normas oficiais também não resiste à verdade prática dos balcões. Veja-se, por exemplo, o novo padrão de tomadas; é muito comum já comprá-las e junto levar os adaptadores. Se não há mesmo o condutor de proteção quem pode condenar isto? E vamos de padrão novo: vendendo mais! Se a ideia era vender e lucrar mais, funcionou. Mas a realidade é que tecnicamente nada mudou e os teóricos que acreditam nisto podem ir a qualquer loja e verificar isto pessoalmente. E se visitarem obras em curso vê-se também que somente pequena parte das construções tem de fato uma instalação adequada.

A visita a algumas lojas também pode trazer uma preciosa informação para as concessionárias: telefones e nomes de especialistas que podem instalar um padrão de entrada com consumo reduzido ou “eficientizado”.

Portanto, se quisermos que as normas e procedimentos corretos aconteçam de fato, devemos atuar também no comércio especializado, em que os clientes vão procurar informações, profissionais e materiais.

Ou seja, para o bem ou para o mal, nos balcões especializados, as coisas acontecem de forma real. Compram-se cabos de quinta categoria (fios descentralizados no isolamento e isolamento sabe-se lá feito de quê), em completo desacordo com as normas em vigor e compra-se material adequado também.

Em lojas onde há de fato treinamento sério e profissionalismo as coisas se encaminham para o lado bom. Estas não são, infelizmente, a maioria.

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