Geração distribuída e tarifa verde na média tensão – socorro ao SIN

mar, 2015

Edição 109 – Fevereiro de 2015
Por Luiz Fernando Arruda 

Irônico pensar que nosso ambiente regulatório reluta em aplicar uma tarifa compulsória variável nas horas do dia para o segmento de baixa tensão (BT), sendo que o setor de média tensão (MT) já convive há muitos anos com este tipo de tarifa (verde e azul). E é o segmento de MT que vai socorrer o sistema interligado nacional (SIN) exatamente por conta da tarifa chamada “verde”.

Ou seja, por mais duro que possa parecer, ser parte de um ambiente realista é sempre melhor do que se esconder como nesta famigerada “tarifa branca”, instituída para a BT, que não decola de jeito algum (ainda bem, pois é o melhor exemplo de perda que conheço!).

Desde o início de 2014 abordamos o tema da insegurança energética que o Brasil enfrentava e já sugeríamos que se ampliassem os benefícios da tarifa verde, de forma a dar um refresco na situação.

Nada foi feito e a coisa está ficando fora de controle, e isso, agora, está na ordem do dia. Lembro que, se tivéssemos iniciado ações no ano passado, hoje este sistema de compensação estaria mais maduro e teríamos mais consciência do quanto ele pode ajudar e dos riscos que traz.

A despeito de uma portaria antiga da Aneel que obriga a registrar toda geração a diesel existente nas unidades consumidoras, o fato é que ninguém sabe ao certo qual o valor total desta possível contribuição. Alguns utilizam o vale de demanda no horário de pico e chegam a estratosféricos 8 GW, mas se esquecem que muitas unidades consumidoras (UC) simplesmente deixam de consumir e não transferem carga para a geração a diesel.

Assim, dentro do que se sabe, em algumas distribuidoras mais organizadas, este valor talvez seja algo próximo de 4 GW a 5 GW, o que não é pouco. Estamos falando de quatro usinas hidrelétricas de Furnas ou 1/3 de uma Itaipu, distribuídas, e que parte disso pode, inclusive, ser colocada em paralelo como o sistema de distribuição (muitas unidades consumidoras têm os dispositivos de proteção e controle necessários).

A medição dessas unidades consumidoras já permite leitura nos quatro quadrantes e, portanto, é possível fazer qualquer tipo de compensação de energia entregue ao sistema da concessionária. A fatura ficará mais complicada, mas, de forma geral, as distribuidoras já têm isso preparado por conta da RN 482/2012 da Aneel.

A questão da logística do óleo combustível tem que ser pensada, pois a maior parte das UCs possui pequena capacidade de armazenamento para operar somente três horas por dia. O preço deste combustível teria de ser diferido também e isso poderia ser feito via incentivo na fatura de energia (há proporcionalidade entre KWh gerado e óleo consumido).

Vai ser uma decisão que exige coragem e bom preparo físico caso se permita injeção de potência nas redes de distribuição, mas, para pacientes terminais, nem sempre é possível evitar uma boa “transfusão”. Viver pressupõe correr e gerenciar riscos!

Quanto mais demorarmos para enfrentar a crise, maiores são os riscos.

Se também tivéssemos tido ambientes de negócio mais propícios a uma automação menos incipiente (na distribuição, mas também na transmissão e nas subestações há muito o que fazer) nos sistemas de distribuição via regulação menos restritiva e mais realista e avançada, agora poderíamos controlar a iluminação pública e evitar aquela loucura de ir de poste em poste desligando lâmpadas e reatores. Poderíamos também ampliar vantagens da tarifa de BT e baixar picos de energia causados pelas residências!

Agora é tarde e vamos ter mesmo de usar o conceito ATP (arranjo técnico provisório), nome pomposo para o que é chamado vulgarmente de “gambiarra”.

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