Geração e consumo de energia: como estamos?

set, 2015

Edição 115 – Agosto de 2015
Por José Starosta

Apesar do furacão, a nau tem de navegar e os indicadores da viagem têm de ser monitorados. O barco não pode afundar, temos de ir em frente contra tudo e contra todos. Os indicadores extraídos dos sites do Operador Nacional do Setor Elétrico (ONS) e da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) nos apontam para algumas informações importantes que merecem nossa atenção. As conclusões não cabem nesta coluna e possuem vertentes diversas, uma vez que nossa matriz de geração de energia depende fortemente do clima.


Figura 1 – Capacidade dos reservatórios das usinas hidrelétricas do Brasil – SIN Fonte: ONS

A Figura 1 apresenta a capacidade dos reservatórios das hidrelétricas do Brasil desde 2012, quando em fevereiro atingia níveis da ordem de 80% da capacidade. Em novembro de 2014, estávamos em valores menores que 20% e em julho de 2015 por volta de 40%. O mesmo gráfico pode ser gerado em energia equivalente acumulada (em GWh) com perfil semelhante.


Figura 2 – Geração hidráulica / térmica / eólica e carga média (“carga de energia”) Fonte: ONS

A Figura 2 apresenta o perfil da carga média consumida e suas fontes de geração. Os valores de consumo da carga já foram da ordem de 68 GW em fevereiro de 2014 e agora são de 56 GW com redução possivelmente causada pela recessão da indústria. Apesar desta redução de consumo, a geração térmica continua em níveis sem muita variação, da ordem de 13 GW a 15 GW mensais. A geração hidráulica caiu de 50 GW para quase 40 GW nos últimos seis meses, mesmo com o aumento do nível dos lagos (Figura 2). O que se pode observar destes dois gráficos é que, ao contrário da filosofia anterior à crise que tratava a energia térmica como complementar à hidrelétrica, a situação se inverte em uma alusão a uma necessária preservação por parte da ONS do nível dos reservatórios com a geração de energia térmica máxima disponível. De fato, um equilíbrio nada fácil de gerir.

Recentemente, o anúncio feito do desligamento de 20 usinas térmicas certamente influenciará os indicadores dos próximos meses com a redução da geração térmica.


Figura 3 – Consumo de energia por classes – Brasil – GWh Fonte: EPE

 

A Figura 3 extraída do site da EPE apresenta a variação de consumo por classe desde 2004 (GWh). Observa-se uma clara evolução do consumo das classes residencial e comercial, além de uma estagnação do consumo industrial desde 2010, com queda em 2014, que deverá ser ainda incrementada em 2015 se as previsões se confirmarem.

Em função da importante elevação dos custos de energia em 2015, a tendência dos últimos anos dos setores residencial e comercial apresentada na Figura 3 deverá ser alterada. Esta mudança pode já ser evidenciada na análise mensal do consumo total na Figura 2, neste ano de 2015.

Os investimentos anunciados em geração hidráulica e outras renováveis (ver coluna do consultor desta edição) levarão ainda algum tempo para serem transformados em usinas prontas em operação e energia gerada. Algumas questões ainda merecem reflexão:

  • Ainda temos potencial para geração de novas hidráulicas?
  • As renováveis (fotovoltaicas e solares) poderiam suprir as novas exigências do aumento previsto da carga, de modo a manter nossa matriz energética limpa?
  • Programas sérios de eficiência energética em grandes consumidores não deveriam ser incrementados, evitando ainda as perdas associadas por transmissão e distribuição de energia? A eficiência energética reduz o consumo no centro de consumo, uma fonte virtual de energia.
  • Nossa legislação de cobrança de excedentes de energia reativa não deveria ser revista como ferramenta de mitigação de perdas de transmissão e distribuição?
  • Os modelos tarifários estariam adequados às necessidades? Somente o mecanismo das bandeiras tarifárias seria suficiente para sinalizar o mercado?
  • Geração distribuída fotovoltaica vai depender até quando da fome de cobrança pelos estados do ICMS? Porém, quando haverá investimento incentivado para esta fonte? Que tal um novo Proinfa?
  • Como incentivar, sob os aspectos tarifários, novos empreendedores a implantar projetos inteligentes e eficientes?
  • Smart grid seria somente medidores de energia bidirecionais?

Que possamos logo achar o mar calmo ou o céu de brigadeiro para o nosso merecido e almejado desenvolvimento sustentável. Chega de lamentos, desesperanças e más notícias. Apontar o dedo para os erros cometidos efetivamente não resolve nada.

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