Eólica alcança 7% da matriz elétrica brasileira

jun, 2017

Em 2016, mais 2 GW da energia gerada a partir dos ventos foram instalados, totalizando 10,75 GW; investimento no período foi de US$ 5,4 bilhões

 As fontes renováveis de energia estão cada vez mais presentes na matriz elétrica mundial. O Brasil, apesar de contar com uma matriz majoritariamente proveniente de energia limpa, enfrenta grandes dificuldades de abastecimento por conta da sazonalidade dos reservatórios das hidrelétricas, nossa principal fonte. As energias solar e eólica aparecem como grandes aliadas para garantir o suprimento do sistema. A redução dos custos dos equipamentos para estes tipos de geração, as políticas de incentivo e de financiamento e a existência dos leilões, ao longo dos anos, vêm facilitando a entrada das fontes renováveis, que, em pouco tempo, já conquistaram uma importante participação nessa matriz.

A energia eólica vem alcançando números que impressionam. Em 2016, foram adicionados mais 2 GW de energia eólica de capacidade instalada à matriz elétrica brasileira distribuídos em 81 novos parques. Os estados contemplados com os novos empreendimentos foram: Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia, Pernambuco, Piauí e Rio Grande do Sul. Por mais um ano consecutivo, o Rio Grande do Norte é o líder de nova capacidade instalada, com 640 MW e 25 usinas. O segundo colocado, Ceará, contou com 21 novas usinas e 485,03 MW de fonte eólica instalada. No período, foram US$ 5,4 bilhões de investimentos na fonte. No total, são 10,75 GW de capacidade instalada em 430 parques eólicos.

As informações são do Boletim Anual de Geração Eólica 2016, lançado pela Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), neste mês de maio, e que fornece as principais informações da indústria eólica no país.

De acordo com o boletim, a fonte foi responsável por gerar mais de 30 mil postos de trabalho em 2016. Segundo o mais recente relatório da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena), publicado também em maio deste ano, as novas instalações eólicas contribuíram para um aumento de 7% no emprego eólico global, que alcançou a marca de 1,2 milhão de postos de trabalho.

“Nos últimos quatro anos, por exemplo, o número de empregos nos setores solar e eólico mais do que dobrou. As energias renováveis ​​estão apoiando diretamente objetivos socioeconômicos mais amplos, com a geração de empregos cada vez mais reconhecida como um componente central da transição energética global. À medida que a balança continua a pender em favor das energias renováveis, esperamos que o número de pessoas trabalhando no setor de energias renováveis ​​possa chegar a 24 milhões até 2030, mais do que compensando as perdas de postos de trabalho com combustíveis fósseis e se tornando um grande motor de desenvolvimento econômico em todo o mundo”, analisou o diretor geral da Irena, Adnan Z. Amin.

Considerando todas as fontes de geração de energia elétrica, em 2016, foram instalados 9,43 GW de potência, cujo crescimento foi liderado principalmente pelas fontes hidrelétrica e eólica, que representaram 60,15% e 21,35%, respectivamente. Em 2016, 52 milhões de pessoas receberam energia elétrica produzida pelos ventos. Com isso, a fonte passa a ser responsável por 7,1% da matriz elétrica do país.

De acordo com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), a geração de energia eólica cresceu, no ano passado, 55% em relação a 2015, quando a capacidade instalada era de 8,73 GW.

Segundo o boletim da Abeeólica, a capacidade instalada de 10,75 GW é composta por 10,22 GW de parques em operação comercial (95,11%), 0,17 GW de operação em teste (1,59%) e 0,35 GW de parques aptos a operar (3,30%). Estes últimos estariam impedidos a disponibilizar sua energia para o sistema em razão de atraso ou restrição no sistema de distribuição ou transmissão.

“Os números apresentados no boletim refletem um setor vigoroso e com grande capacidade de captação de recursos e de investimentos. Em 2017, vamos instalar uma considerável nova capacidade e devemos terminar o ano com cerca de 13 GW. Será um bom resultado, mas sempre é bom lembrar que ele é consequência de leilões realizados em anos anteriores. Como sabemos, o cancelamento do Leilão de Reserva no final do ano foi uma notícia muito negativa para a indústria e tirou o setor de sua trajetória positiva: 2016 foi o primeiro ano, desde que as eólicas começaram a participar de leilões, em que não houve contratação de energia dessa fonte. Por isso, todos os nossos esforços neste momento estão num diálogo transparente e técnico com governo sobre a necessidade de novos leilões. A contratação de energia eólica em 2017 é indispensável para o futuro da fonte no Brasil”, declarou a presidente executiva da Abeeólica, Elbia Gannoum.

 

Fator de capacidade

O vento brasileiro é um dos melhores do mundo. O aproveitamento do vento para gerar energia (relação entre o GWh gerado e a potência instalada ao longo de um ano) em 2016 no Brasil foi de 40,7%. Resultado que, conforme diz o boletim, consolida a fonte que, mesmo contemplando todos os parques eólicos instalados no Brasil, inclusive os adquiridos no Proinfa (cm fator de capacidade médio igual a 29%), mantém um valor de desempenho ímpar, superior a diversos países no mundo.

Elbia Gannoum explica que o vento brasileiro é um dos melhores do mundo por conta de três fatores: alta velocidade (entre 10 m/s e 12 m/s), constância e por ser unidirecional.

Em picos instantâneos, o fator de capacidade dos parques eólicos atingiu valores superiores a 70%, como foi o caso no recorde de geração do subsistema Nordeste, quando, em 05/11/2016, a geração eólica média diária atingiu 5.077 MWmed. Neste dia, 52% da energia consumida no Nordeste foi proveniente de eólicas.

Sobre a força das eólicas no Nordeste, a presidente da Abeeólica chegou a afirmar que se o Brasil não fosse interligado, o Nordeste, certamente, teria problemas de racionamento, não fossem as eólicas. A executiva se referiu aos baixos níveis dos reservatórios das hidrelétricas da região.

O boletim da Associação informa que, mesmo com a queda na demanda por energia elétrica no sistema em 2016, a queda no nível de água dos reservatórios mostrou-se preocupante. “O reservatório de Sobradinho, por exemplo, iniciou o ano de 2017 com cerca de 12% de sua capacidade, mesmo com redução de vazão”, diz o documento. Nesse sentido, a diversificação da matriz é fundamental para garantir o suprimento do sistema, ganhando destaque a ampliação da oferta de energia eólica.

 

Os desafios da eólica

O Brasil tem alguns dos melhores recursos eólicos do mundo, excedendo as necessidades atuais de eletricidade do país três vezes, de acordo com o Global Wind Energy Council (GWEC).

Embora o mercado de eólica continue crescendo, o setor tem diversos desafios pela frente, além da crise econômica e da redução da demanda por energia. O ano de 2016 foi o primeiro ano, desde 2009, a não realizar um leilão para a fonte eólica, o que, certamente, terá um impacto sobre a indústria do setor, que foi surpreendida com o cancelamento do segundo leilão de reserva, em dezembro do ano passado. “Os fabricantes de aerogeradores estão com 50% a 60% de ociosidade em 2017. Eles precisam de uma previsão, de planejamento do governo para continuarem no país”, afirmou Elbia Gannoum.

Segundo o GWEC, em relatório divulgado em abril deste ano, o cancelamento do leilão significa dizer que não haverá energia de reserva disponível quando a economia voltar a crescer. Quando isso acontecer, mais térmicas terão de ser ativadas e, com isso, o custo da energia aumentará.

Em concordância com a Abeeólica, o GWEC afirma que os leilões de reserva fazem parte de um planejamento estratégico e o seu cancelamento vai de encontro ao objetivo do Governo de colocar a economia de volta na trilha do crescimento. “Além disso, o planejamento baseado em segurança é ainda mais importante agora, enquanto o governo tem uma intensa agenda para promover um crescimento renovado, que envolve novos investimentos em infraestrutura”, diz o documento.

Para 2017, há grandes desafios: demanda, transmissão e financiamento. Segundo o GWEC, a situação chamada de “sobra de energia” está superestimada e pode desaparecer em um ano ruim para a hidroeletricidade ou em uma rápida recuperação econômica. “É fundamental manter o volume de acréscimo de 2GW de energia eólica por ano para manter a cadeia de suprimento”, diz o relatório. No que diz respeito à transmissão, o GWEC entende que é um problema grave no país. Três estados – Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Bahia, grandes produtores de energia eólica – não puderam participar do Leilão de Reserva (cancelado) por problemas de transmissão.

No tocante ao financiamento, a boa notícia é que o BNDES anunciou novas regras para o setor de energia e pretende apoiar as energias renováveis de baixo impacto e manter as condições para a energia eólica. Para o GWEC, o Brasil, no entanto, precisa também desenvolver suas linhas de financiamento e promover mais discussões sobre a possibilidade de bancos privados estarem mais envolvidos em financiamentos de infraestrutura.

De qualquer maneira, apesar dos desafios, as expectativas para o futuro da fonte eólica no país são otimistas. Segundo a Abeeólica, em 2017, a previsão é de que uma grande capacidade seja instalada e o ano termine com cerca de 13 GW, o que ainda será consequência de leilões realizados em anos anteriores. Dessa maneira, o ano de 2017 deverá ser de muita dedicação para garantir que existam novas contratações para um crescimento seguro e sustentável para a indústria eólica.

O ano de 2016 foi encerrado com US# 5,4 bilhões investidos no setor eólico. Considerando o período de 2009 a 2016, esse número chega a US$ 32 bilhões.

No que diz respeito à capacidade eólica acumulada, o Brasil ocupa agora a nona posição, tendo ultrapassado a Itália no ranking mundial.

 

Por Flávia Lima

Edição 136 – Maio de 2017

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