Gerenciamento de energia no Brasil

jul, 2010

Edição 53 – Junho de 2010

Por Lívia Cunha

O aumento do custo de energia elétrica, a escassez de recursos não renováveis e o crescente apelo ambiental foram determinantes para a adoção de ações de gerenciamento energético pelas empresas. Mas cada um teve um peso diferente no processo. Veja como ele aconteceu a partir da segunda metade do século XX.

 

 

A adoção do conceito de gerenciamento de energia e de medidas otimizadoras do consumo no Brasil ainda é muito recente. Para entendermos como isso começou no País, é preciso que voltemos anos atrás na história da exploração da energia elétrica no território nacional.

Quando a eletricidade começou a ser empregada na sociedade, fosse na forma de força motriz para equipamentos e máquinas, fosse na conversão de energia luminosa para clarear casas e caminhos, há pouco mais de um século, as fontes de energia ainda estavam abundantemente disponíveis, foi utilizada de maneira rudimentar, sem grande controle sobre as maneiras de utilização e de distribuição pelas regiões consumidoras.

A energia elétrica era gerada a partir da queima do carvão vegetal – e, posteriormente, de outros tipos de combustíveis fósseis – e da energia potencial de quedas d’águas, que foram as fontes iniciais de obtenção de eletricidade na década de 1880. Por isso, nos primeiros anos do desenvolvimento de sua técnica e da popularização do seu uso, assim como da adequação da sociedade a esse novo paradigma energético, os profissionais que trabalhavam com a eletricidade se preocuparam mais com a ampliação de acesso a essa fonte energética do que com um possível controle do seu uso.

Há que se compreender que, naquela época, as concessionárias de energia elétrica estimulavam fortemente o consumo como forma de expandir seus negócios, seu número de clientes e, consequentemente, seu lucro. Para isso, faziam grandes investimentos – apesar dos subsídios oferecidos pelos governos – e procuravam alcançar o retorno desses capitais empregados o mais rápido possível.

A energia elétrica permitiu que os países se desenvolvessem de uma maneira tão rápida como nunca tinha se visto antes. Ela, principalmente, por meio de seus produtos subsequentes, conectou pessoas, reduziu distâncias, ampliou infraestruturas, aumentou a produção de indústrias, permitiu o desenvolvimento de novos bens de consumo e de capital, inseriu, sobretudo, nas sociedades ocidentais, uma nova forma de consumo e de comportamento em torno da eletricidade e seus derivados.

Com isso, a vida se tornou mais fácil. O consumo de eletricidade aumentou e sua produção cresceu, mas não o suficiente para acompanhar a demanda por crescimento industrial e populacional. E diversos problemas começaram a surgir, precisando ser administrados para garantir um consumo seguro da energia. Os recursos começaram a se escassear, os preços aumentaram e o consumo precisou ser controlado. Em pouco mais de um século, o mundo viu a ascensão e a crise do nosso modelo elétrico, baseado em fontes energéticas não renováveis e, portanto, limitadas.

Isso fica especialmente claro durante períodos críticos, como durante o racionamento de energia de 2001 no Brasil; as crises energéticas da Argentina em 2004 e 2007; e agora, em 2010, quando a África do Sul, sede da Copa do Mundo da Fifa, sofreu a possibilidade de vivenciar um apagão energético durante o mundial de futebol. Sem o planejamento energético, o monitoramento de consumo, a consciência de uso e o gerenciamento da energia a ser consumida, é mais difícil garantir que todos poderão utilizar a energia elétrica para sempre em suas necessidades cotidianas.

Por isso, as crises e os altos custos da energia, juntamente à crescente preocupação ambiental e mobilização em torno da sustentação do planeta, contribuíram para o desenvolvimento e a aceleração da adoção de ações de gerenciamento de energia, em especial, em empresas e indústrias. Mas para entender como esse processo aconteceu no Brasil, a partir da segunda metade do século XX, precisamos retornar mais de meio século na história contemporânea, quando começaram as crises do petróleo.

Conjunturas

Os países ocidentais basearam suas economias em combustíveis não renováveis e de acesso limitado, principalmente, o petróleo na história recente da humanidade. A disputa e a busca por esse ouro negro movimentou diversas nações. Para se ter ideia, desde 1951, o mundo vinha sofrendo com a dependência do petróleo que pertencia – e ainda pertence – a um grupo restrito de países. Neste ano, foi registrada a primeira e expressiva crise do combustível, quando o primeiro ministro iraniano nacionalizou os poços britânicos nos países pertencentes à British Petroleum.

Até 1973, quando foi registrado o que é normalmente chamado de Primeiro Grande Choque do Petróleo, que atingiu grande número de países, direta ou indiretamente, pequenas crises foram registradas. Essa conjuntura mundial foi determinante para que uma preocupação surgisse em torno das empresas de gerenciamento de energia, fazendo com que ações práticas começassem a ser tomadas, como relata o diretor da Ação Engenharia e Instalações e presidente da Associação Brasileira das Empresas de Serviços de  Conservação de Energia (Abesco), José Starosta.

“O grande fato para a mobilização das empresas foi a crise do petróleo de 1973. Isso porque esse processo abriu os olhos do mundo moderno, o qual compreendeu que a energia era um bem, que não era aquilo que se imaginava antes, que não era inesgotável. Os países estavam sem energia e tudo isso deu uma outra tônica para a questão. Daí veio a ideia de conservação de energia, de trabalhar essa situação, inicialmente, pelo apelo estratégico e financeiro”, conta.

No período, o Brasil possuía muitas usinas de geração eletrotérmica e a crise atingiu em cheio a economia nacional. O País sofreu o impacto da elevação dos preços da energia, devido à forte dependência que sofria – na época da crise, 80% do óleo bruto consumido no Brasil era importado. Com isso, tudo ficou muito caro e, por uma questão econômica, as empresas e as indústrias precisaram economizar energia. Ao mesmo tempo, houve um estímulo nacional de mudança de matriz energética. É dessa década o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), que estimulou a substituição de combustíveis derivados do petróleo pelo etanol da cana-de-açúcar e o início da construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu.

O governo federal incentivou ainda a diversificação da matriz energética para fontes renováveis geradoras de energia elétrica, em especial a hidroeletricidade, e a iniciativa privada começou a adotar conceitos já difundidos em outros países, a fim de começar a gerenciar a energia utilizada nos processos industriais. O crescente apelo ambiental e de sustentabilidade, que ganharam popularidade nos últimos 20 anos, em especial, na última década, também foram importantes para que governo e empresas se mobilizassem.

No meio da década de 1980, relata Starosta, começaram a surgir no Brasil lâmpadas econômicas, inversores de frequência e processos de automação, que deram ao mercado de instalações elétricas a chance de otimizar o consumo de energia, com apelo econômico, mas ainda de maneira incipiente e isolada. Ações mais coordenadas nesse sentido só foram registradas no fim do século XX e início deste século.

Uma empresa que começou a mensurar e monitorar os dados do consumo de energia elétrica nas suas fábricas ainda na década de 1980 foi a General Motors do Brasi

l. O engenheiro sênior de manufatura, da divisão de serviços de energia e utilidades da GM, Nilson Silva, conta que na época em que essa medição da energia começou a ser feita, ela era realizada de uma maneira muito simples e sem grande acompanhamento dos dados.

“Quando a gente começou, ninguém falava em quanto você gasta de energia com a fábrica parada. Era somente o quanto você gasta de energia no mês”, diz. Mais do que o aprimoramento dos processos, Nilson ressalta que nesses 30 anos houve outra mudança que fez toda a diferença no processo de gerenciamento de energia: a leitura dos dados coletados, ou seja, a forma de como é analisado o consumo dos insumos energéticos.

Mas as iniciativas eram pontuais, tomadas principalmente por grandes empresas que tinham grandes consumos e custos com eletricidade. Não havia ainda iniciativas significativas governamentais de incentivo à conservação, ao gerenciamento ou à eficiência energética. Foi apenas no fim de 1985, que o governo começou então a pensar no assunto, quando os ministérios de Minas e Energia e da Indústria e Comércio criaram o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), sendo gerido por uma Secretaria Executiva, subordinada à Eletrobras.

Apesar de ter sido instituído na metade da década de 1980, o programa tinha abrangência restrita e suas ações não contemplavam todas as concessionárias de energia, tampouco os fabricantes de equipamentos e produtos eletroeletrônicos. Em 1991, o programa foi ampliado e adquiriu mais responsabilidades. Neste ano, ficou estabelecido que todas as empresas do setor elétrico deveriam destinar 1% de sua receita em ações de conservação de energia, segundo documento da Eletrobras Furnas, empresa do Sistema Eletrobras.

Legalmente, o Procel tem a finalidade de integrar as ações, visando à conservação de energia elétrica no País, em uma visão abrangente e coordenada. Ele tem por objetivo promover a racionalização da produção e do consumo de energia elétrica para que se eliminem os desperdícios e se reduzam os custos e os investimentos setoriais. Nesse sentido, em 1993, foi instituído o Selo Procel de Economia de Energia, que indica ao consumidor comum os produtos – entre eletroeletrônicos, eletrodomésticos e equipamentos industriais – que apresentam os melhores níveis de eficiência energética dentro de cada categoria. Só a partir daí o programa ganhou força e representatividade nacional.

De 1985 a 2007, para se ter uma ideia, a Eletrobras calcula que, por iniciativa do Procel, foi economizado 28,5 milhões de MWh no País, o que seria equivalente ao consumo de 16,3 milhões de residências e à energia gerada por uma hidrelétrica de capacidade instalada de 6.841MW, com um custo aproximado de R$ 19,9 bilhões.

Para reforçar a prática do uso eficiente da energia, foi criado em 1992 o Instituto Nacional de Eficiência Energética (Inee), uma organização não governamental sem fins lucrativos, sediada no Rio de Janeiro, que tem por objetivo promover a transformação e o uso final eficiente de todas as formas de energia. Além disso, outra entidade, a Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Conservação de Energia (Abesco), uma entidade civil, sem fins lucrativos, que representa oficialmente o segmento de eficiência energética brasileiro, fomenta e promove, desde 1997, ações e projetos para o crescimento do mercado de eficiência energética.

Mas, sem dúvidas, uma das ações que mais influenciou na adoção de medidas de gerenciamento de energia foi o racionamento de energia elétrica que o Brasil passou em 2001 e que ficou popularmente conhecido como o apagão energético. “Durante muito tempo, no Brasil, a energia não era cara e, por isso, não havia um estímulo para ações de uso consciente dela. Começou a haver uma consciência maior a partir do apagão, de 2001. Em função daquilo, muitos que não se preocupavam com a energia começaram a se preocupar”, comenta o mestre em sistemas de gestão e engenheiro de equipamentos sênior da Petrobras, Oscar Felizzola.

O racionamento foi provocado pelo déficit de geração de energia em comparação ao consumo. Em março de 2001, o governo federal admitiu a possibilidade de haver uma crise no abastecimento, o Ministério de Minas e Energia (MME) cogitou a possibilidade de interrupções temporárias e regionais no fornecimento e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) apresentou um projeto que multava quem consumisse mais energia do que a meta de redução do consumo. A economia compulsória de energia por parte dos consumidores foi iniciada em 1º de junho de 2001 e terminou em 1º de março, de 2002.

As regras básicas do racionamento, com as metas iniciais, eram: consumidores residenciais, comerciais e industriais de baixa tensão dos Estados das regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste, com consumo mensal acima de 100 kWh, tinham de reduzir 20% do seu gasto energético; consumidores comerciais e industriais, de média e alta tensão, tinham metas que variavam entre redução de 15% e 25%, conforme o ramo de atividade; e consumidores com consumo mensal máximo de 100 kWh ficaram isentos das penalidades do racionamento.

Nesse período, a GM tinha um grupo de energia elétrica, que coordenou a redução de consumo durante o racionamento. A gerente da área de energia e utilidades da General Motors do Brasil, Glaucia Roveri, conta que, nessa ocasião, a companhia tinha como meta do governo federal de reduzir o consumo em 15%, mas conseguiu chegar aos 22%. Na época, era um grupo bastante focado em energia elétrica, que teve a área de atuação ampliada em 2005, com a criação da unidade de energia e utilidades, subordinada ao Worldwide Facilities Group (WFG).

Antes de 2005, a empresa fazia monitoramentos e acompanhamentos do consumo de energia, mas não havia um gerenciamento propriamente dito. Este processo começou em 2005 com a criação da unidade. “A partir de 2005, a gente estruturou os programas de gestão, mas não que eles não existissem. Para te dar um exemplo, a GM foi uma das pioneiras na migração para o mercado livre de energia e isso, mesmo antes da formação do nosso grupo de energia e utilidades, já trouxe as primeiras iniciativas de gestão. Então, antes de 2005, a gente já tinha, obrigatoriamente, o gerenciamento dos contratos de energia do mercado livre e já existiam algumas iniciativas de consumo consciente de energia para redução do consumo”, relatou Glaucia.

A mudança ocorreu com a formação da unidade que Glaucia gerencia. “Quando se formou o grupo, a gente se estruturou e começou a implantar uma série de programas para a redução do consumo de energia e das utilidades, como ar comprimido, vapor, água gelada, água industrial, água potável, tratamento de efluentes, gás, energia elétrica e óleo”. Porém, mais importante, o conceito de gerenciamento e gestão de energia foi ampliado e englobou uma série de ações de racionalização de uso, que envolveu treinamento e conscientização de funcionários e colaboradores. Isso porque está crescendo a noção de que “gerenciamento de energia é uma coisa bem mais holística, bem mais ampla, do que só pensar em equipamentos mais eficientes”, explica Nilson Silva.

A década de 2000 foi determinante para a difusão de práticas de gerenciamento de energia por parte das empresas, sobretudo após o racionamento, finalizado em 2002. Diversas ações de eficiência energética adotadas pelo governo e por iniciativas privadas ou organizações não governamentais contribuíram para a conscientização em torno da economia de energia, tanto em consumidores industriais, quanto em comerciais e residenciais.

Em 2005, a Aneel publicou uma resolução normativa que estabeleceu os critérios para a aplicação de recursos em Programas de Eficiência Energética no País. Determinou, com isso, que as concessionárias de energia elétrica teriam de investir, até 31 de dezembro de 2005,
no mínimo, 0,5% da sua Receita Operacional Líquida (ROL) em programas de eficiência energética e, a partir de 1º de janeiro de 2006, o percentual passou para, no mínimo, 0,25%. Esta ROL é obtida, depois de descontados os impostos, a partir da venda de energia elétrica, da receita pela disponibilidade da rede elétrica, da renda da prestação de serviços das concessionárias, de arrendamentos e aluguéis, do serviço taxado e de outras receitas operacionais eventuais.

Menos de 1% da receita dessas empresas pode parecer pouco, mas, para se ter uma base de quanto isso representa no desenvolvimento de projetos de eficiência energética no País, em números absolutos, de 1998 a 2007, foi investido cerca de R$ 1,9 bilhão, referente a todas as concessionárias elétricas do Brasil, em programas desse tipo, segundo a Aneel. A estimativa da agência reguladora é que, no ciclo que compreende os anos de 2008 a 2010, seja investido aproximadamente R$ 1 bilhão. Com essa resolução normativa, diversas iniciativas foram realizadas no País.

Processos

Os processos de gerenciamento de energia foram facilitados com a difusão da informática e da eletrônica. Fazer o acompanhamento do consumo e obter as estimativas de redução tornaram-se ações mais simples com o uso de programas de computadores e sistemas sem fio. Antes disso, conta o diretor da WM Energia (uma empresa de monitoramento e controle de energia elétrica), Thiago Moret, eram utilizados grandes analisadores de energia, com tamanhos de um metro por um metro, muito diferentes dos portáteis de hoje em dia.

Esses analisadores eram grandes sistemas de monitoramento de energia, caros, que demoravam cerca de três dias para fazer a análise do evento. Além disso, o equipamento não podia ficar muito tempo fazendo a leitura porque ele tinha uma memória interna muito pequena. Nesse período, como estes produtos não tinham acesso à internet, o processo era lento e nunca em tempo real. Hoje, ao contrário, é usado um pequeno analisador que é plugado no leitor da concessionária de energia e pode-se acompanhar a leitura remotamente pela internet.

Moret esclarece que simples ações administrativas de gerenciamento já podem ajudar a reduzir os custos das empresas e solucionar uma série de problemas, além de funcionar como o “dedo duro” do sistema de gerenciamento. Ele exemplifica contando sobre um cliente que saía todos os dias no fim do expediente e desligava todas as luzes da empresa e aparelhos de ar-condicionado, mas, quando ele instalou o Sistema Integrado de Monitoramento Energético (Sime) – um sistema oferecido pela empresa WM Energia –, ele descobriu que havia um pico de consumo no meio da noite. Descobriu-se que o vigilante do turno noturno, sem saber ligar só o ar-condicionado da sala em que ficava, ligava o sistema de ar-condicionado central da empresa, gerando um consumo desnecessário.

Dessa forma, Moret aponta as três principais ações em que o gerenciamento de energia ajuda as empresas, independentemente do porte dela: no gerenciamento propriamente dito, ou seja, na melhor forma de usar o insumo de uma maneira não tão cara para o cliente; na administração do consumo, por exemplo, já que o sistema faz o monitoramento em espaços de tempos predeterminados, como de 15 em 15 minutos, então, dá amostragens por período de tempo; e pode acompanhar e identificar o mau uso de equipamentos por funcionários e colaboradores.

O gerenciamento de energia pode ajudar a adequar a empresa em um perfil de tarifa, conforme seu consumo. Por exemplo, a Aneel define tipos de tarifas e categorias de acordo com a necessidade de cada consumidor. Existem dois grupos básicos de consumidores, os do Grupo B, também conhecidos como secundários, que recebem o fornecimento monofásico, na faixa de 5 kVA a 37,5 kVA, e por redes trifásicas, de 15 kVA a 75 kVA; os do Grupo A, que são atendidos por redes trifásicas, com transformadores de 112,5 kVA a 1000 kVA, sob tensão acima de 2,3 kV; e cinco tipos de tarifas (ver tabela).

Um sistema de gerenciamento de energia, explica Thiago Moret, pode ajudar a identificar que determinada empresa deve sofrer uma mudança tarifária, de acordo com a sua necessidade e seu consumo e, assim, garantir mais economia financeira e menos desperdício de energia. Isso porque quando um novo consumidor de média tensão pede uma ligação de energia à concessionária, se não tiver muito conhecimento, pode ser enquadrado em uma categoria que não é a mais adequada ao seu perfil e acabar pagando preços mais altos.

Nova normalização

Um artifício que promete aumentar o número de empresas com ações de gerenciamento é a norma de gestão de energia, além de organizar os processos e certificar empresas. O documento está sendo elaborado na Organização Internacional de Normalização, a ISO, do inglês International Organization for Standardization. A norma, em questão, é a ISO 50001 e o início de seu desenvolvimento data de março de 2007.

O consultor do Procobre e coordenador da Comissão de Estudo Especial de Gestão da Energia instalada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), a ABNT/CEE-116, que participa da elaboração da norma, Alberto Fossa, conta que “o Brasil e os Estados Unidos puxaram o desenvolvimento da norma, entrando, em 2007, com uma indicação na Unido, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) para desenvolvimento industrial, para elaboração de uma norma internacional de gestão de energia, cuja secretaria pertence aos dois países”.

O comitê de projeto PC 242, responsável pela elaboração específica desta norma, é composto por 21 países oficialmente membros e cinco países observadores. Em cada reunião, participam de dois a três representantes de cada país. Fossa é um dos representantes brasileiros no grupo (o outro é Felipe Ledesma Vieira, da ABNT) e conta que a norma surgiu da preocupação internacional com relação às mudanças climáticas. “As mudanças climáticas sugerem que você avance mais equacionalmente no consumo de energia, tentando fazer um uso o mais racional possível desta energia, o que significa adequar o seu consumo ao meio ambiente”, explica Fossa.

A norma foi baseada em uma série de documentos internacionais. Para se ter ideia, até março de 2007, somente Dinamarca, Suécia, Irlanda e Estados Unidos tinham normas nacionais de gestão de energia. A China possuía uma minuta de norma, a Holanda uma especificação de gestão de energia, o Comitê Europeu para a Normalização (CEN) e o Comitê Europeu para a Normalização Eletrotécnica (Cenelec) chegaram a formar um grupo de trabalho para desenvolver uma norma comum para a União Europeia. Espanha, Tailândia e Coreia do Sul terminaram o trabalho de minutas de normas nacionais em junho de 2008, enquanto o Brasil e a África do Sul tinham iniciado esse processo.

A ISO 50001, de gestão de energia, será aplicada nos mesmos moldes das demais normas ISO. Como se trata de uma norma voluntária, em um primeiro momento, o governo deve oferecer algum incentivo, mais ou menos como aconteceu no início com as normas de gestão da qualidade (ISO 9001) e de meio ambiente (ISO 14001). “É importante deixar claro que qualquer empresa, de qualquer porte, poderá adotá-la”, ressalta Fossa. A previsão é que ela seja finalizada e publicada, no máximo, no segundo semestre de 2011.

Crises brasileiras de energia elétrica

O setor elétrico brasileiro demorou cerca de 50 anos depois que começou a ser formado para ser regulamentado – as primeiras regras são da década de 1930 –, mas até que ele fosse reestruturado, na última década, ele passou por muitos problemas e viu o País viver muitas crises de abastecimento de energia antes da mais famosa de 2001, quando houve o racionamento de energia e a população sofria o medo do apagão elétrico. Conheça as principais crises energéticas nacionais do Brasil antes da reorganização do setor elétrico.

  • 1985: crise na região Sul, devido à estiagem de chuva (reservatórios com índices de armazenamento inferiores a 40%), obras de geração de energia elétrica atrasadas, crescimento econômico do 4º trimestre de 1985 acima das previsões.
  • 1986: racionamento no 1º trimestre de 1986 na região Sul. Duração de três meses e meta de redução inicial de 20% no consumo. Incluiu ainda redução da tensão em até 5% na distribuição de energia elétrica e extensão do horário de verão por mais 30 dias. Fim do racionamento em 1º de abril de 1986, com índices de armazenamento dos reservatórios em 55%, com metas de redução atingidas.
  • 1986: região Sudeste sofreu grande risco de um racionamento de energia elétrica. Entre as medidas emergenciais adotadas estava o cancelamento de ofertas especiais tipo Energia Garantida por Tempo Determinado (EGTD), implantação de horário de verão em todo território nacional (de 2 de novembro de 1985 a 28 de fevereiro de 1986) e investimentos em termelétricas.
  • 1987: região Nordeste, Sul do Pará e Norte de Goiás (hoje Estado do Tocantins) enfrentaram período de racionamento de energia devido ao baixo volume de água nos mananciais hídricos e ao atraso no cronograma de obras de hidrelétricas previstas, por problemas financeiros da Eletrobras. Racionamento de março de 1987 a janeiro de 1988, com meta de redução inicial de 15% no consumo de energia.

Fonte: Dissertação “Os efeitos do racionamento de energia elétrica ocorrido no Brasil em 2001 e 2002 com ênfase no consumo de energia elétrica”, de Cesar Endrigo Alves Bardelin. Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/USP).

Pesquisa

  • Artigo “A crise do petróleo e os biocombustíveis”, de Edison Lobão.
  • Artigo “A crise de energia – possíveis impactos”, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
  • Artigo “A estratégia de adaptação do Brasil à crise do petróleo”, de Marco Antônio Campos Martins.
  • Artigo “Introdução ao uso da medição e verificação de economias de energia no Brasil”, do Instituto Nacional de Eficiência Energética (Inee).
  • Artigo “Aplicação das tarifas energéticas em sistemas de irrigação”, de Carlos Rogerio de Mello e Jacinto de Assunção Carvalho.
  • Dissertação “Os efeitos do racionamento de energia elétrica ocorrido no Brasil em 2001 e 2002 com ênfase no consumo de energia elétrica”, de Cesar Endrigo Alves Bardelin.
  • Resolução normativa nº 176, de 28 de novembro de 2005, da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

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