Instalações MT

abr, 2010

Alguns mitos sobre perdas não técnicas

Nesta e, em outras edições, pretendo abordar algumas questões que incomodam – e muito – os que trabalham nas concessionárias de energia elétrica tentando estancar os vários “buracos” pelos quais escoa parte do faturamento das empresas.

O nosso dia a dia é tenso e estamos sempre espremidos pela necessidade e expectativa de resultados, pelas muitas formas de dissimulação de uma fraude e pelo risco envolvido na tarefa, muito além do já inerente às nossas atividades, o risco elétrico: aquele risco da integridade física, pois em muitos locais do Brasil, até mesmo levar a polícia a um local para um simples registro de ocorrência é, realmente, uma tarefa árdua.

Não temos dúvidas que as tecnologias hoje disponíveis devem ser priorizadas como ferramentas importantes para detecção de irregularidades, para uma melhor caracterização dos problemas encontrados e mesmo para dificultar a consecução de fraudes e desvios – caso dos medidores eletrônicos com tampa solidarizada à base e de redes com algum nível de blindagem.

Mas, ao mesmo tempo, temos que ser muito cuidadosos ao assumir certas premissas de resultados esperados de projetos de automação, sejam eles quais forem.

Vejamos o exemplo de Curaçao, uma ilha caribenha, que, para diminuir a inadimplência iniciou um programa de pré-pagamento; ao final da implementação de algo próximo a 20% das unidades, descobriu-se que a inadimplência realmente havia caído, mas que havia inúmeras conexões clandestinas e vários casos de medidores com “by-pass” que não existiam antes do programa ser iniciado.

Prova-se aí o efeito de vasos comunicantes entre inadimplência e perdas por fraude, velho conhecido dos colegas da área de proteção da receita com quem convivo nestes últimos 25 anos.

Por isso, a tecnologia a ser usada tem que ser adaptada à área de aplicação de forma a cercar o problema contido no dilema “se não pode pagar, rouba, se não pode roubar, fica inadimplente; se não pode manipular o medidor, rouba na rede”. Isto fatalmente nos leva, ao tratar áreas com baixo índice de urbanização, a trabalhar com medição externa (instalada na rede de distribuição), com algum nível de blindagem da rede e automação para corte/religação remotos (quem vai lá fazer isto?), com balanço energético (“enxerga” problemas desde seu início) e, quando nosso ambiente regulatório permitir, com a oferta de pré-pagamento, de tarifa horo- sazonal para clientes de baixa tensão, etc. Neste caso, com o hardware todo instalado, o custo do pré-pagamento, por exemplo, se reduz a estrutura de prévenda (que implica desconto na tarifa e ganho de cada venda para o operador) e funções a serem acrescentadas aos sistemas corporativos, pagamento aos agentes de venda e a um acréscimo da quantidade de faturas a serem emitidas nos casos de compra de energia muito fracionada ao longo do mês.

Outros ganhos vêm como consequência: leitura remota, eliminação de erros e de “erros” de leitura, maior controle sobre a rede, melhor dimensionamento de transformadores e melhoria da qualidade do atendimento pelo aviso automático de falta de tensão.

Empresas norte-americanas também se enganaram na avaliação quando investiram em sistemas puros de automação de leitura; inicialmente entenderam que isto resolvia tudo e hoje já partem para a atualização de seus sistemas AMR para outros mais avançados e multi- funcionais.

Isto tudo tem que vir ao lado de uma mudança de atitude da concessionária, aproximando-se da comunidade a que serve, tornando-se mais humana e parceira, de fato, dos clientes.

Portanto, todo o cuidado é pouco. A incômoda e antiga atividade de inspeção nas unidades consumidoras e a vigilância do sistema “in loco” não serão assim tão facilmente tornadas desnecessárias. Não existe bala de prata que mate as perdas não técnicas. Não existe solução única nem definitiva para uso generalizado.

Se observarmos o que vem ocorrendo no Brasil e no mundo nos últimos 15 anos identificaremos os mitos que vão sendo criados e depois desmascarados pelos resultados que apresentam.

Comentários

Deixe uma mensagem